Canto da Amazônia

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A CULTURA NA EDUCAÇÃO

Publicado no jornal “A Gazeta” de domingo, 22/11/2009

Quando dizia, e lá se vão mais de três décadas, que dançava marabaixo e batuque algumas pessoas sorriam zombeteiras, e diziam: “tu vais lá no meio dos pretos porque és estudante de sociologia”. E até hoje quando defendo a comunidade negra e a sua cultura, preciso de certo esforço para tentar mudar a cara conservadora e racista de muitas pessoas “esclarecidas”, que usam da ironia e da piada para expressar verdadeiramente o que pensam sobre etnia, educação e cultura.

Valorizo a cultura regional porque é dela que vivo. Defendo com garra a regionalização da nossa cultura porque fazendo isso creio multiplicar o seu fortalecimento contra as perniciosidades da globalização, além de estar cooperando para o direcionamento de uma educação formal com suas especificidades.

Sabe-se que a educação ainda é uma “carta de intenções” colada às constituições da maioria das nações, principalmente das nações pobres, nas quais os quadros administrativos são sempre repressivos e hostis. Nessas nações passam longe características da educação que entre outros pontos visam reconhecer e respeitar as diferenças no plano individual e combater os preconceitos, discriminações e os privilégios no plano social. Educar, dizem os educadores, é também levar cada cidadão à fé no seu próprio potencial como agente de transformação qualitativa da própria vida e do mundo onde está inserido. Mas em muitos lugares os alunos recebem “matéria” em vez de se enriquecerem com o conhecimento. A cultura é que enriquece a alma e nos faz crescer.

Educadores falam que a educação formal vive ainda nas amarras da herança positivista-funcionalista, pois a Escola nem sempre prepara o cidadão para a crítica. Na prática, dizem eles, ela introjeta uma concepção de mundo quase submissa, intimidada, que arrefece a sua identidade e historicidade. A Escola muitas vezes é moralista, autoritária, repressiva e opressiva. Cumpre seu papel de censor ao reprimir, punir e suprimir os sonhos e as buscas individuais e coletivas. Os professores se preocupam e se perguntam: ora, se a realidade formal é assim, como caracterizamos nossa prática didático-pedagógica se reafirmamos todo o tempo essa concepção de sociedade, de política? Pelo meu lado costumo dizer que cultura é tudo aquilo que gera emoção. Contudo pergunto: como gerar essa emoção, como sistematizar a cultura no contexto da educação formal? Penso que só quando a olharmos num processo de interação afetiva, agindo e interagindo na sociedade, pois como cidadãos temos que assumir, cada um de nós, essa missão transformadora, sendo espécies de co-autores de uma utopia mais que necessária

Mas os professores ainda se perguntam: como vou transformar tudo isso? Como vou avaliar um aluno somente sob o ponto de vista didático-pedagógico? É certo que outros processos virão para reparar essa temida prática de juízo de valor, nem sempre justa. Por isso é preciso fazer da educação um processo integrador das práticas culturais. Práticas essas que contemplem Políticas de Cultura, que estimulem a solidariedade e não vejam a cultura apenas como um bem de consumo. Políticas que incluam os excluídos, para que seja um processo de criação em todos os níveis a fim de promover os valores humanos e privilegiar o conceito de cidadania e de democracia.

Ainda bem que novas medidas interativas entre educação formal e cultura saíram recentemente do papel e deverão contemplar, no ensino fundamental, a história e a cultura daqueles que precisam fortalecer sua identidade. Penso que isso será bom para os educadores, para os produtores culturais, para os alunos e para a educação brasileira.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

RUMOS DA CULTURA MACAPAENSE

marcelo_dias Vereador e músico Marcelo Dias chamando todo mundo para a Audiência Pública “Rumos da Cultura Macapaense” que acontecerá nesta terça-feira 24/11 a partir das 09:00h na Câmara de Vereadores de Macapá.

ITINERÂNCIAS & ENCONTROADAS

show_jomasam

Show do meu amigo Jomassan, na UNA. Ao fundo o Maestro Manoel Cordeiro.

rogério_boêmios

Rogério, da Universidade de Samba Boêmios do Laguinho, muito bem acompanhado.

tica_lemos_maria_josé Tica Lemos e Maria José.

ronaldo_abreu_lieteRonaldo Abreu e Liete.

Pelé_maracatu

Pelé, da Escolade Samba Maracatu da Favela.

paulo_sidney

Paulo Sidney.

nivito

Nivito Guedes, novo visual para o show da UNA.

leleo_a0_vento

Leleo, meu neto. Itinerando comigo pelo Igarapé das Mulheres.

bonfim_salgado

Jornalista Bonfim Salgado estreando novo celular. Respeite o tamanho!

O SALto mortal do peixE engAsgaDOR

peixe

Todos riam sem acreditar na história que eu contava. Aí, eu tirava logo da carteira um amarelo recorte de jornal e mostrava a eles que não era mentiroso. Ainda comentava que o jornal concorrente publicara àquele dia o fato, a foto e a desgraça de um cara muito azarado que morrera de má sorte entalado por um peixe.

O pescador infortunado Natan Coelho de Tal saiu com mais dois amigos numa pequena canoa no Furo do Maguari para pescar douradas e garantir o alimento da prole faminta e doente. Aproveitaram a lua cheia para tomar umas pingas enquanto os peixes brincavam com caruanas loirinhos ali no fundo do rio.

Natan Coelho de Tal, o primeiro a se embriagar, deitou-se na canoa ressonando seu cansaço de trabalhador e pai, bocejando a toda hora com a face para o luar, sem esperar a desdita que o rio ali lhe ofertava.

Foi então, bem de repente, que um peixe prateado pulou de dentro d’água e se alojou na garganta do pescador desgraçado. Ele acordou-se sofrendo, mas nenhum dos seus amigos entendeu o que se passava.

Só depois de muito tempo quando o sangue do infeliz fugia pelos buracos é que foram compreender o que havia acontecido. Então levaram Natan para um hospital da cidade, em vão, porque no caminho o pescador já era morto. Mortinho como o tal peixe que numa noite enluarada morreu por falta de ar.

Publicado no livro equinoCIO – Textuário do Meio do Mundo, Paka-Tatu, Belém-PA. 2004

mensAgens DA amaZÔNIA

De amor

Mensagem para a senhorita Ana Maria Moizinho na localidade de Carrapato do Piririm. “Ana Maria eu soube pelo Miguel Jesus que tu estás grávida. Eu estou muito feliz porque vou ser pai. Quero que saibas que te amo muito. Estou mandando um dinheiro pelo nosso futuro compadre e assim que puder vou aí. Prepara o açaí que o jabá eu levo quando for. Assina teu marido Cesário”.

Pedimos a quem ouvir esta mensagem favor transmiti-la ao destinatário.

De votos

Mensagem para os moradores do Furo do Jacarezinho e toda a região do Curral do Lemos. “Alô, Alô rapaziada preparem o torneio de futebol e o salão comunitário que eu já ordenei ao Arlindo para matar quatro bois da fazenda para a festa da minha vitória no sábado. Estou levando a cerveja gelada e os refrigerantes para as crianças. Quero todo mundo lá, mas sem confusão, senão não vai ter festa. Assina o Deputado Deocleciano Lemos”.

Pedimos a quem ouvir esta mensagem favor retransmiti-la aos destinatários.

De devotos

Atenção, atenção. Mensagem para a dona Raimunda Picanço no Siriubal do rio São Raimundo do Pirativa: “Informo que estarei chegando no próximo Domingo para a festa de São Raimundo. Esquente logo as caixas de Marabaixo para a gente dançar e tomar muita gengibirra. O Raimundinho vai comigo. Não esqueça de convidar a comunidade. Assina Antônio Juvenal Salgado”.

Pede-se a quem ouvir esta mensagem transmiti-la à destinatária.

De desgraça

Mensagem para o senhor Onésimo do Carmo na Currutela do Machico, no rio Cassiporé: “Compadre, lamento informar que sua esposa Zefinha faleceu no Hospital do Pronto Socorro depois que foi atropelada por um caminhão no bairro Jardim Felicidade. Seu filho Janary quebrou uma perna, mas passa bem. Venha urgente, mas se não puder vir logo, mande umas gramas de ouro para pagar o enterro e comprar remédio, porque o motorista atropelador fugiu e a polícia ainda não encontrou seu paradeiro. Assina seu primo e compadre João do Ouro”.

Pede-se a quem ouvir esta mensagem transmiti-la ao destinatário.

Publicado no livro equinoCIO – Textuário do Meio do Mundo, Paka-Tatu, Belém-PA. 2004

VInte e quaTro cARAS

24_caras

Vinte e quatro ladrões deidéisalheias, vinte e quatro Karaikos sem identidade, vinte e quatro alimárias, vinte e quatro fedegosos, vinte e quatro desativos, vinte e quatro legistijolos, vinte e quatro esbugalhados, vinte e quatro moscamortas, vinte e quatro sanguesugas, vinte e quatro harpias, vinte e quatro térmitas, vinte e quatro algoterríveis, vinte e quatro dãoecomis, vinte e quatro manganeses, vinte e quatro poluídos, vinte e quatro deolhonodinheiro, vinte e quatro aves de rapina, vinte e quatro cabrassafados, vinte e quatro esconjurados, vinte e quatro trajanotraidores, vinte e quatro povoenganadores, vinte e quatro zangarrilhos, vinte e quatro ligeiros, vinte e quatro enviados do Fute e uns três ou quatro separados do veneno.

Vinte e quatro pinguinsebosos, vinte e quatro festativos, vinte e quatro silvériosdosreis, vinte e quatro ferrabrases, vinte e quatro alucinados, vinte e quatro curupiras, vinte e quatro bestas do apocalipse, vinte e quatro pseudoretardados, vinte e quatro vampiros da floresta, vinte e quatro carcinomas metastásicos, vinte e quatro xixilados, vinte e quatro decadentes e uns dois ou três que ainda tem olhos.

Vinte e quatro bobovelhos, vinte e quatro morcegos hematófagos, vinte e quatro reiscaldeira, vinte e quatro bailesdemáscas, vinte e quatro ratosdeesgoto, vinte e quatro judas, vinte e quatro traíras, vinte e quatro solipsos, vinte e quatro surucucus, vinte e quatro lacraus, vinte e quatro pretensos nababos, vinte e quatro pantagruélicos, vinte e quatro onívoros, vinte e quatro lambe-sacos-e bigodes, vinte e quatro pantófagos, vinte e quatro pinóquios, vinte e quatro febres quartãs, vinte e quatro cleptomaníacos, vinte e quatro xerimbados, vinte e quatro blefadores, vinte e quatro assimdeolho, vinte e quatro oxiúros, vinte e quatro cabas-de-igreja, vinte e quatro nanicos anatematizados e um ou dois votovencidos

Publicado no livro equinoCIO – Textuário do Meio do Mundo, Paka-Tatu, Belém-PA. 2004

partIR/ficar/PARtIR

Viajo com nunca. Todos perguntam ou querem adivinhar minha origem e ainda especulam sobre meu modo de ser imprevisível. Por ser assim, e hábil em minha arte, recebo das mulheres e das crianças elogios que não sei se mereço, da mesma forma que percebo os olhares impiedosos dos medíocres.

Como eu mesmo, ninguém sabe meu destino porque ao partir fico e ao ficar parto.

Nunca revelo o segredo do partir nem o descanso imaginário do meio do caminho. Eu trago o grito desesperado das ariranhas no cio, o vôo agourento dos anuns e o desengonçado pouso do urubu-rei sobre a carniça. Meus defeitos estão à vista, não sou dado à perfeição porque ao ficar parto e ao partir fico.

Publicado no livro equinoCIO – Textuário do Meio do Mundo, Paka-Tatu, Belém-PA. 2004

sábado, 21 de novembro de 2009

A FILA

Publicado no Jornal do Dia em agosto de 2007

fila (1) Uma fileira de pessoas que chegam e se põem umas atrás das outras por ordem cronológica em algum lugar em que querem obter algum serviço ou coisa semelhante é uma fila. Seria, pelo seu valor consuetudinário, a coisa mais simples e democrática deste mundo. Cada qual no seu direito de ser atendido conforme a sua vez de chegada.

Mas no Brasil a fila nem sempre é uma coisa simples. É sempre objeto de leis organizativas em centenas de municípios. São famosas as filas inquietantes e desumanas, onde até já morreu gente como em hospitais, bancos, transportes, serviços de pagamentos de água e luz, e até nas infindáveis “filas do INSS”. Muitos problemas de tempo já foram solucionados por meio desses expedientes obrigatórios ou mesmo desburocratizantes que as próprias instituições que a utilizam no dia-a-dia o fazem para diminuir custos. Não pensem que é para ajudar os pobrezinhos dos clientes: grávidas, idosos, mulheres com crianças de colo e pessoas deficientes são beneficiadas mais por causa das leis humanizantes do que pela condescendência dos banqueiros, de seus afins e concessionários de serviços públicos.

Estar em uma fila é uma situação muitas vezes chata por causa da espera obrigatória. A pressa, o tempo que o trabalho impõe para um horário corrido e apertado condiciona a todos. Por isso muitas vezes se criam categorias especiais para atendimento, como o cliente especial dos bancos, que por ter mais dinheiro que os clientes normais, é atendido com presteza, rápido, e com um grande sorriso de satisfação. Enquanto os enfileirados suam, o “especial” se desvencilha do compromisso para ir em busca de mais ganhos, afinal o tempo é dinheiro.

E é nesse contexto que a gente mais observa as características dos que passam longo tempo em filas. A figura do cara-de-pau, por exemplo, aquele ser dissimulado que quer ter vantagem em tudo, é o conhecido “furão”, um peculiar malandro brasileiro. Ele chega e começa a conversar com um suposto amigo que lhe reservou lugar e fica lá até ser atendido. Ninguém fala nada, mas você fica indignado e pensa: – Deixa essa p. pra lá! É comum quando você já está perto de chegar ao guichê aparecer uns cinco ou seis dizendo que já estavam na fila, que marcaram o lugar. Você se assusta, mas não tem jeito. Brigar pra quê? Há aqueles que ao saberem que vão demorar começam a puxar papo e daqui a pouco se tornam íntimos nas suas conversas, mesmo sabendo que dificilmente tornarão a se encontrar. Existe a figura do organizador de fila, principalmente nas casas lotéricas, quando tem muita gente e chove, ou o sol da tarde bate forte. Há os reclamantes, que dizem que a fila não anda ou que alguém está fazendo apostas pelos outros e que vai, portanto, demorar mais. Não é difícil encontrar nos caixas eletrônicos aquela figura que deixou para fazer todos seus pagamentos naquele dia, justo na sua frente, quando você precisa urgentemente retirar dinheiro para pagar o táxi ou o gás que acabou pertinho do almoço. E os cambistas nas filas dos estádios e dos shows de artistas famosos? Esses, com o perdão do trocadilho, são impagáveis. Porém, pior mesmo são aqueles filistas. Filistas? Se a palavra não existe, passa agora a existir para nomear os portadores de celulares que ficam atrás da gente falando alto e fazendo da fila um escritório. Estes não alugam, eles filam (pedem) nossos ouvidos. Para finalizar lembro daquele que chega todo sorridente atrás da gente e faz a pergunta imbecil: - O senhor é o último?

Os portugueses chamam bicha para fila. E certa vez um amapaense foi a Portugal e, meio malandro, tentou furar a fila no supermercado, pois estava com pressa. Os portugueses se indignaram e gritaram em uníssono: - Olha a bicha, olha a bicha! E ele, assustado, perguntou: - Como é que vocês me descobriram aqui em Portugal, geeen-te do céu?

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

COLUNA CANTO DA AMAZÔNIA

Publicada no jornal A Gazeta de 20/11/2009

CENTRO DE ESTUDOS DA AMAZÔNIA

placa Foi inaugurado na segunda-feira passada o prédio do Centro de Estudos da Amazônia no campus da Unifap, um projeto financiado pela Finep através da Fundap, que será operacionalizado pelas unidades que compõem a RIPAP – Rede de Pesquisa do Estado do Amapá (Setec, Iepa, Ueap, Unifap e Embrapa).

Os representantes das instituições foram unânimes em afirmar que a esperada infra-estrutura para a pesquisa se consolida com iniciativas como essa, visto o crescimento do setor e o interesse dos estudantes universitários pela pesquisa científica.

Foto: Fernando Canto, com sombra :)

VIAGEM À ÁSIA

ac_fariasO secretário Antonio Carlos Farias em conversa informal revelou que sua viagem à Indonésia com a comitiva do Governo e Prefeitura foi muito proveitosa. Os empresários de lá acham que como vantagem comparativa o Amapá é o melhor lugar para investir na Amazônia. O poderoso grupo Salim, que produz alimentos a partir da imensa plantação de dendê naquele arquipélago asiático, também produz cimento e é um dos investidores interessados em se estabelecer no nosso Estado.

VIAGEM À ÁSIA 2

A comitiva esteve visitando as diversas ilhas daquele país, tendo inclusive ido a Bali, famosa pelos campeonatos populares de brigas de galo, tendo merecido um interessante estudo chamado “A Interpretação das Culturas”, de Cliford Geertz, O autor afirmas que as pessoas que as assistem se transformam em galos, assim meio parecido conosco quando viramos jogadores de futebol assistindo a uma partida.

AC Farias disse que Bali foi o lugar mais bonito que viu nessa viagem, principalmente pelas belezas do artesanato local, embora para chegar lá tenha passado por Dubai, considerada uma cidade fantástica pelas ousadias arquitetônicas. É uma cidade que não tem nada feio, mas é artificial, disse o secretário.

EXPOSIÇÃO DE FULVIO

pe_aldenor A Diocese de Macapá vai organizar uma exposição de pinturas do falecido padre Fúlvio Giuliani, prevista para junho de 2010, por ocasião do encerramento do Ano Sacerdotal e a festa do Sagrado Coração de Jesus.

O curador da exposição será o padre Aldenor Santos, que é mestre em Comunicação e doutor em Semiótica pala Universidade de Roma. Aldenor pretende expor em torno de 70 obras recuperadas do padre-pintor, entre as quais os seus primeiros quadros feitos em Macapá desde 1963, quando veio ainda jovem trabalhar como missionário leigo pelo Pontifício Instituto da Missões Estrangeiras - PIME.

Fúlvio morreu em 2007 e deixou inúmeras obras espalhadas pelos países que atuou como missionário, tendo se especializado em pintura bizantina. Um belo livro sobre sua vida e obra foi publicado recentemente na Itália, dando-lhe um lugar de honra na história da pintura daquele país.

INDUSTRIALIZAÇÃO DA AMAZÔNIA

claudia_chelala A professora Cláudia Chelala, pró-reitora de Administração e Planejamento da Universidade Federal do Amapá, vai defender sua tese de doutorado pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA no próximo dia 04 de dezembro.

A tese de Cláudia se chama “A Industrialização da Amazônia Oriental – Pará e Amapá -1967-2007”. Seu orientador é o professor doutor Fábio Castro da Silva, do NAEA.

ORIGENS AMAPAENSES

Encontrei no códice 158 do Arquivo Público do Pará este documento datado de 25.01.1765., no qual o comandante da vila de Macapá, Nuno da Cunha de Atayde Varona, participa a Atayde Teive, governador do Pará, que fica “certo da louvável providência que V.Exa. deu em benefício da fortificação desta praça, aumentando-lhe o número de operários com 200 pretos vindos de Angola”.

ZUNIDOR

Ronaldo Abreu disse que não dá canhoto de ingresso no seu bar. A mulher de quem assiste ao jogo vai ter que acreditar que aqui só tem cara direito, arrematou.

reitor_jose_carlos O reitor José Carlos Tavares, anunciou a aprovação pelo MEC do curso de Ciências Biológicas para Oiapoque, com disponibilização de 18 milhões de reais para a implantação de infra-estrutura e Laboratórios. O curso funcionará dentro do projeto de integração Brasil-França, para 2010, através da UNIFAP.

O 29º Congresso da ANDES-ST será realizado em Belém, no campus da UFPA entre 26 e 31 de janeiro. O tema é “Contrarreforma Universitária, ataques à carreira e ao trabalho docente: desafios da ANDESA-ST na luta em desfesa da Universidade Pública”.

chiquinha      carliane 

Dona Chiquinha do Bolão não perde a programação da semana de Zumbi dos Palmares no CCN, no Laguinho. Sua neta Carlienne concorreu ao título de “A Mais Bela Negra”.

Ontem a loja maçônica Duque de Caxias completou 61 anos de fundação.

Hoje é dia da Consciência Negra.

A Diocese de Macapá acaba de receber o seu terceiro canal de televisão. É o da TV Aparecida. A TV Nazaré, localizada em Santana, é lincada ao sistema da Redevida, de Macapá.

Por que nunca o Grupo Pilão é convidado para a programação da Seafro? Será que tem panelinha aí, hem Jara?

Vem aí o “Adoradores do Sol”.

Inderê. Volto zunindo na Sexta.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O ÚLTIMO VOO DO PAVÃO

Publicado no jornal A Gazeta, em maio de 2009

 pavao_marabaixo Mestre Pavão e sua tia Biló Ramos andando pelo Laguinho num dia de festa do Marabaixo.

Na segunda-feira, 11 de maio, o mestre Pavão bateu suas belas asas para nunca mais.

O homem do marabaixo partiu para encontrar-se com seus ancestrais, os mesmos que lhe ensinaram a tocar tão bem a caixa, o tambor que anunciava bons augúrios nas tardes do Laguinho. Com ele Pavão comunicava a seus pares, os agentes populares do sagrado, que a festa do Divino e da Santíssima Trindade já tinha início. E todo um ritual deveria ser obedecido, desde o Domingo da Aleluia, passando pelos preparativos da seleção dos mastros nas matas do Curiaú, até a sua derrubada e escolha dos próximos festeiros no Domingo do Senhor. Com ele se foi um arcabouço cultural de grande valia para a memória do nosso patrimônio imaterial. Foi-se também a sabedoria dos que fazem acontecer as manifestações mais legítimas do povo. E restou apenas o espanto dos que ficaram. Doente, não mais participava ativamente dos eventos do marabaixo como nos velhos tempos, mas sempre dava um jeito de ir em sua cadeira de rodas aos mais importantes, para ouvir o rufar das caixas e ver as saias da negras velhas rodarem sob o ritmo intenso oriundo de além-mar.

Pavão levava muito a sério o que fazia no marabaixo. Até brigava por ele. Seu amor pelo folclore certamente foi herdado do avô Julião Ramos, o grande líder negro, que na época da implantação do Território Federal do Amapá disseminou o ritmo e a dança para todo o Brasil. No domingo, véspera da sua morte, sua filha Ana perguntou-lhe se ia ao marabaixo do Dia das Mães na casa da Naíra – uma das festeiras deste ano no bairro do Laguinho. Ele disse que não ia porque estava indisposto, mas mandou todo o pessoal de sua casa para lá, pedindo que não deixassem a ”cultura morrer”. Mal sabiam todos de sua casa que a cultura do marabaixo, nele impregnada, estava morrendo um pouquinho com ele.

pavão_rostan_zip_net Justo que consideramos a memória como o deciframento do que somos à luz do que não somos mais, a morte é o abismo que tudo leva e engole inclusive o segredo da identidade, aquilo que nos pertence social e culturalmente. Posto isto, quantas conversas não foram abruptamente cortadas numa gravação para um trabalho de conclusão de curso dessas tantas faculdades da capital? Assim sendo, o que restou de seus depoimentos, desse depósito memorial tão importante para que se analise o marabaixo? Ora, sabe lá quantos pesquisadores egoístas guardam suas fitas encarunchadas e vídeos empoeirados que nunca vão se abrir para ninguém?

Mestre Pavão a todos respondia com a maior paciência, paciência esta que aprendeu a ter com a doença intratável que lhe fez perder uma perna. Mestre Pavão dava a todos o seu conhecimento vívido e vivido intensamente em setenta e dois anos de repetição ritualística que a sua memória avivava e exprimia no vai-e-vem dos olhos.

Aqui peço licença poética ao escritor moçambicano Mia Couto que escreveu o “Último Voo do Flamingo”, para parafraseá-lo, dizendo que o nosso pavão alçou seu último voo na tarde amena de maio. Um voo curto,é certo, porque pavões não voam quase nada, mas são aves do paraíso por excelência. Sua luxuriante plumagem em profusão de dourados, verdes e azuis à luz do sol reflete uma miríade de cores, onde o vermelho e o branco parecem estar presentes como se preparando para um desfile da Universidade de Samba Boêmios do Laguinho, a escola do coração do mestre. Convém lembrar aqui que o simbolismo do pavão carrega as qualidades de incorruptibilidade, imortalidade, beleza e glória, que por sua vez se baseia em outro aspecto além destes: a ave é predadora natural da serpente, e em certas partes do mundo, mesmo seu aspecto maravilhoso é creditado ao fato da ave transmutar espontaneamente os venenos que absorve do réptil. Este simbolismo de triunfo sobre a morte e capacidade de regeneração, liga ainda o animal ao elemento fogo.

Fogo, sim, do marabaixo quente, do “Caldeirão do Pavão” com seu caldo revitalizador do carnaval que tanto o mestre amava e por isso se enfeitava nos áureos tempos dos desfiles da FAB. Vai em paz, Pavão, tua plumagem tem cem olhos para vigiar o que deixaste entre nós.

Foto1: Acervo Fernando Canto

Foto2: Disponível em www.rostan.zip.net

HIP-HOP DAS ESFINGES

Publicado no Jornal do Dia, em março de 2006

hip_artigo Quanto mais vezes o território da segregação, a violência, a deficiência dos serviços públicos de transportes e a degradação ambiental, entre outros pontos significativos, são observados, os setores responsáveis pela cultura pouco ou nada incorporam da visão de guetos que surgem na periferia. Apesar de esforços de poucos, a democratização dos acessos aos bens culturais e a valorização da diversidade étnica regional é uma mentira que nem ao menos tem pernas curtas.

A cidade é o espelho da estrutura sócio-econômica do país e sua forma reflete as desigualdades causadas pelo desemprego, pela má distribuição de renda e pelos grandes paradoxos sociais e culturais que existem e que carecem de intervenções eficazes e mais abrangentes. A juventude sem escola, sem transporte ou emprego é conduzida à não-cidadania, e à invisibilidade social, cuja saída para a sobrevivência está na criminalidade, infelizmente uma lógica perversa que não pode ser desmontada sem uma utopia e o esforço solidário dos governos e da população.

O Ministro Gilberto Gil disse que “as cidades são esfinges que devoram antes e perguntam depois” ao referir-se à omissão do setor público, que promove o surgimento de um território informal onde o foco da violência se propaga rapidamente dos guetos e favelas para as grandes cidades e contamina o resto do país. No bojo desta questão Macapá não foge á regra. Mesmo levando em conta as dimensões da violência, sua proporcionalidade e freqüência criminal, ainda se pode oferecer à juventude serviços educacionais públicos de certa qualidade. Pode-se, sim, superar a exclusão através de projetos e medidas transformadoras em nível cultural que confere à criatividade dessa juventude valores potencializados. Acreditar nela é acreditar que tudo de ruim tem saída e que se pode produzir e dar dimensão econômica à cultura, sem o paternalismo exacerbado que sempre fez o favor de não construir nem estimular a contento a nossa produção. Aí então surge entre tantas outras atividades e projetos em todo o Brasil, a experiência bem sucedida dos movimentos afrorregae, timbalada e hip-hop, que Gil considera “expressões transdisciplinares, fruto da contaminação urbana”. O hip-hop é para o Ministro, “discurso, dança, poesia, música, design, moda e símbolo da cultura contemporânea em sua máxima potência”.

O movimento hip-hop (que quer dizer “mexer os quadris”) surgiu nos EUA na década de 70. Reunia negros e latinos e quatro ingredientes: um DJ que tocava bases ritmadas; um MC (Mestre de Cerimônias) cantando letras improvisadas; os breakdancings (dançarinos) e o grafite (pintura com spray). O rap, que os MCs cantam significa rhythm and poetry (ritmo e poesia). Surgiu dentro da cultura do hip-hop, mas hoje são quase sinônimos. Existem inúmeros nomes, gêneros e estilos (Fonte: Revista Estação Juventude, nº 2/2006)

hip_poka Em Macapá, um dos líderes do movimento é o dublê de jornalista e MC Poca que há alguns anos vem trabalhando com jovens em situação de vulnerabilidade social, juntamente com o MC Spike, que coordena 65 jovens no bairro Marabaixo III. Nos finais de semana ministram cursos de dança, grafite e palestras nas escolas sobre a questão racial e outros temas. Poca diz que o hip-hop significa um instrumento de transformação da juventude. Até mulheres fazem parte, como o grupo DRF (Dança de Rua Feminista), com cinco integrantes. Há programas de rádio específicos do movimento: o “Hip-hop na Veia”, aos sábados na Difusora e o “Quilombos e Periferias”, também aos sábados ao meio-dia na rádio Novo Tempo, 105,9 FM. O movimento promove eventos como o “Batalha Amapá”, um campeonato internacional de dança de rua muito conceituado e disputado por grupos dos países fronteiriços e de quase todo o Brasil. Na finalização do “Batalha Amapá” de abril/2006 está sendo esperado o GOG, de Brasília, considerado um dos melhores poetas do rap nacional. Há muitos grupos em Macapá que utilizam o folclore e transformam músicas locais em rap.