segunda-feira, 3 de agosto de 2009

VEM AÍ O SÃO JOAQUIM DO CURIAÚ


Fotos: Fernando Canto

O Amapá é pródigo em festas de santos. Só em Mazagão o ciclo santoral abrange 17. Mas é a partir de julho que as mais tradicionais ocorrem, à exceção do Marabaixo que é vinculado à festa católica de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. Entre elas está a bela e pouco difundida festa de São Joaquim do Curiaú.

Localizado na zona norte de Macapá, o Curiaú se destaca pela beleza cênica de seus campos e lagos e pela tradição mantida por seus habitantes. Seus valores culturais até hoje permanecem e são diariamente praticados pelos mais velhos através da medicina caseira e do recontar dos mitos e lendas que nasceram e se amalgamaram com a religiosidade de origem católica. Justamente aí é que os rituais se estabelecem bem originais, talvez como no passado, porque os agentes sacramentais dos ritos são pessoas da própria comunidade, respeitadíssimas devido à idade e a sabedoria que possuem.

Nesse contexto, a festividade de São Joaquim emerge como a mais importante de todas as outras do lugar, pois ele é o santo padroeiro da comunidade. Sua realização se dá nos meados de agosto, quando os moradores se mobilizam para externar sua devoção por meio de uma programação que traz em si um sistema comum das festas populares da Amazônia, com procissões, missas, festeiros previamente escolhidos e bailes dançantes.

O diferencial de possuir as ladainhas cantadas em latim, que lembram o antigo Cantochão, um tipo de música "essencialmente monocórdica e com
ritmo orientado pela articulação do texto", no dizer de Mário de Andrade, confere às comemorações em honra a São Joaquim um espetáculo à parte, pois emerge de tempos imemoriais e proporciona a valorização dos saberes ancestrais.

A festa traz ainda as Folias cantadas em louvor ao santo pelo grupo de foliões que as acompanham com violas, cavaquinhos, sinos e uma percussão caracterizada por instrumentos fabricados pelos próprios músicos.

Depois dessas demonstrações de fé é que começam os preparativos para o Batuque, com o esquentar do couro dos pandeiros e dos tambores, também chamados "macacos", porque são feitos do tronco escavado da árvore chamada macacaueiro.

Sentados sobre os tambores, os ritmistas iniciam as músicas que são cantadas por um solista de voz firme e afinada. Os dançarinos respondem em coro e circulam o grupo de músicos no centro do salão. Dançam arrastando os pés, evoluindo sobre si mesmos, num percurso contrário ao do ponteiro do relógio, como se fizessem uma viagem cantando contra o tempo e lutando pela liberdade de seus antepassados.

Nos dias de festa o Batuque rompe silêncios e atravessa a noite, enquanto os rostos suados, as gargantas roucas e as mãos quase sangrando pelo amassar e pelo repenicar dos tambores, parecem não querer parar. Nesse momento, junto ao sol raiando, possivelmente esteja contida a força e o amor dos que fazem o Curiaú ser um lugar de beleza e de tradição das coisas amapaenses.



Publicado no Jornal "A Gazeta" de domingo, 02/08/2009.

sábado, 1 de agosto de 2009

CIDADE LANÇANTE



Esta baía

é uma grande gamela de líquidas contorções, ondas que bailam sob a música do vento.

Esta baía

não guarda mais o sangue inglês do comandante Roger Frey que pereceu sob a espada implacável do capitão Ayres Chichorro a 14 de julho de 1632, um dia claro, aliás, de verão amazônico, quando o sol derretia naus e o piche dos tombadilhos. Nem o sol, nem o vento, nem o oceano lá adiante cogitavam que naquela mesma data, dali a 157 anos o povo francês tomaria a Bastilha.

Na margem

esquerda deste rio imensurável uma floresta úmida abrigava uns seres esquisitos, cabeludos e cheios de penas coloridas que os portugueses conheciam por Tucuju, Tikuju, Tecoju ou Tecoyen. Segundo ensina a mestra Dominique esse era um povo de origem Aruaque, ocupante da Costa Sul do Amapá que se tornou aliado dos holandeses, dos franceses e dos irlandeses. Por isso foi atacado impiedosamente por uma expedição do desbravador Pedro Teixeira no ano da graça de 1624. Sua história, no contexto da nossa, dá conta que após a façanha do capitão português esse povo procurou abrigo no Cabo do Norte, mas foi reduzido pelos jesuítas a uma missão no baixo Araguari e pelos capuchinhos no baixo Jari. É provável que um pequeno grupo tenha sobrevivido ao sul do município de Mazagão até o início do século XIX. Desse pequenino grupo restaram apenas as cinzas do tempo e um soluço quase imperceptível que morre a cada segundo na agonia de todos os silêncios.

Esta baía

guarda estranhos segredos: uns são contados em língua morta, quando o hálito da madrugada sopra depois que a lua assim determina. Esses são de difícil entendimento. Os outros pairam nos escaninhos dos tabocais ou na boca das pirararas. Dificilmente serão contados.

O estuário

deste rio dadivoso acelera a corrente de 2,5 quilômetros por hora para jogar no oceano cerca de 220 milhões de metros cúbicos de água por segundo. O inacreditável é que apenas o desaguar de 24 horas daria para abastecer de água potável uma cidade superpovoada como São Paulo por quase 30 anos. Números são números, diria o matemático. Nessa foz está a redenção de nossa terra, diz o sonhador sem perder sua utopia. Do barro e dos detritos aluviais se faz a vida. E ela está ali dentro das águas à espera da sustentação das mãos trabalhadoras.

Esta baía

não se faz só de águas e barcos deslizando ao sabor das ondas. Ela abriga uma pequena jóia nascida sobre a várzea dos aturiás, velada há dois séculos por uma fortaleza plantada em cima de falésias.

Macapá, velho

pomar das macabas, carrega dentro de si a similitude de um éden tropical das narrativas dos antigos viajantes, até por ser banhada por tantos líquidos e cheiros advindos diariamente pela chuva refrescante e pela espuma das lançantes marés.

Macaba, Maca-paba:

gordura, óleo, seiva do fruto da palmeira, vida e princípio desta terra, posto que a sombra traz a ternura e contrasta com o benefício da luz que se espraia por glebas de esperança.

Antiga terra

da maleita e da febre terçã. Terra do "já teve" já não és. Mas alguns homens ainda jogam em teu traçado xadrez e, silenciosos, manipulam segredos e conspiram contra ti, a degradar-te e degredando teus verdadeiros sonhos e tua vocação para o abrigar da vida que se espera. Mesmo assim a felicidade bem insiste em se hospedar em ti.

Embora batizada

com nome de santo - especialíssimo no panteão católico - teus habitantes não ficam isentos dos perigos: pés se torcem ou se fraturam todos os dias nos buracos das ruas outrora bem cuidadas.

Agora eu

fico aqui me perguntando: por que quando te fundaram ergueram um pelourinho? - "Símbolo das franquias municipais", dirão os doutos e sisudos professores. Ora, quantos homens não castigaram seus escravos até à morte após a partida do governador Francisco, porque estes aproveitaram para fugir durante a solenidade.

Um tralhoto

viu e contou ao Mucuim que diz-que o Ouvidor-Geral e Corregedor Paschoal de Abranches Madeira Fernando tomou um porre de excelente vinho do Porto ofertado a ele nesse dia pelo plenipotenciário capitão-general Mendonça Furtado, que daqui zarpou para o rio Negro para demarcar as fronteiras do reino, a mando de Pombal. Foi um dia de festa aquele 04 de fevereiro de 1758, porque nasceu naquele instante a vila de São José de Macapá.

E ela

cresceu e fez linda e amada, pois os caruanas das águas vez por outra rondam em espirais por aí, passeando em livros abertos, nos teclados dos computadores, pelas portas e pelos filtros dos aparelhos de ar condicionado, nos protegendo das agruras naturais e das decisões de homens isentos do compromisso de te amar. Parabéns, Macapá!

Publicado em 1998, por ocasião dos 240º anos de fundação da vila de Macapá

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O TEXTO PREMIADO DO LÉO





Esta crônica foi publicada no jornal "O Liberal Amapá", logo após a morte do inesquecível amigo Leonardo de Almeida Vilhena, brutalmente assassinado em 22 de julho de 2002, em Brasília. Léo nasceu em Macapá em 06 de novembro de 1952. Era economista, professor, escritor (publicou dois livros de economia e contabilidade) e jornalista. A ele a nossa homenagem.


Leonardo de Vilhena, amigo de infância e de adolescência era um exímio marchador dos desfiles do dia da Pátria. Puxava pelotão do GM como só ele. Era disciplinado e muito aplicado. Na escola, só tirava notas altas. Um grande futuro estava reservado para ele. Mesmo tímido, Leonardo tinha um vasto círculo de amizades. Formou-se, à duras penas, como Bacharel em Economia e em Licenciatura em Geografia, em Belém. Trabalhou por anos com Planejamento no Governo do Amapá. Mestre em Orçamento Público pela Fundação Getúlio Vargas, tornou-se escritor e apaixonou-se pelo jornalismo. Começou novamente do zero: cursou Comunicação no Rio e foi lecionar jornalismo na UNB, onde ficou até este ano, quando viria para a UFPa.
Leonardo, o Léo, apesar de ter convivido com as tragédias de amigos, era um homem feliz. E mais feliz ficou quando ganhou o prêmio de Melhor Entrevista promovido pela Revista Imprensa, em julho de 1991. Léo publicou na Gazeta Mercantil o texto “Um Roxo não Presidenciável”, que transcreverei abaixo. Na sua dedicatória, falava que o texto era seu “primeiro prêmio jornalístico nacional”.
Da amizade das praças do Laguinho, por onde sonhamos o futuro do nosso povo, às farras no bairro do Trem, para onde se mudou com a família, até ao Rio de Janeiro e Brasília, onde nos encontramos por muitas vezes, ficou a marca eterna da admiração pelo Léo, um jornalista de talento que foi brutalmente arrebatado deste mundo, dez anos após o seu primeiro prêmio jornalístico. É inesquecível a frase que dizia à sua irmã Gracinha, quando chegávamos, a turma toda, para visitá-lo: “- Mana, o pessoal do Laguinho tá aí”.

Eis, então, o texto premiado de Leonardo Vilhena:

“UM ROXO NÃO PRESIDENCIÁVEL – Já passou pela sua cabeça que existem também outras pessoas com “aquilo roxo” e que sempre vão estar no anonimato? Pois é, Severino Alves dos Santos, igualmente alagoano, garante que a cor de sua virilidade é a mesma de seu famoso conterrâneo. Só que diz isso de uma maneira diferente. Severino é poeta de literatura de cordel e assegura: “Também tenho aquilo roxo / Mas famoso não vou ficar / O meu roxo é mais humilde / Eu sei bem do meu lugar/”. Nascido há 45 anos no município de Olivença, em Alagoas, “terra dos chegantes, dos passantes, dos retirantes e dos poucos edificantes”, Severino, aos 10 anos, já estava no Rio de Janeiro, na luta pela sobrevivência. Casado com a prima Maria das Dores, 7 filhos, morando no bairro de Santíssimo, zona oeste, ex-pedreiro de construção civil, atualmente é ascensorista do Edifício França na Av. Presidente Vargas. Simpático, comunicativo, envolvente, Severino è aquele tipo “figura” que as pessoas costumam dizer: “Se você não existisse teria que ser inventado”. Para Márcio Batista, estagiário de um escritório de engenharia no 8º andar do Edifício França, o ascensorista é a sabedoria personificada. “O Sevé é meu amigão. Quando estou com problemas ele me dá conselhos muito úteis”, afirma. São conselhos, receitas, simpatias, orações, sugestões, horóscopos, opiniões meteorológicas, palavras de apoio e carinho. Enfim, o conselheiro-mor do prédio. Cláudia de Almeida, secretária no 11º, lembra que num determinado dia de verão, às duas da tarde, elevado lotado, todos calados, mal humorados, pingandos de suor. Severino arrisca: “É uma frente fria que veio lá do Ceará”. Gargalhada geral.
Apesar de ter apenas o primário incompleto, Severino se expressa com desenvoltura e com um vocabulário de fazer inveja a muito letrado. Um detalhe: é leitor assíduo da Gazeta Mercantil e discute finanças como ninguém. Cristina Toledo, economista de uma financeira no 10º andar, adora discutir novas medidas econômicas com Sevé e não lhe poupa elogios. “Ele tem um senso crítico muito apurado, é inteligente, perspicaz e de um poder de síntese impressionante”, afirma com carinho. Ainda sobre economia, Severino é fã ardoroso da ex-ministra Zélia. Admirava a personalidade forte e a coragem com que enfrentava os grandes cartéis, que segundo ele, ainda são os responsáveis pelo caos na economia brasileira. E no sobe e desce do elevador improvisa ao novo ministro: “Ministro Marcílio, eu lhe peço / Acabe logo com a inflação / O povo não agüenta mais / De tanta judiação / Vamos acabar morrendo / Todos de inanição”.
Os versos do poeta também têm seu lado erótico – quase pornô – que se manifesta às sextas-feiras, durante os chopinhos após o expediente. Aí a inspiração libidinosa vem à tona. Para aquela moça bonita que vai passando, Sevé ensaia: “Menina casa comigo / Que não morre de fome / Lá em casa tem uma pinta / Nós dois mata e nós dois come / De dia tu come a pinta / De noite o pinto te come”. A erotização aumenta na mesma proporção dos chopps tomados. Os bons companheiros das “saideiras” garantem que alguns versos são verdadeiras obras primas e que mereciam constar de uma antologia de poesia erótica. Ninguém duvida.
Mas Sevé não é nenhum Don Juan. É notória a fama de Das Dores que, discretamente, o mantém sob suas rédeas. Aliás, Severino faz questão de ressaltar que a fidelidade conjugal é uma de suas qualidades. “A patroa é a minha cara-metade, me completa em todos os sentidos”, garante.
Voltando à cor ora em moda, Severino acha que se fosse ele que saísse por ai dizendo que tem “aquilo roxo”, seguramente iria ser chamado de vulgar, grosseiro, Paraíba e assim por diante. Mas como foi “Ele” que falou, a coisa virou modismo e qualquer dia vai ser tema de mini-série na Globo. Meio magoado, de brincadeirinha avisa: “Vou deixar de ser poeta / Não vale a pena não / Se o “Homem” pode tudo / E vai pra televisão / Os meus versos so servem / Para fazer figuração / Tudo está me deixando / Sem nenhuma inspiração”.
Um “figuraço”, sem dúvida! (Leonardo de Vilhena).”

quarta-feira, 29 de julho de 2009

ESTRADA DO TEMPO

Eis que o tempo bate. Implacável.
Mas lembranças são raios que iluminam a memória
De um tempo que fomos para sermos o que somos
Veja aí. O conjunto “Famber”, do antigo Grêmio Jesus de Nazaré.
Ano: 1970. Local: Rua Leopoldo Machado com Avenida Mãe Luzia.
Ao fundo a casa do seu Winter, hoje famosa sorveteria Jesus de Nazaré.
Personagens: Bi Trindade (voz), Fernando Canto (contrabaixo), Edmilson “Pianola” e Manoel Jacson Amorim Coelho (guitarra),
Tempo da calça justa e sapato “conga”. Lá atrás duas “pequenas” passantes.

Foto: Acervo de Fernando Canto


segunda-feira, 27 de julho de 2009

O SENTIDO DAS MÁSCARAS DE MAZAGÃO

Alinhar ao centroAs Caraças (foto) utilizadas pelos "Máscaras" na festa de São Tiago, em Mazagão Velho, são confeccionadas com papel de revistas e jornais, goma de tapioca e tintas diversas (inclusive de urucum e de esmalte de unhas), tipo papel marchê. Hoje são poucos os artesãos que ainda fabricam estes artefatos, em razão da facilidade de aquisição de máscaras industrializadas para o carnaval. Foto: Fernando Canto

Há alguns anos ministrei palestra para uma turma de Sociologia do Ceap sobre "Cultura e Poder", enfocando aspectos da Festa de São Tiago de Mazagão Velho, a convite do professor Luís Alberto Guedes. Nesse dia levei uma caraça utilizada pelos "máscaras" e pedi aos alunos que a experimentassem em seus rostos. As reações foram as mais diversas e a discussão bem participativa.


Entretanto, se por trás da máscara há um mundo de significados, pela frente pode representar a face divina, a face do sol. Ela exterioriza às vezes tendências demoníacas (Teatro de Bali, máscaras carnavalescas), manifesta o aspecto satânico. Ás vezes não esconde, mas revela tendências inferiores que é preciso por a correr, porque não se utiliza uma máscara impunemente. Ela é um objeto de cerimônias rituais, como por exemplo, as máscaras funerárias, que são arquétipos imutáveis nas quais a morte se reintegra. Na China ela se destina a fixar a alma errante. Também preenche a função de agente regulador da circulação das energias espirituais espalhadas pelo mundo e visa controlar e dominar o mundo invisível.


Na Festa de São Tiago ela é usada no "Baile de Máscaras" que ocorre no dia 24 de julho, e é um dos aspectos ritualísticos mais importantes, pois simboliza uma cena de regozijo à vitória que os mouros julgavam ter obtido sobre os cristãos. O baile ocorre após terem oferecido comida envenenada a eles, visando dar oportunidade aos que quisessem passar para seu lado. É um baile de homens onde todos estão fantasiados, mas às mulheres e crianças é proibida a participação. Eles dançam no sentido inverso ao do relógio até ao amanhecer.


Ao meio-dia um personagem mascarado chamado "Bobo Velho" passa três vezes no território cristão e é apedrejado pela assistência, pois se trata de um espião mouro tentando obter informações. Na cena do "Rapto das Criancinhas Cristãs", os "Máscaras", dezenas de atores populares, surgem fantasiados, assustando e arrebatando olhares de medo das crianças que os assistem.


A máscara parece ser uma transferência de energia que tem o sentido de mutação e que transcende o drama. Já o "Baile" é uma festa dentro da festa. É uma cena de um drama em que paradoxalmente ocorre a oportunidade de se desregrar (pela ingestão do álcool). Mas é quando se subverte a realidade constituída, pois a organização social do drama tem seus apelos e sanções: se há notícia de outra festa na vila, os "Máscaras" vão até lá e acabam com ela. Fazem respeitar as normas da tradição e tecem críticas à realidade através de um grande boneco mascarado chamado "Judas", que todo ano muda de nome, conforme o momento histórico e a decisão dos que o confeccionaram.


O "Baile de Máscaras" é uma forma de representação do potencial subversivo das festas, não só pela crítica, mas pelo dançar constante na direção inversa ao do ponteiro do relógio, tratando-se de um embate contínuo com o tempo, quando os brincantes giram e vão se espiralando, afastando o tempo linear e vivendo a dimensão da memória, num tempo mítico, onde os acontecimentos heróicos se repetem pelos rituais.


Culturalmente as máscaras de Mazagão Velho podem ser vistas como um aspecto místico da festa porque traduzem o tempo, a memória e o ritual que organiza a memória, a história e a sobrevivência da sociedade. Assim a cultura da festa se efetiva porque suas crenças, gestos e valores são oriundos de um processo de criação de homens e mulheres e que são partilhados por todos, por meio de juízos de valor e símbolos.


A utilização da máscara na Festa de São Tiago é de disfarce, de aparência e de jogo estratégico. E para entender melhor esse processo nada como pôr no rosto uma caraça, pois assim cada um assumirá também o papel que subverte e mete medo, e que também diverte, mas, sobretudo, que une e corporifica os valores culturais daquela sociedade.


sábado, 25 de julho de 2009

Pesquisadores e incentivadores da Festa de São Tiago


Professora Zaide Soledade, sua filha Socorro e a historiadora Decleoma Lobato


Professor Munhoz Lopes e minha amiga Cristina Homobono, a quem parabenizo pelo seu aniversário recém-comemorado em sua residência em Mazagão Velho.
Fotos: Fernando Canto

A Tradição da Festa de São Tiago em Mazagão Velho – Estado do Amapá


Figuras representativas de São Tiago e São Jorge


Imagem de São Tiago Matamouros

Círio de São Tiago pelas ruas da Vila de Mazagão Velho
Figura do Menino Caldeirinha, príncipe mouro
Fotos Fernando Canto/2005

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Presente de meu amigo Juraci Siqueira



Recebi hoje, pelo correio, este maravilhoso presente do escritor Juraci Siqueira, editado pela Secult/Seduc/Amu-PA, em 2007. Há um verbete sobre a minha obra musical e literária. É uma honra.
Quero agradecer a lembrança do insigne folclorista, musicólogo e antropólogo Vicente Salles, prefaciador de meu ensaio "A Água Benta e o Diabo", e companheiro de inúmeras viagens de pesquisas musicais pelo interior do Pará, na década de 1990.
Devo informar que o volume em tela também traz verbetes sobre o Mestre Oscar Santos e o músico Joãozinho Gomes.


"Canto, Fernando Pimentel. Poeta, prosador, músico e compositor. Óbidos/PA, 1954. Viveu a infância e juventude em Macapá, dedicando-se ao jornalismo, à literatura e à música popular, participando de festivais e integrando o grupo Pilão. Bacharelou-se em Ciências Sociais pela UFPA, com especialização em antropologia. Professor na UNESPA e assessor do Núcleo de Artes da UFPA. Participou de várias antologias e lançou: Os Periquitos Comem Mangas na Avenida (poesia),São José de Macapá: Roteiro poético, Evandro Salvador: Artigos, contos e poesias (organizador), Telas e Quintais (crônicas e textos culturais sobre o ex-Território Federal). Exerce o magistério e atividades culturais em Macapá, dedicando-se ainda à pesquisa e estudo da cultura popular, em especial das comunidades negras do Curiaú e Macapazinho."

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Aniversário de Nonato Leal - 82 anos de puro talento musical


Lembro do primeiro contato que tive com esse incrível e generoso músico no final dos anos 70, quando iniciava por conta própria a aprender violão. E foi num dia de Festival Amapaense da Canção, sob a frondosa mutambeira do grupo escolar Barão do Rio Branco que Nonato me viu e me deu a dica de uma passagem de tom na música que eu executava. Depois ele adentrou o ex-cine Territorial para ensaiar sua composição que seria a vencedora do festival, em parceria com o inesquecível poeta Alcy Araújo.



A modéstia do violonista é conhecida por todo mundo junto ao seu inominável talento que atravessou décadas encantando os mais diversificados públicos que tiveram a oportunidade de ouvir seu trabalho. Requisitadíssimo, Nonato Leal jamais se furtou a um bom convite para tocar, pois sempre soube se valorizar, embora nas rodas boêmias fosse um integrante como qualquer outro bom bebedor, um companheiro divertido que nem ao menos se zangava com as piadas que faziam sobre sua terra natal e lhe insinuavam ser o protagonista principal. Vigiense de boa cepa, até hoje adora um bom caldo de cabeça de gurijuba, ao qual atribui ser afrodisíaco, e a fruta do cedro, parecida com o taperebá, que considera o melhor tira-gosto para a cachaça.



Sua participação no crescimento da nossa música foi determinante. Nonato tocou em diversos grupos musicais, ao lado de instrumentistas famosos como Sebastião Mont'Alverne e Amilar Brenha, Hernani Guedes, Chico Cara de Cachorro e Zé Crioulo, Aimorezinho, Manoel Cordeiro e tantos outros. Tocava qualquer instrumento de corda: foi o primeiro artista do Amapá que vi tocando guitarra havaiana. Participou da gravação do LP "Marabaixo" do conjunto "Os Mocambos", em 1973. Seu programa de rádio "Recital de Nonato Leal" por anos teve audiência assegurada nas rádios de Macapá. Mas foi como professor que disseminou o amor pela música a dezenas de discípulos que hoje ganharam o rumo da profissionalização musical, incluindo aí seus filhos Venilton e Vanildo Leal. Seu primeiro CD "Lamento Beduíno", editado em 1997, com arranjos de Manoel Cordeiro, esgotou-se rapidamente. Nesse trabalho tive a honra de escrever um texto a pedido dele, do qual reproduzo o primeiro parágrafo:



"A saudade de Macapá me fez sintonizar ao acaso a Rádio Neederland em uma noite fria e triste em Belo Horizonte no ano de 1974. De repente um solo de violão me chamou a atenção. Tratava-se de uma música com temática oriental, muito bonita e bem executada, chamada "Lamento Beduíno", do professor Nonato Leal, de Macapá, Território Federal do Amapá, Brasil, dizia o locutor daquela rádio holandesa. Vibrei! Coincidência ou não a história mudou meu astral e motivou um porre de pavulagem bairrista. Pena que ninguém que eu conhecia tivesse ouvido o programa. Tempos depois soube que fora o radialista Edvar Motta que enviara uma fita com músicas do Nonato para lá".

Na foto, Nonato Leal e Aymorezinho, no Bar do Abreu

terça-feira, 21 de julho de 2009

21/07/1899 – Nasceu Ernest Hemingway

Ernest Hemingway foi jornalista e escritor norte-americano. Em 1916, como repórter, alistou-se no exército italiano sendo gravemente ferido em batalha. Ao deixar o hospital se tornou correspondente em Paris e lançou o livro "O Sol Também Se Levanta", seu primeiro grande sucesso. Em 1929, publicou "Adeus às Armas", onde descreveu sua experiência militar na Itália.
Em 1932 foi para a Espanha, onde produziu "Morte à Tarde", sobre as touradas; participou de caçadas na África Central, que foram relatadas em "As Verdes Colinas da África", de 1935; participou da Guerra Civil Espanhola e escreveu "Por Quem os Sinos Dobram" em 1940; de suas experiências como pescador em Cuba, surgiu, em 1952, "O Velho e o Mar", livro que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer.
Hemingway foi ainda ganhador do Nobel de Literatura em 1954. Em 1961, o autor se suicidou em sua casa nos EUA.

Disponível em www.igeduca.com.br

AMIZADE ESSENCIAL


Graças a Deus sempre tive muitos amigos: de infância, de escola, de bar, amigos que fiz no decorrer de uma vida cheia de altos e baixos e que sempre pude contar com eles nas horas que precisei. Até porque "amigo é pra se guardar no lado esquerdo do peito", como disseram o Fernando Brant e o Milton Nascimento. Não se têm amigos só para jogar conversa fora, brindar em uma comemoração ou para fazer (in)confidências, às vezes mentirosas e desnecessárias. Nesse caso sempre a amizade vai por água abaixo quando se vê um segredo traído e, pior, espalhado pelos sete cantos da cidade. Já tive "amigos" que supus serem Amigos, que ajudei pensando estar fazendo um bem, e que a ingratidão deles brotou como espinhosa árvore na lavoura que tentei cultivar.


Não falo de inimigos, pois como os ex-amigos, eles não merecem a minha ira. Apenas desprezo o que não quero prezar. Eles são meramente pontos obscuros de referência na encarnação de um maniqueísmo torpe, trivial e vulgar. Amigo mesmo é para contar com ele na hora da necessidade, para se divertir, criar junto e imaginar um mundo melhor para os que nascerão. È o protótipo de nossa própria utopia.


Talvez fosse desnecessário este preâmbulo para falar de gente que gostamos de graça e nem fosse conveniente registrar numa crônica o apreço que sentimos por certas pessoas que às vezes, por gestos naturais e descomprometidos, nem sabem a extensão do bem que fizeram a nós em determinados períodos de nossa história pessoal. É verdade que nesse caminhar encontramos amigos dos amigos que não são nossos amigos, mas que os toleramos por respeito à admiração pessoal ao amigo titular. Assim também é verdade que falseamos nossa conduta para não decepciona-lo, embora acreditando que de falso em falso se chega ao cadafalso.


Machado de Assis dizia em "Ressurreição" que o tempo não conta para a amizade: "Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos". Talvez o tempo seja o que conta para quebrar os obstáculos, pois ele "é o único caminho que rompe o inacessível absoluto", no dizer da filósofa espanhola Maria Zambrano. E dizem que muitas amizades que se rompem, um dia voltando, passam a ser mais do que eram independentemente das diferenças do passado. Voltam mais sólidas e mais maduras. E passam a ver que sempre existiu alguém interessado nesse rompimento. Coisas de novela.


Pessoas que estimamos passam por provações e se tornam sábias sem saber se são, ou pelo menos não demonstram isso. Há as que têm as almas simples e vivem num mundo aparentemente sofisticado. Mas as almas dos amigos muito se assemelham a casas: algumas delas são cheias de janelas abertas, onde corre ar puro e luz, outras são como prisões, fechadas e escuras, mas que merecem nossa consideração e respeito, porque a alma entende-se a si mesma e o amigo vale a afeição que fazemos valer por ele. E Uma alma, mesmo fechada, sempre traz uma luz que pode nos iluminar e banhar-se a si própria.


Amigos têm defeitos e mazelas. Por essa imperfeição mútua é que normalmente amizades se atraem, bem como pela admiração recíproca de cada desempenho social. Uns moldam outros, outros se espelham em alguém. Mas na amizade só não pode existir a incorporação da personalidade do amigo. Deve haver o respeito à solidão e ao silêncio do outro. Espíritos amigos voam na mesma direção da fonte original e bebem da mesma água fresca. Devem saciar sua sede bem antes que ela seja poluída pelos interesses pessoais de qualquer conspirador. A amizade só é possível pela oportunidade.


Imagem extraída do livro "Sobre o Tempo e a Eternidade" de Rubem Alves. Ed. Papirus. São Paulo, 1996

segunda-feira, 20 de julho de 2009

PARABÉNS MINHA FILHA


Parabéns Julia, pelo seu aniversário.



JÚLIA


Minha dor não lacrimeja
Sangra
Salga sofre e sobrevive
como o pássaro amazônico
Minha saudade é doída
É doida
É longa e viva
mesmo ao im(pacto)
da roda morta
das horas
Minha saudade rosna por aí

É uma saudade cega
seca e chuva
Minha saudade é uma cidade

grande
obesa, depravada
e noite


É uma saudade gasta
É uma saudade jade
É uma saudade Júlia

Publicado no livro "Os Periquitos Comem Mangas na Avenida". Macapá, 1984. Poema musicado por Joel Elias e gravado por Sabatião

A MORTE E O ESPANTO



Mircea Eliade conta no seu livro "O conhecimento sagrado de todas as eras" que há quatro tipos de mitos sobre a origem da morte. Um deles é o tipo da serpente e sua pele eliminada, da Melanésia.

Esse mito fala que no começo os homens nunca morriam, entretanto ao atingir certa idade eliminavam a pele como as cobras e os caranguejos, e novamente ficavam jovens. Reza o mito que certa vez uma mulher que estava ficando velha foi a um regato para mudar de pele. Ao se desfazer da pele velha, lançando-a à água, notou que a pele foi levada pela corrente, mas que ficou presa em um galho seco. Depois voltou para casa onde tinha deixado o filho. Este, contudo, recusou-se a reconhecê-la, e disse chorando, que sua mãe era uma velha, diferente dessa jovem estranha; e assim, a fim de acalmar a criança, a mãe voltou ao regato em busca de seu tegumento eliminado e vestiu-o novamente. Desde então os seres humanos deixaram de eliminar a pele e começaram a morrer.


A explicação do nascimento da morte em todas as culturas é sempre seguida pelo inevitável encontro com ela e pela explicação da imortalidade da alma humana, alma que ela introduz aos desconhecidos mundos dos infernos e dos paraísos. Ela é a filha da noite e irmã do sono, por isso possui como a mãe e o irmão o poder regenerador. Se o ser que ela abate vive apenas no nível material ou bestial, ele fica na sombra dos infernos; se, ao contrário, ele vive no nível espiritual, ela lhe revela os campos de luz.
Desde que nascemos convivemos com a morte. Há uma permanente tensão por não sabermos nem como nem quando pereceremos. Enquanto isso vamos alimentado os mais diversos símbolos para espantá-la do dia-a-dia ou procurando formas de chegar ao paraíso, onde seremos recompensados pelo que fizemos de bom. Mas também cultuamos forças maléficas e procuramos incessantemente a imortalidade.


Os símbolos da morte estão presentes em todos os lugares e em todos os níveis de existência nessa tensão permanente entre as forças contrárias da vida e da morte. Desde crianças convivemos com ela, através de representações iconográficas de caveiras, túmulos, personagens vestidos com um manto negro e armados de foice, serpente, cavalo, cachorro ou outros animais psicopompos (condutores das almas dos mortos, na mitologia grega). Todos nós convivemos com riscos e contamos nossas histórias depois de passadas as tensões; tentamos evitar esse flagelo de muitas formas, principalmente com as novas descobertas da ciência, e pensamos em enganá-la sempre que sentimos sua presença, como nas histórias de cordel.


Entretanto conviver com ela significa conviver com a realidade; denota estar dentro de um mercado amplo e indiferente aos sentimentos, com todas as suas mazelas e artimanhas. Morremos um pouco quando os entes queridos partem e sofremos ao compartilharmos nossas dores com a perda de amigos, de ídolos e de nossas referências pessoais.


O sonho da morte e a realidade da vida - e vice-versa - trazem dentro de cada ato findo um pouco da poesia daquilo que parte, que renasce como um caminho para uma nova aventura da vida. Não a poesia funesta, a tristeza fúnebre, a fantasia gótica, mas o enleio, o espanto, a sombra perdida na floresta que volta para o corpo em forma de alma. Sim aos despojos da pele da serpente, renovada na jovem mulher que o filho não mais reconhece como sua mãe.


Ah, a imersão de Dante na Divina Comédia, a descida de Orfeu aos infernos para resgatar a alma de Eurídice, sua bela esposa; Gilgamesh em sua epopéia em busca da imortalidade e a descida de Ishtar, deusa da vida e da fertilidade, ao mundo inferior.
O mito, o sonho da imortalidade, a explicação na lógica de cada cultura fundem-se na abstração que ora faço enlevado pela imagem de um corpo sem sombra – a alma assombrada, que vi num tempo de espanto, de maravilha, e de afugentação. Então: "Vai-te daqui, ó Morte, segue teu caminho especial separado daquele que os deuses costumam trilhar./ A ti que tens olhos e ouves, digo: não toques em nossos descendentes, não magoes nossos heróis". ("Rig Veda", X, 18).


Publicado no jornal "A Gazeta", 19 e 20/7/2009

sábado, 18 de julho de 2009

18 JULHO - DIA DO TROVADOR





Homenagem ao grande poeta e trovador Juraci Siqueira (www.blogdobotojuraci.blogspot.com) com a trova que abre seu Blog do Boto:

NÃO TIRE FÉRIAS DA VIDA

Curta o mundo sem atalho,
com cuidado, sem corrida;
tire férias do trabalho,
não tire férias da vida!!!


O surgimento do nome da Trova está intimamente ligado à poesia da Idade Média. Durante a Idade Média, Trova era o sinônimo de poema e letra de música. Hoje a Trova possui a sua conceituação própria, diferenciando da Quadra e da Poesia de Cordel, e do Poema musicado da Idade Média. Trovadorismo foi a primeira escola literária portuguesa. Esse movimento literário compreende o período que vai, aproximadamente do século XII ao século XIV.
www.geocities.com/clerioborges/trovadorismo.html

Poema na Areia



Poema escrito na areia da praia que surge na maré vazante, no meio do Rio Amazonas, do outro lado da Ilha de Santana - AP. Passeio em família realizado em dezembro de 2002.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

SACO DE FRASES

Cresci num bairro segregado na geografia da minha cidade em formação. Era um local de densas matas e lagos de águas verdes abundante de aningas e buritis. Enquanto nossos pais trabalhavam nas repartições públicas, nós, crianças, jogávamos bola nas ruas empiçarradas, ou caçávamos com tiros certeiros de baladeiras os pobres passarinhos. Crianças implacáveis!

Entre as aulas e as brincadeiras, porém, eu andava pela doca da fortaleza, e pelas ruas do comércio vendendo jornais, escutando histórias e as aspirações das pessoas. A cidade tinha grandes esperanças. Mas de vez em quando eu ouvia vozes reclamantes tirarem seus lençóis sujos e descobrirem seus ranços pelos coaradores dos quintais: "caboclo preguiçoso", "velho caduco" "Japonês é traiçoeiro", "juiz ladrão", "branco ensebado", "preto retinto do Laguinho", "mulher burra", "arigó assassino", "prefeito ladrão", "judeu sovina", "índio fedorento", "moleque safado de uma figa", "todo político é corrupto", "puta escrota", "libanês esperto". Pessoas se xingavam, se machucavam.

Um dia comecei a ordenar essas frases e perguntei a uma freira o que significavam. Ela pediu que eu escrevesse uma a uma em pedaços de papel de embrulho, que as pusesse num saco e que o levasse até a lixeira para queimar. No trajeto o saco foi ficando cada vez mais pesado e eu sem forças. Só consegui arrastá-lo. Mas ele foi se gastando e se rasgando e algumas das frases saíram pelo rasgo e se perderam voando com o vento. Ao chegar à lixeira o saco estava leve. Só consegui incinerar umas poucas.

Hoje, quando percorro pelo antigo local da lixeira, sempre espero que o vento deixe pousar na minha frente uma daquelas frases escritas para que eu possa queimá-la, e assim extirpar do universo mais um preconceito que eu não deveria ter tido na caminhada da vida.

Publicado no livro EquinoCIO – Textuário do Meio do Mundo, Ed. Paka-Tatu, Belém – PA. 2004 e utilizado no vestibular da Universidade Estadual do Amapá, em 2008.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

HOSPEDEIRO DA NOITE PREMATURA

"No princípio eram pedras e paus. Então inventaram a lança, a funda, a flecha ..."


10
Mais brilhante que um cometa

da Europa surgirá um míssil

anunciando a vinda dos Quatro Cavaleiros

O espetáculo de fogo enseja

a renatividade de um Cristo confuso

entre dez mil estrelas desguiadas

e reis desintegrados no deserto

"Na batalha de Adrianópolis, no ano de 378, a cavalaria visigoda e ostrogoda dizimou as legiões romanas: 40 mil mortos".

9

Genebra é a capital da atenuação

Olhares antípodas se cruzam

e o mundo suspira de alívio

ligado nas cenas de sorrisos

e apertos de mãos

"A infantaria cedia lugar ao homem montado, uma arma dominaria os campos por séculos".

8

Homens e santos politizam gestos

privatizando o que não lhes pertence

Qualquer merda será lucro

escatológico

na proliferação dos cientistas

que criam os meios

e combatem os fins

Oh infeliz essência de evidência!

Lixo humano

poluindo inteligência

"Em 1139, um édito do Vaticano proibiu o uso da besta, exceto contra muçulmanos. Ela era capaz de penetrar uma cota de malha a 150 metros."

7

Dialogaram cuspindo painas

ao vento do inverno inadiável

o ponto convergente foi a certeza:

- Após a bomba a dor acabará.

Homens e robôs transformam a terra

fabricando ogivas

como quem fabrica filhos

Os arsenais se multiplicam

e as conversações aumentam

Quem sabe mesmo

são os intérpretes

(enclausurados nos segredos)

"No século XIV, o uso de canhões tornou inúteis os castelos e seus torreões. A pólvora deu impulso à busca de armas capazes de atingir o inimigo com maior rapidez e impacto".

6

Corre ocidente

Corre oriente

Corre boiada humana

Correm megatons

Cidades desenganadas

Desfile de dentes brancos

Sádicas gargalhadas

Maratonas de instrumentos

Botões e temperamentos

Quem ganhar tem como prêmio

O fogo desesperado

Do mito de Prometeu

"Um avanço simples – converte de rombuda para pontuda a extremidade da bala – tornou o fuzil uma arma extremamente mortal: 86% das baixas da guerra civil americana foram provocadas por fuzis".

5

A Paz é uma atividade guerreira

Inda que por meios mais obsoletos

o homem fere e vaza

os olhos do inimigo

Por trás do ódio absoluto

há um claro e louco canto

Agônico

Do homem

Hospedeiro da noite prematura

"O gás penetra em qualquer refúgio, o avião tornou desprotegido qualquer exército".

4

O sonho dos alquimistas

a doce ilusão de Dumont

se volatizam no ar-nada

No coletivo sufoco de Bhopal

No cheiro esdrúxulo da morte

mais que anunciada

por poucos preservadores da raça

Chernobyl, Chernobyl

Protótipo da noite longa

A noite dos fragmentos

noite dos fragmentos

dos fragmentos

fragmentos


"Mas foram criadas armas antitanques, máscaras contra gases, mísseis que derrubam aviões".

3

Presidentes, reis, xeiques, aiatolás

miram botões

Coçando as mãos

Antes, porém, fazem os tratados

Acordos e convenções

- pactos caros -

E louvam os desarmamentos

Dos outros, dos menos fortes

Os botões, sem vida, permanecem

à espera do aperto inconseqüente

Nações ardem em desespero

à revelia do último momento

Pela liberdade que definha

e por seus deuses que fugiram

"As armas nucleares elevaram a potência de impacto a níveis extremos, o uso de foguetes permitiu vencer a distância e a eletrônica tornou a precisão melimétrica"

2

Bomba, bomba

Excrescência da ciência

O tumor sem cura

Letal veneno que o saber

humano

jamais fabricou

  • Que mentiras devassam

o gênero do homem

e a evolução da espécie?

A doutrina armamentista

a oficina da destruição

ou o cinismo deflagrado

antes das armas

"Da besta ao míssil nuclear, a história da corrida armamentista é uma seqüência de 'últimas armas' sendo sobrepujadas pela seguinte, mais letal".

1

Como no Japão

Three Mile Island, Goiânia, Chernobyl

New York, New York, quem sabe Rio ou Tumucumaque

vivemos a iminência do perigo

a certeza do risco

e a ausência dos abrigos

O homem

- o hospedeiro da agonia

o mesmo fabricante das ogivas

pedirá clemência a ele próprio

quando a negação da raça

for a tônica primordial

do genocídio absoluto

"Uma arma, enfim, que colocará fim a todas as guerras".


FOGO!!!


Pesam, contudo, todos os avisos

a mão do ecologista

a graça

das crianças

o poema e a esperança

No outro lado da balança

treme, inexplicavelmente

a Gênese mal começada

ao som do Apocalipse...


Belém, 1987



N. A. As frases que antecedem os poemas foram retiradas do texto "Corrida Sem Fim da Arma Total" (revista ISTOÉ, de 20.11.85)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

DUPLO ARCO-ÍRIS



Um arco-íris duplo, lindo. O céu inundado de cores. Um espetáculo da natureza.

Publico esta imagem captada da janela de nossa casa para dar boasvindas ao Fernando que retorna hoje de Óbidos-PA. (Sônia Canto)

terça-feira, 14 de julho de 2009

O Marabaixo de 1898



O jornal “Pinsonia”, primeiro periódico a ser impresso e a circular em Macapá, provavelmente de 1895 a 1900, traz em sua edição de 25 de junho de 1898 um artigo anônimo denominado “Mar-Abaixo”.

Julgo que se faz necessário mostrar aos pesquisadores e leitores a visão da época sobre o folclore local, uma visão de aversão às manifestações populares, de caráter racista e discriminador. Na época o “Pinsonia” era propriedade do deputado e Redator-Chefe Mendonça Júnior, que não se encontrava na cidade, conforme o “noticiário” de primeira página em que o jornal diz ter recebido carta dele através do vapor “Pedro 2º”, no dia 17 do corrente. O Diretor-Gerente era o tenente-coronel José Antônio Sequeira, que como o seu chefe, virou nome de Rua em Macapá.

O texto, ipis litteris, é o seguinte:

“Até que afinal desapareceo o infernal folguedo, a dança diabola do Mar-Abaixo; serà uma felicidade, uma ventura, uma medida salutar aos órgãos acústicos, se tal troamento não soar mais, senão nas profundezas da terra, nos subterrâneos onde moram monstros, capazes de supportar tamanho ribombo de estravagante musica para meneio immoral e nojento”.
“Graças ao Divino-Espírito Santo, symbolo de nossa santa religião, que só exige a pratica das bôas acções, não ouviremos os silvos das víboras que dansam ao som medonho dos gritos dos maracajás, que ao mesmo tempo batem com as patas, produzindo barulho que faz arripiar as carnes, e os cabellos, que é sufficiente a provocar doudice á qualquer individuo”.
“O nosso primeiro artigo á respeito deu no gôto de muita gente boa, que dá alma vida e coração pelo tal brinquedo; deu-lhe no gôto, mas negativamente, pois não comprehendera o sentido da linguagem, toda moralisada, toda doutrinal, toda civilizada”.
“Alguém desesperou-se com a nossa licção de moral, a ponto de atirar apôdos ao nosso Director, que de coração bem formado, não negará misericórdia aos pobres de espírito”.
“Que o MAR-ABAIXO É INDECENTE, É O FÓCO DAS MISÉRIAS, O CENTRO DA LIBERTINAGEM, A CAUSA SEGURA DA PROSTITUIÇÃO, ASSEVERAMOS”. (grifo nosso)
“Que os paes de famílias não devem consentir as suas filhas e esposas freqüentarem tão inconveniente e assustador espetáculo DESSA DANSA, ORIUNDA DOS CAFRES, (grifo nosso) aconselhamos, para darmos bello, edeficante e moralisador exemplo de civilização, para demonstrarmos que enchergamos alguma cousa”.

Não nos foi possível identificar o autor desse artigo, mas ele mesmo cita que o seu primeiro texto a respeito do assunto, “deu no gôto de muita gente boa, mas negativamente”, e que seu diretor foi objeto de zombarias. É importante notar que o articulista moralista fala da “estravagante música para MENEIO immoral e nojento” e afirma que o marabaixo é a causa de todos os males daquela sociedade de outrora. Evidentemente que a situação deve ser contextualizada para uma análise melhor do fato, por isso considero esse texto mais que um desafio para pesquisadores. É uma viagem no tempo.

Em 31 de maio de 1899, edição nº116, o jornal traz o texto “Festa do Divino Espírito Santo”, assinado por Pancrácio Júnior (possivelmente pseudônimo de Mendonça Júnior), no qual elogia o festeiro e Juiz da festa Dr. Raimundo Álvares da Costa, faz interessantes descrições de alguns dos seus aspectos, mas se revolta com a ausência do cônego Teixeira, contratado para as solenidades da igreja e que vinha munido de portaria do governo do bispado e que desistira no último momento.

Mas essa já é outra história.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A MÚSICA ABRIU O BAR


Osmar Júnior, festejado cantor e compositor, reuniu amigos e admiradores na FAB, no final de junho para lançar seu CD do Bar do Abreu. O artista freqüenta o local há mais de duas décadas, sendo um acompanhante emérito do antigo bar itinerante e agora ponto boêmio mais tradicional da cidade.

De Zito Borborema trouxe de volta o sucesso dos anos sessenta “Ilha do Marajó”, aquela do “recebi um telegrama do meu velho pai/ me pedindo pra voltar”, que todos, surpreendentemente, sabem cantar por inteiro. Regravou “Pedra Negra”, do Grupo Pilão (Fernando Canto), com excelente arranjo e solo de guitarra do Cleverson Baía, interpondo um grito de indignação contundente no final da interpretação. Trouxe de volta composições suas, já gravadas, como “Kizomba”, “Pedra do Rio” e “Tarumã das Estrelas” e outras inéditas como “A Morada do Topo do Mundo” e “Sabiá Saudade”, além de “Blues Vinha D’alho” em parceria com o compositor paraense Walter Freitas e “A Brasileira” com Ronery.

A competência artística de Osmar jr. não se enquadra naquilo que equivocadamente chamam de regionalismo musical. Suas composições me parecem um esforço que procura extinguir o equívoco impregnado nesse rótulo.

A prova disso são as canções inclusas nesse CD, gravado ao vivo, onde o artista se expressa através de uma variedade de formas musicais de diferentes compositores e encontra o aplauso do público boêmio freqüentador do conhecido bar macapaense. Nesse trabalho o cantor-compositor se despoja de requintes para encontrar uma platéia fiel e contemplar no sorriso de seus fãs a satisfação de vê-lo cantando samba, marabaixo, xote e outras cantorias que a noite requer e chama. E vem acompanhado por grandes músicos locais que preenchem os espaços musicais com o poder dos seus talentos individuais, tais com o já citado Cleverson Baía, o Valério de Luca na bateria, Taronga, Alan Gomes e Odair, no contrabaixo (estúdio) e as participações especiais de Jeferson Silva no acordeon, Beto Oscar na viola e Ceará da Cuíca, que deram um “molho” fora do comum na execução das músicas.

Na canção “O Abreu Abriu o Bar”, um belo samba-bossa, Osmar mostra a realidade dos freqüentadores do local, retratando com a maior fidedignidade poética possível o que ali se sucede cotidianamente: os porres, os amores, os amigos, os poetas, a ilusão dos boêmios contumazes, o fiado, os jogos que passam na televisão e o apaixonado grito de gol do time do coração.

Suave, ótimo para ouvir e se deleitar, este CD é mais que um retrato do que se vem produzindo na música pelos nossos compositores e músicos: é, também, um ato de valorização das nossas coisas tradicionais – o próprio bar – já que tantos outros desapareceram e foram transformados sem que ninguém pudesse fazer alguma coisa. O bar Xodó, por exemplo, é apenas uma permanência na nossa memória, algo que fica porque representou um local da boemia macapaense que até hoje centenas de ex-frequentadores continuam festejando em réveillon, desde 1998.

Bom também será olhar o aspecto gráfico do produto. Um painel com caricatura dos proprietários e clientes, desenhado pelo artista plástico Alexandre Torres, procura retratar a o ambiente do bar, onde Osmar aparece em primeiro plano com seu violão.

A música de referência traz ainda uma homenagem póstuma aos poetas Alcy Araújo e Isnard Lima, citados nominalmente na canção, por serem também, como o compositor, insignes clientes do BA.

O CD “Osmar Jr. No Bar do Abreu” amplia o universo criativo do compositor, populariza ainda mais sua obra e representa uma ponte que reduz o fosso entre a música aqui produzida e a nossa vida amapaense.

Artigo publicado no Jornal A Gazeta, de 13/07/2009, disponível em http://www.jornalagazeta-ap.com/opiniao.htm