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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O MEDO CAUSADO PELA INTELIGÊNCIA

Recebi este texto por e-mail. Não está especificado o autor. Achei interessante (F.C.)


Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar seu discurso de estreia na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembleia de vedetes políticas. O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal:

– Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo uns trinta inimigos. O talento assusta."

E ali estava uma das melhores lições de abismo que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil. A maior parte das pessoas encasteladas em posições políticas é medíocre e  tem um indisfarçável medo da inteligência. Isso na Inglaterra. Imaginem aqui no Brasil. Não é demais lembrar a famosa trova de Ruy Barbosa:

“Há tantos burros mandando em homens de inteligência  que às vezes fico pensando que a burrice é uma Ciência.”

Temos de admitir que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados  na  conquista de posições. Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicentes que não revelam o apetite do poder. Mas é preciso considerar que esses medíocres ladinos, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de salvaguardar suas posições conquistadas com verdadeiras muralhas de granito por onde talentosos não conseguem passar.

Em todas as áreas encontramos dessas fortalezas estabelecidas, as panelinhas do arrivismo, inexpugnáveis às legiões dos lúcidos. Dentro desse raciocínio, que poderia ser uma extensão do Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdan, somos forçados a admitir que uma pessoa precisa fingir de burra se  quiser vencer na vida.

É pecado fazer sombra a alguém até numa conversa  social. Assim como um grupo de senhoras burguesas bem casadas boicota automaticamente a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo de convivência, por medo de perder seus maridos, também os encastelados medíocres  se fecham como  ostras à simples aparição de um talentoso jovem que os  possa ameaçar. Eles conhecem bem suas limitações, sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam com uma perna nas costas, enfim, na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas, os medíocres os repudiam para se defender.

É um paradoxo angustiante. Infelizmente temos de viver segundo essas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante  a vida. Como é sábio o velho conselho de Nelson Rodrigues.

      Finge-te de idiota e terás o céu e a terra.

O problema é que os inteligentes gostam de brilhar,  que Deus os proteja.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O apanhador no campo de centeio

Por Ray Cunha

BRASÍLIA, 11 de novembro de 2012 – Os dias sucedem-se nublados. Às vezes, abre-se uma gigantesca fresta de sol sobre a cidade, que pulsa ao calor. Há dias de vento forte, e chove. Assim caminha o ano rumo a dezembro, docemente, ao embalo do verão. Há mangueiras que já se vergam ao peso das mangas, belas como enfeites de Natal. Lemos, nas mentes das pessoas, que depositarão novamente todas as suas esperanças no primeiro dia do novo ano. Contudo, isso já está assegurado, porque a vida renasce todos os dias, todos os instantes, e para isso precisamos ouvir apenas o canto dos sabiás, sorrir para as crianças, especialmente as tristes, e oferecer flores aos que amamos, com o mesmo espírito de entrega do poeta ao ofertar rosas para a madrugada.

Dezembro não tardará, trazendo toda a magia da vida, até para os que se julgam perdidos na noite eterna dos danados, pois basta ouvir o riso dos pequeninos para que surja o sol no jardim do coração. Não importa quanto mal tenhamos praticado, mas quando sentimos o perdão todas as correntes se partem para sempre e descobrimos que é fácil voar. A esperança de 1 de janeiro deve se perpetuar para o dia 2 e se renovar, como as manhãs no trópico, até 31 de dezembro. Então, tudo recomeça.

Em 2013, vou abrir de novo meu relicário e ofertar todas as pedras preciosas que conseguir tirar de dentro dele. Posso ofertá-las para sempre, pois surgem mais e mais, infinitamente; são focos de luz, e só os vemos com o coração. Pretendo também ouvir mais a música da madrugada, para produzir mais diamantes, rubis e esmeraldas.

À medida que nos aproximamos de dezembro, a esperança brota numa flor, no canto dos passarinhos, nas mangueiras carregadas de frutos, no riso das crianças, nos olhos da mulher amada. As manhãs são redentoras, as tardes escoam como rios amazônicos e as noites são navios grandes e bem iluminados.

Sou o apanhador no campo de centeio. Estou ali, de vigília, e as crianças brincam de bola. Estou atento. Se a bola cai longe, vou apanhá-la e a devolvo para as crianças. Se uma delas se machuca, cuido do machucado e a consolo; quando elas sentem fome, alimento-as; e se alguma delas quer ficar triste, alegro-a, pois sei que tudo posso; até voar.

E assim vão-se os dias, embalados por ventos tão azuis que cheiram a mar. O Natal logo baterá à porta do meu coração, e virá o novo ano, num voo vertiginoso como o primeiro beijo, roubado dos lábios de um anjo, e tudo isso temos para sempre dentro de cada célula, de cada átomo, de cada quantum da nossa mente.

As madrugadas, as mesmas madrugadas que perpassam o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart, essas madrugadas impregnadas de Chanel Número 5 espargido nos labirintos de mistérios do corpo da mulher amada, essas noites tórridas da Amazônia, regadas ao choro dos jasmineiros, esse Atlântico, abrem-se na minha vida em veredas ladeadas por zínias multicoloridas e rosas colombianas, vermelhas. É nas madrugadas que dou à luz personagens que nascem ao computador.

E isso é tudo o que eu quero, além do brilho dos olhos da minha amada, e do riso da minha filha, e da luz dos meus anjinhos, e do cheiro da minha mãe, e do bate-papo com meus antepassados, e dos voos vertiginosos junto com meu pai. Assim, estarei sempre acordado e bem-disposto na missão do apanhador no campo de centeio.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O SOCIALISTA DE FERREIRA GOMES

barricada comuna de parisTexto de Fernando Canto

As visitas pastorais do 1º Bispo Prelado de Santarém, Monsenhor Frederico Costa, realizadas no início do século XIX, contemplaram várias localidades do atual estado do Amapá, que naquela época ainda não haviam sido desmembradas do Pará, e que eram pertencentes àquela circunscrição eclesiástica, uma área territorial gigantesca, que ia do rio Xingu ao Amazonas e do Mato Grosso às Guianas.

O Monsenhor visitou vários locais, inclusive Amapá, Oiapoque, Cunani, Bailique e outras paragens, passando por muitos perigos e percalços. Ele considerava a situação religiosa do Amapá gravíssima e pretendia observar a situação reinante em busca de soluções, dentro das suas possibilidades. E assim foi que no dia 22 de outubro de 1905 “alcançou a antiga colônia denominada Ferreira Gomes, localizada próxima da primeira cachoeira do rio Araguari. Embora não estivesse sendo esperado, a população o recebeu com muita alegria, ficando hospedado em casa dos irmãos Deocleciano e Coriguasil Matos, que eram os principais do lugar” (Santos, João, in Monsenhor Frederico Costa, 1º Prelado de Santarém. CEC, Belém, 1978). Segundo o cronista acima citado, D. Frederico gostou muito do lugar, principalmente pela sua localização alta que oferecia uma vista bonita. Ali ele encontrou uma capela “trabalhada com gosto por um artista português, que o prelado veio a conhecer na residência do Sr. Alcebíades, onde também estava construindo outro templo”. Chegou a encontrar um velho de nome Venâncio, que segundo os cálculos feitos por ele, possuía a idade de 110 anos.

Ao escurecer do dia 25 de outubro D. Frederico partiu com destino ao barracão chamado “Duas Irmãs”, cujo proprietário era um tal capitão Eugênio Campos, que segundo o bispo “foi um companheiro de longos anos de D. Antonio de Macedo Costa”, considerado o apóstolo da Amazônia. Nessa viagem o prelado teve a oportunidade de saber muitos fatos que até então desconhecia sobre o grande bispo. No barracão “Duas Irmãs” passou três dias na “agradável companhia do capitão Eugênio”.

Mas só em carta datada de 24 março de 1906 é que ele faz interessante referência a esse capitão, escrevendo: “podemos afirmar que o Capitão Eugênio Campos foi sempre um cristão sincero, embora, levado pelo seu gênio fogoso e por companheiros, tenha escrito ou pronunciado discursos em favor do socialismo. Assim como também podemos afirmar que é falsa a história de uma bomba de dinamite que se lhe atribui”. Em seguida, convicto a inocência do capitão, conclui seu testemunho: “(O capitão) habituado desde a infância a viver no mundo e arrastado por mais de uma vez pelos turbilhões da vida, voluntariamente se desterrou, procurando agora o silêncio das florestas e nos encantos da vida rústica o esquecimento completo de antigas lutas”.

Quem teria sido esse socialista arrependido? Quem seria esse proprietário de terras e extrativista, possivelmente pecuarista, dada a vocação local para essa atividade? Por que se refugiou na floresta sem mais preconizar a propriedade coletiva dos meios de produção e a organização de uma sociedade sem classes? Ora, em 1905 havia poucos militantes da esquerda operária no Brasil, quase todos imigrantes europeus, na maioria, italianos e portugueses. Teria sido, então, esse ex-socialista um imigrante português que haveria comprado uma patente e se estabelecido no interior do Amapá em busca do “silêncio das florestas e dos encantos da vida rústica”? E onde foi que explodiu a tal bomba de dinamite? Com a palavra os pesquisadores da História do Amapá.

Jornal do Dia. JUNHO DE 2007

quarta-feira, 28 de março de 2012

CRÔNICA

Eu e Ele

Por Ruben Bemerguy

Ele palmilhava meus pés com hálito de chuva. Todas as palavras estavam caladas. Zuniam sílabas imprecisas. Eu, freneticamente imóvel as tragava e as devolvia a panos que aconselhavam tórrida escravidão. É como se me adivinhasse logo dividida em hemisférios. Isso me fazia transpirar uma resina inflamável e incontida. Ele, inclemente, me subia, aos poucos, ramificando pernas. Ali também cultivava chuva. Aquietei-me incolor. Mais rápido do que imaginei, a língua anelou-me as hastes. E enquanto ele me escavava com os lábios eu germinava o falo bem na palma da minha mão.
Prolonguei a respiração o quanto pude. Esse intervalo foi o suficiente para que eu levitasse invisível aos olhos de meu homem. Dali também bebia vagarosamente cada um de seus gestos. Atada a volúpia, logo me certifiquei que nenhum de meus cálculos era exato. Constatei também que aprendemos – eu e ele – muito com os animais não hierárquicos. Não havia macho e não havia fêmea. Só nós, nus em lã, feito forças armadas convulsivas e desordenadas. Depois voltei ao rijo esconderijo de nossos corpos.
Movíamo-nos em ziguezagues repetidos e tudo era contrário ao direito, ainda bem. Nossa ideia de justiça era sua própria abstração. Também éramos imortais naquele instante. Derivados do extinto, comprimíamos, um a um, os mais remotos poros e, assim, passeávamos famélicos e tesos.
Todas as mensagens estavam postas. Acessamo-nos. Medievais. Inexatos.
Do fole veio o sopro. A cavidade ventilada precipitou-me ao abismo dele. Latejaram os rios. Gradualmente, pernoitei, enquanto ele palmilhava meus pés com hálito de chuva. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

VALEU ZUMBI

Raul tabajara – raul.silva@ibge.gov.br

Com essas duas palavras, Martinho da Vila inicia o samba da sua Vila Izabel em 1988, com o enredo Kizomba : A festa da Raça, que ganhou o carnaval carioca no centenário da abolição da escravatura. Nesses últimos dias de novembro, quando se comemora a dia da consciência negra em homenagem ao grande ZUMBI DOS PALMARES, assistimos a grande movimentação no centro de cultura negra do Amapá, onde instituições, governos e o público mais uma vez se reuniram para essa grande festa já tradicional na nossa cidade.

Hoje, verificamos que o movimento afrodescendente em Macapá, com suas diversas comunidades quilombolas, é um dos municípios brasileiros onde essa movimentação cultural da raça negra é mais intensa. Estão na mídia o ano todo de uma forma ou outra, exercendo pressão pela implementação de politicas visando a melhoria da qualidade de vida dos negros, principalmente os mais necessitados do Estado do Amapá. Isso ocorre devido alguns grupos já terem alcançado um certo grau de organização e de reconhecimento de sua identidade e ligação com a Mãe Africa.

Em decorrência dessas atuações, observamos nas ultimas pesquisas oficiais que os indicadores socioeconômicos têm melhorado com uma taxa acima da média nacional para esse grupo populacional e isso é em decorrência de politicas publicas implementadas nos últimos anos pelos Governos Federal, Estadual e Municipal. E como diz Caetano, uns mais, uns menos.

Um dos fatos mais marcantes observado nessa década, é que no ano de 2000, quase 5,0 % da população amapaense se declarou negra e agora em 2010 esse numero saltou para quase 9,0%, representando quase 90% no aumento do numero de pessoas que se declaram negra, fruto do reconhecimento de sua identidade e aumento da autoestima.

Outro indicador que no Amapá se diferencia é a renda. No Amapá a renda média das pessoas que se declararam negra foi de R$ 1.088,00 enquanto a média nacional foi de R$ 834,00. Essa renda média dos negros no Amapá é também maior que a renda dos pardos amapaense que foi de R$ 1.072.

Sabemos que a média não é um indicador ideal para verificarmos a situação de uma população por ser influenciado pelos extremos, porem, é sim algo que aponta para uma tendência.

Temos observado que algumas pessoas somam os negros e pardos como afrodescendentes. Essa visão não é válida para a Amazônia e principalmente para o Amapá, onde, algo em torno de 60 % dos pardos não são afrodescendentes e sim descendentes de índios e caboclos amazônicos. Isso justificaria o porquê a renda média dos negros está maior que a dos pardos, pois um número significativo de índios e caboclos se declararam pardos.

Isso aponta para uma necessidade de politicas voltada para os índios, caboclos e seus descendentes pardos e, também, para a promoção de uma maior organização desses setores, como fizeram os negros no Amapá. Quem observa de fora, fica a nítida impressão que é mais interessante deixar os índios selvagens e os caboclos nas palafitas.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

É BIG! É BIG! Sônia Canto

Há muito a dizer, sim, para esta mulher que me acompanha há um tempão. PARABÉNS, Sônia/Ainôs. De dentro e de fora pelo avesso e pelo espelho no horizonte. Reproduzo aqui, este texto que escrevi em sua homenagem.

 

CRÔNICA AMOROSA DA CASA DE PRAIA

Fernando Canto

Aquele feriado prolongado caiu como uma cerveja gelada num dia quente.

Iríamos novamente, eu e ela, para a nossa casa de praia curtir a um pouco de calma, já que os filhos e os netos resolveram conhecer outros lugares. A ausência deles doía, pois estávamos tão acostumados que era difícil acreditar que estivéssemos a sós. Vez por outra uma paisagem, uma ponte ou os animais que pastavam ao lado da estrada geravam uma lembrança e um comentário sobre eles. Então fizemos um “acordo” para evitar falar neles, algo meio difícil para nós, tão apegados aos netos.

Chegamos cedo. E após a festa do cachorro e as reclamações habituais do caseiro, fomos à praia, aonde encontramos velhos amigos, para contar novamente antigas e esquecidas piadas e para ouvir as mesmas risadas, agora mais discretas. Foi um dia bom, cheio de novidades positivas e felizes.

De manhã o sol bateu forte na vidraça da janela e se intensificou no quarto. Levantei e não a vi. Depois a encontrei no jardim cuidando das plantas, seu trabalho predileto em nossa casa. Ela estava de chapéu, botas e luvas, com aquelas pazinhas, garfinhos e tesouras alaranjadas, plantado, podando e trocando a terra de uns vasos. E dissecava palavras carinhosas sobre as plantinhas. E me explicava com paciência que a rosa vermelha estava produzindo poucas flores, que a rosa-rosa e a rosa branca precisavam de adubo, que as frutas do pomar estavam esturricadas devido ao calor e outras coisas mais. Falou-me que deveríamos dar mais valor às plantas mágicas da nossa região porque elas protegem a casa e as pessoas dos males dos homens e dos maus espíritos. E discorreu sobre as propriedades místicas do tambatajá, dos tajás rio negro, rio verde, boto e onça, de outros tantos e, principalmente, do comigo-ninguém-pode, que é uma espécie de aninga, explicava.

Não tive mais nenhuma dúvida. Peguei a camionete e fui comprar adubo e terra preta na vila. Ela aproveitou para adquirir novos pés de plantas, que eu até ignorava que existissem. Trabalhamos pesado o dia todo. Eu e o pobre do caseiro que sempre descuidava do jardim da patroa. Consertamos cercas, fizemos leiras, limpamos as varandas, a área de lazer e a piscina, colocamos os colchões de mola para desumidificar ao sol, consertamos móveis antigos e polimos a enorme e pesada mesa de mogno onde toda a família e os amigos se reuniam para almoçar. Depois de tudo limpo e no seu devido lugar fomos jantar. Então ela falou que tinha algo muito importante a me dizer. Enquanto eu imaginava o que fosse ficou no ar o cheiro encorpado de ovo frito quando ela o tirou da frigideira para me servir. O prato de porcelana inglesa - herança dos seus pais – era antigo como o sino da igrejinha da vila. Parecia um gigantesco tacho de comida aos meus olhos, tanta era a fome que eu sentia. Educadamente me contive até ela pôr o prato sobre a mesa. Percebi que no seu olhar sobre meus gestos havia admiração e certa censura. Aquilo foi me encabulando aos poucos, não consegui terminar de comer a omelete, que, aliás, era a única coisa que cozinhava bem. Ela percebeu e me disse: - Coma devagar. Não vou ficar aqui te olhando. E saiu da cozinha.

Na rede da varanda a gente olhava a lua imensurável aos nossos olhos, em silêncio. Até que ela falou: - Obrigada, amor, foi um dia puxado, mas recompensador. Lembra-se disto? Disse-me mostrando um anel de ouro e brilhante, envelhecido. - Encontrei-o ao trocar a terra de um vaso quando meditava sobre o que tem sido a minha vida ao seu lado. Eu agradecia a Deus por ela ser tão cheia de desafios, de vitórias e de superações e por ser prenhe de amor e de perdão, justamente quando arranquei um pé de quebra-pedra e esmaguei a terra de suas raízes. Eu estava sem as luvas de borracha, pois tem hora que elas incomodam, e de repente aquele anel sujo parecia querer se alojar novamente no meu dedo. Foi um dia feliz porque recuperei um objeto que faz parte da nossa história, meu anel de noivado, que você me deu e que eu havia perdido durante a construção desta casa, lembra? Ah, eu tinha chorado tanto e agora ele volta para o meu dedo assim... Tão simples.

Eu a deixei chorar de alegria, um aparente gesto de fragilidade no rosto de uma mulher tão forte e corajosa. Apesar de estarmos cansados, conversamos abraçados a noite inteira, falando da vida, das coisas que vão e que voltam mesmo quando nem imaginamos e, claro, dos netos e filhos, tão inteligentes e bonitos. Então o sol chegou como um imenso anel de brilhante para iluminar nossa história de amor e os sonhos que sonhamos para quem amamos, nos embalando na rede da varanda da nossa casa de praia.

NOSTALGIA E LUZ

cutiteiro da casa do fernandoCrônica de Fernando Canto

Hoje de manhã me vi subitamente abatido por um ataque de nostalgia. No meu caminho para o trabalho observei um homem ateando fogo no lixo. Tinha uma vassoura nas mãos e cuidava com atenção para que as chamas não se espalhassem sobre a calçada. Aquele ato, pensei, era um resquício da herança cultural indígena tão presente em nossa vida cotidiana.

De repente me veio a lembrança do tempo que Macapá caminhava lenta, em sua vivência pacata sob o sol do equador, quando vizinhos se respeitavam e eram amigos; quando cada um sabia das necessidades do outro e ninguém hesitava em pedir uma xícara de óleo, um pouquinho de farinha, um teco de colorau, de pó de café ou de pimenta-do-reino, ou quando trocavam gentilmente deliciosos pratos de comida, feita com abundância para a família. Lembro que às vezes, pela manhã, minha mãe varria as folhas do cutiteiro que sombreava a frente de nossa casa e fazia a sua fogueira no lixo amontoado. Ele também era o alvo dos moleques da baixada que quebravam nossas telhas com as tentativas de apanharem os frutos jogando pedras e paus na árvore. A pequena fogueira fazia pouca fumaça, mas ia se juntando com a fumaça da vizinha e da outra vizinha e da outra vizinha. E ninguém se incomodava porque a fumaça era fugaz, se dispersava com o vento vindo das marés do Amazonas, lá adiante.

À noite trafegava em sua beleza estelar na escuridão. Crianças brincavam de roda à boca da noite e adolescentes gastavam suas energias na brincadeira de “pira” ou de “bandeirinha”, sob a luz da lua ou das lâmpadas pálidas dos postes da CEA. E, quando a luz se apagava, íamos até mesmo ouvir dos mais velhos as histórias de assombração, pregar peças de visagens aos poucos passantes da noite ou observar os satélites que cruzavam os céus do equador entre as estrelas.

Naquele tempo meu pai deixava aberta a porta de casa para que eu e meus irmãos não incomodássemos seu sono, certo de que ninguém ousaria abri-la para roubar. Era um tempo em que bastava a presença de um cãozinho para o possível gatuno se escafeder. E até as criações de galinhas e patos não eram protegidas da ousadia das “mucuras velhas” de plantão, que roubavam os animais para fazer tira-gosto de suas bebedeiras noturnas. Ah! E como eles sabiam fazer isso. Há casos em que roubavam a própria casa. Os quintais não tinham cerca, tinham caminhos de atalhos, tinham campinhos, leiras de verduras e árvores frutíferas. As ruas eram tão nossas que ao fim da tarde viravam campos de futebol, em jogos que só terminavam ao anoitecer. Cada um respeitava seu cada qual: o dono da bola podia ser ruim no jogo, mas era o dono, e pronto. Ninguém furtava a merenda do colega nem caderno nem brinquedo. Ainda que eu não queira culpá-la, mas depois que a televisão chegou nada mais foi igual. A molecada ia assistir a programação na casa do seu João de Deus onde havia o único aparelho de TV no bairro. Seu João colocava um vidro azul no vídeo para que as cenas das novelas “Meu Pedacinho de Chão” e “Vejo a Lua no Céu” parecessem mais coloridas. Doce ilusão! E dava o exemplo de patriotismo acompanhando em pé com a mão no peito o Hino Nacional, no fechamento da programação, por volta de meia-noite. O sagrado jantar familiar ficou mais apressado porque a novela ia começar e todos iam para a sala assistir aos folhetins de Janete Clair.

Mas ainda que brote da minha memória, eu não vejo com saudade essas lembranças. A saudade é mais profunda, é mais poética e mais densa que a nostalgia, que é uma palavra originária do grego e significa “regressar”, “voltar para casa”. E nesse regresso emocional, observo que as pessoas quase já não varrem as folhas que caem das árvores na frente de suas casas, nem fazem mais fogueira com medo de denúncias de vizinhos aos órgãos ambientais e por acharem que é um trabalho exclusivo dos garis da Prefeitura. E assim, as fumaças que eram como bandeiras ou cantos de galos se espalhando, já não enfeitam mais as manhãs ensolaradas da minha cidade. A solidariedade dos vizinhos foi substituída pela individualidade de cada morador aprisionado em suas portas e muros gradeados, pelo medo tácito da violência urbana. As pedras jogadas nas mangueiras e cutiteiros se transformaram em duras palavras atiradas até em quem não tem telhado de vidro. A energia vital dos adolescentes é gasta nas baladas, quando longe dos pais, muitos enveredam pelos caminhos das drogas. As antigas histórias de assombração agora são contadas pelo Rádio e pela TV nos noticiários da violência no trânsito, brigas de gangues e mortes cruéis por motivos fúteis. O olhar real da juventude que acompanhava o curso dos satélites no céu escuro da noite tornou-se um virtual olhar, onde o romantismo de outrora foi trocado pela racionalidade dos programas dos computadores e celulares on line na Internet e pela comunicação ingênua das redes sociais.

Ah, os ladrões... Desde que mundo é mundo temos ladrões, prostitutas e assassinos e os seus trabalhos diferenciados sob a Lei, porque não há sociedade sem crime, ainda que teimemos em construir nossa utopia. Os ladrões de um passado (nem tão longe assim) eram de patos e galinhas, que ao menos não sujavam o nome de nossa terra e nem nos envergonhavam nacionalmente com negociatas políticas e atos de corrupção explícita. Nem se comparam com muitos da atualidade que usam a pele de cordeiro para, como lobos ferozes, roubar o dinheiro público, enriquecer às custas do povo e trair cinicamente os que neles confiaram pelo voto. Naquele tempo as cercas inexistentes nos quintais davam a todos a liberdade de fazer seus próprios caminhos, de realizar seus atalhos e se apressar para a vida que viçava lá fora, principalmente pelo caminho da educação, pulsante nas escolas públicas, onde os professores eram mais que isso: eram educadores e amigos. Ensinavam também, como no ato do seu João de Deus em frente à TV ouvindo o hino nacional, a respeitar os valores da Pátria, apesar da era de obscurantismo da ditadura militar.

Hoje olhamos para os costumes sociais e familiares em mudança e nos molhamos de nostalgia. Tudo mudou com os avanços tecnológicos, que tanto facilitam a nossa vida. E tudo começou com a televisão, essa invenção incrível, pois quando a luz apagava na hora de um programa ninguém mais conversava. A família ia para o pátio da casa olhar a rua espelhada de chuva, e uns se perguntavam aos outros: será que foi geral? Será que ela vai voltar? Já pensou? Ficar sem TV o resto da noite... Afirmo, pois, com certa tristeza que foi aí que começou a morte do diálogo familiar.

E as ruas? Ora as ruas. Ruas de tempos abençoados que não testemunharam atropelamentos fatídicos, apenas quedas de bicicleta ou boladas na cara de algum passante desatento. Ruas da minha cidade transformada, ruas que hoje absorvem o sangue dos mortos diariamente em cada esquina, ruas não mais tangidas pelos protestos do povo inconformado, ruas esburacadas pela angústia no rosto da juventude sem emprego, ruas que se tornam rios de chuva e trazem doenças inevitáveis, ruas que lêem os passos cansados dos que tem pouca mobilidade física, ruas escuras, ruas das violências noturnas, ruas dos loucos, dos bêbados, das putas, dos travestis e dos moralistas de plantão. Mas elas são também as ruas dos sonhadores como nós, que tentamos enfeitar a madrugada e trazer a música e o sol no cavalo alado da nostalgia, para iluminar um mundo futuro ausente de dor e de vergonha, mas cheio de luz e de perdão.

Macapá, 11 de novembro de 2011

Foto: Acervo pessoal. Cutiteiro que ficava em frente à minha casa na Rua General Osório.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O CÍRCULO

risco-de-mandala Um jovem amigo apresentou-me à sua namorada como se eu fosse o expoente de alguma coisa. Antes, porém, que a conversa continuasse fiz um trocadilho que soou a mim mesmo como uma reflexão para a vida. Disse-lhe então que agora eu era um “ex-poente”, que buscava a alvorada, o nascente, a direção do sol que muitas vezes ignorei, não lhe dando o verdadeiro valor.

Todos nós, quando paramos para pensar melhor, cremos ser verdade que determinado evento pessoal tem o significado do encerramento de um ciclo. E um ciclo não é apenas um período onde ocorrem fatos importantes ou uma série de fenômenos que se sucedem em ordem, como as estações. Um ciclo também é um círculo, ressalvadas as diferentes origens das palavras. Como tal ele tem um simbolismo amplo, algo maior do que aquilo que pensamos ao começarmos a tomar novas atitudes.

O círculo, segundo Champeaux e Sterckx, é um ponto estendido; participa da perfeição do ponto. Os dois possuem propriedades simbólicas comuns: perfeição, homogeneidade, ausência de distinção ou de divisão. O círculo é considerado em sua totalidade indivisa. O movimento circular é perfeito, imutável, sem começo nem fim, e nem variações, o que o habilita a simbolizar o tempo.

Mas há muitas formas de interpretar o círculo: o próprio céu torna-se símbolo, o símbolo do mundo espiritual, invisível e transcendente. Simboliza o céu cósmico nas suas relações com a terra. Para os autores acima citados “o círculo pode simbolizar a divindade considerada não apenas em sua imutabilidade, mas também em sua bondade difundida como origem, substância e consumação de todas as coisas; a tradição cristã dirá: como alfa e ômega”.

Desde a Antiguidade ele tem servido para mostrar a totalidade, a perfeição, englobando o tempo para melhor poder medi-lo. Na Babilônia ele foi dividido em 360º e decomposto em seis segmentos de 60º. Seu nome – shar – designava o universo, o cosmo. Mais tarde dele foi retirada a noção do tempo infinito, cíclico, universal, que foi transmitida através da serpente que morde a própria cauda.

A essa conotação, a serpente Uróboro simboliza um ciclo de evolução encerrado nela mesma. Traz concomitantemente idéias de movimento, de continuidade, de autofecundação e, de eterno retorno.

Mas a serpente não é o círculo, aquele que transcende. Ela, ao morder a própria cauda está condenada a girar sobre si mesma, como a roda. Jamais poderá escapar do seu ciclo para se elevar a um nível superior. Agora, na ânsia de mudar, de começar um novo ciclo, de ir em busca do sol que nasce, me deparo com paradoxos porque as coisas estão escondidas nos raios celestes e no círculo do céu. E coisas não permanecem as mesmas. Como nós elas não são duradouras e estão sempre se tornando outras coisas, outras entidades. Bem disse Heráclito: não podemos entrar duas vezes no mesmo rio.

E como é grande a correnteza dessas águas. Ela guia e move meu caminho ao mar. Mas apesar de tudo esta viagem reflexiva me obriga a perambular pelo albedo da terra em direção ao oriente. Recuso-me ao crepúsculo: sinto-me mudança, conflito e renovação. A cada sete anos revigoro-me na oblação pelo fogo e regenero-me em chips astrais. Sou carbono, gases, água e sonho que não evanesce.

Sim, recuso-me ao crepúsculo, recuso-me ao poente. Rebelo-me contra meus genes e insurjo-me à natureza, pois busco o círculo onde está centrada a árvore da vida. E cá estou: no mais profundo mar. Sem culpas. Mudando como o sol na manhã de um equinócio da primavera. (Crônica de Fernando Canto)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

ADEMAR AMARAL

livro ademar Publico aqui uma crônica e um conto do escritor amazônico Ademar Amaral para o deleite do leitor do blog. Considero o seu “Catalinas e Casarões” um dos mais belos e importantes escritos memoriais que conheço feitos na Amazônia, uma espécie de romance familiar carregado de realismo e beleza construtiva, até pelos extratextos que permeiam as saborosas histórias nele contidas (F.C.).

Ademar Ayres do Amaral nasceu em Óbidos, na casa de número 10 da famosa Rua do Bacuri, nos altos da renomada Farmácia Esculápio do seu avô materno, o boticário português, José Cardoso Ayres. Filho da professora normalista, Ana Ayres do Amaral (a professora Santana) e do fazendeiro Areolino Araújo do Amaral, com dias de nascido foi viver com os pais na fazenda São Braz, no Paraná de D. Rosa, onde passou a sua infância. Lá aprendeu as manhas da pescaria, o amor pela natureza e as primeiras letras na escola estadual comandada por sua mãe. Posteriormente foi morar em Óbidos, com o avô Ayres, e frequentou as escolas particulares das professoras Cora Simões e Glória Corrêa Pinto. Aos 10 anos foi para Santarém estudar por seis anos no Colégio Dom Armando. Em 1964 mudou-se para Belém onde concluiu o segundo grau no colégio Nossa Senhora de Nazaré e prestou vestibular para a Escola de Engenharia da UFPA, diplomando-se engenheiro civil na turma de 1972. Ávido leitor, começou a rascunhar seus primeiros contos e crônicas em 1976. Em 1980 recebeu menção honrosa em concurso literário da Academia Paraense de Letras. Premiado na APL, passou a colaborar com o PQP, um jornal que surgia em Belém aos moldes do Pasquim. Em 1984 publicou seu primeiro livro, A Encomenda e o Deputado. Atualmente é cronista dos jornais A Folha de Óbidos e Uruá-Tapera, além de colaborar no site Portal de Óbidos. Em 2005, recebeu o prêmio Terêncio Porto, na Academia Paraense de Letras, com o livro “Tartarugal” (ainda inédito) e em 2006 ganhou o 1º Lugar no concurso de contos do clube Assembleia Paraense, com Estirão Sem Fim. Ademar Ayres dos Santos lançou Catalinas e Casarões, obra que traça o painel de uma época marcante na história do Baixo Amazonas.

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ENCONTRO COM JACK KEROUAC

Ademar Ayres do Amaral (ademar@amazon.com.br)

Nada de grupos. Não sou e nunca serei gado. (Paulo Francis / O Pasquim, Antologia)

Nos anos 60, já um leitor voraz de Machado de Assis (acho Quincas Borba um dos maiores romances da literatura mundial), escutei muito sobre um tal Jack Kerouac. Para mim, o que falavam era apenas isto: que era um escritor americano maluco e que, ao escrever sobre suas aventuras de andarilho e carona, nas estradas do Tio Sam, acabou se tornando guru de uma geração rebelde que passava ao largo da sociedade dita de consumo. Também chamado de geração beat, esse time encontrou no escriba o catalisador de seus mais íntimos anseios, acabando por desembocar no que ficou conhecido como movimento hippie. Os anos passaram, o movimento hippie foi enfraquecendo e sendo engolido pela mesma sociedade de consumo que ele contestava, e eu acabei esquecendo de Jack Kerouac na poeira do tempo.

Mas, em julho de 2001, eu tirei trinta dias de férias, juntei uns dólares, negociei com a minha esposa (claro, sou bem casado há 35 anos), e me mandei sozinho pra Boston, no Estado de Massachusetts. E por que a escolha de Massachusetts? Ora, porque fica na região dos Estados Unidos conhecida como Nova Inglaterra, é o berço da civilização americana, da guerra pela independência, e Boston, além de uma cidade linda, é cheia de museus fantásticos, sede da famosa Harvard University e do MIT (Massachusetts Institute of Technology), esta tida como a melhor escola de engenharia do planeta. Enfim, um montão de coisas extraordinárias que eu aproveitava para me fartar nos meus fins de semana. Fui morar sem mordomia no grandioso campus da Tufts University, onde tinha aulas de inglês das 8 da manhã às 3 da tarde, e era obrigado a fazer duas coisas que eu sempre detestei na minha vida: lavar roupa e fazer faxina no quarto. Meu cômodo, sem banheiro, media uns dois metros de largura por três metros de comprimento. Tinha uma cama estreita, espaço para pendurar minha roupa, e uma escrivaninha com abajur para preparar um caminhão de exercícios todas as noites. Os banheiros eram limpos, mas coletivos. No meu andar havia dois banheiros femininos e dois masculinos. E durante as férias americanas, são muitos os estudantes do mundo inteiro que se hospedam por lá. Então, não era nada estranho a gente tentar usar um rest room e ouvir o clássico aviso: “It’s busy!”

Na minha turma havia quatro franceses, três italianos, três coreanas, uma israelense, uma alemã (a Frida), um saudita, alguns argentinos, uns colombianos e apenas uma brasileira de Itabira, Minas Gerais. Uma tarde, depois da aula, eu e o grupo dos franceses resolvemos organizar uma pelada entre nós, misturando homens e mulheres, no campo de futebol da Universidade. As meninas toparam, nós dividimos os dois times e eu, que tinha idade para ser pai da galera, pedi, por pura malandragem, para jogar na lateral direita, marcando a alemã na ponta esquerda. Foi a minha desgraça. Mal o jogo começa, uma bola é lançada para a Frida. Ela veio como um bólido na minha direção, passou por mim feita uma bala, e marcou o primeiro gol. Logo em seguida, outro e mais outro, tudo da Frida e pelo meu lado. Cansado do banho e temendo um vexame maior, logo fingi uma contusão e fui servir de juiz o resto do jogo. No fim, conversei com a Frida para saber como ela tinha aprendido a jogar aquele futebol de craque. Ela, sorrindo, me explicou que era juvenil titular do time feminino do Colônia.

Pois bem. A aula que nós mais gostávamos era a do horário da tarde, porque logo tivemos uma natural identificação com o professor. Era um cara jovem, muito aberto e estava fazendo mestrado em antropologia. Ele nos fazia ler e discutir textos de um livro sobre episódios da história americana, principalmente fatos acontecidas naquela região da Nova Inglaterra. Um dia, ele deixou o livro de lado, e nos entregou uma folha de papel, contendo um texto de Jack Kerouac. Também nos disse que o texto foi tirado do livro, On The Road, e que o autor, antes muito criticado pela maneira nova e um tanto bagunçada de escrever, já era tido como um dos maiores da literatura americana. Passamos duas horas lendo e interpretando, e eu logo me interessei em ler o livro, mas o professor me desaconselhou porque o inglês usado era cheio de regionalismos e gírias (slangs), o que tornava a leitura difícil para um não nativo.

Terminado meu período em Boston, viajei de volta ao Brasil com o firme propósito de encontrar o On The Road traduzido para o português, porém minha busca foi infrutífera, porque a única tradução que havia era em espanhol e só na Argentina. Pois em uma das minhas tantas viagens, naquela horinha antes do vôo que eu sempre uso para vasculhar a livraria dos aeroportos (sou tarado em livrarias), eis que dou de cara com On The Road, e outros volumes de Jack Kerouac. Trata-se de uma bem feita edição de bolso, da Editora L&PM POCKET e me custou o preço módico de dez reais. Li o livro num tapa. Nas suas 380 páginas conta a história de dois amigos, Sal Paradise e Dean Moriarty, que saem de carona pela estrada Rota 66, e atravessam os Estados Unidos desde New Jersey até a Califórnia. O livro traz ainda uma mini-biografia de Jack Kerouac e um excelente comentário de Eduardo Bueno. O volume foi escrito em 1947, sendo recusado seguidamente em inúmeras editoras, até ser aceito e publicado dez anos depois, em 1957. Apenas como curiosidade, vejam este interessante trecho da página 151: “Para se conservar aquecido, Dean usava um suéter enrolado nas orelhas. Disse que éramos um bando de árabes chegando para explodir Nova York”. Vejam bem: isso foi escrito em 1947. Não parece previsão do 11 de setembro?

Como nos relata Eduardo Bueno no seu excelente comentário, On The Road foi a glória e a danação de Jack Kerouac. Ele acabou aos 47 anos, solitário e entupido de drogas, porém sua obra causou uma verdadeira revolução cultural no mundo. O jovem roqueiro, Bob Dylan, fugiu de casa depois de ler o livro; nosso cineasta, Hector Babenco, também. E há os que afirmam que, sem Jack Kerouac, os Beatles não teriam acontecido.

Eu ainda não fugi de casa, mas achei o livro um grande barato. Não me arrependo da feliz descoberta que fiz do autor, quase que por acidente, naquela distante e inesquecível aula de inglês, em Boston. Para o meu gosto, e gosto cada um tem o seu, Kerouac pode não ter sido tão bom escritor como foi Trumam Capote, mas era um cara que escrevia diferente, e que virou a literatura americana de ponta-cabeça, como também fizeram o próprio Capote (In Cold Blood), Falkner, e o grande Ernest Hemingway.

EMANCIPAÇÃO

Ademar Ayres do Amaral (ademar@amazon.com.br)

Sexta-feira. Luiza tinha ido embora sem bilhete nem até logo. Acabado, Gusmão assiste da janela as primeiras luzes da cidade. Olha o copo vazio, tremenda, bruta fossa. Entorna mais bebida no copo. O bar da esquina já recebia os primeiros visitantes, homens vindo do trabalho, e tomando uma loura suada antes da esposa. Súbito, do marasmo, é despertado pelo telefone.

-Alô.

Pausa longa, parecendo trote.

-Alô, quem é?

Do outro lado, a voz tremida, ansiosa, quase um sussurro.

-Gusmão, sou eu, a Mary.

Ele sentiu a cabeça estalar. Sintoma normal quando a raiva aflorava. Despejou:

-Maria das Dores?- acentuou o "das Dores".

-Gusmão, pelo amor de Deus...

-Ah, Maria, vê se não enche minha paciência!

O convite vem em forma de súplica.

-Gusmão, eu preciso falar com você.

-Não quero papo, você desencabeçou a Luiza!

-Gusmão, eu estou aqui no Cosanostra, é minha vida que está em jogo, nosso futuro, nosso destino.

-Nosso? Ora, vai à merda! Vida por vida, você já estragou a minha!

Mary começa a chorar.

-Gusmão, vem, por favor, ou você vem ou eu me mato!- e desliga.

Pensativo, Gusmão põe outra dose no copo, reflete, resolve:

-Pois vou. É tempo de dar umas bolachas nessa tal de Mariazinha.

Sai bufando de raiva em pleno rush, levando e devolvendo desaforos. Após várias voltas no quarteirão, finalmente encontra uma vaga pro carro. Entra no Cosanostra e manja o ambiente: casais nas mesas, amigos no balcão jogando conversa fora e tomando chope com música convidativa. Avista Mary, num canto, fumando nervosamente. Senta. Pede dois chopes. Ficava de certo modo desconcertado quando encarava Mary de frente. Mesmo sendo contra as suas idéias de emancipação, nutria por ela um grande desejo carnal, um secreto desejo. E num vestido justo e cheio de decote, Mary estava super tesuda naquela noite. Entrou de sola:

-Fala, Mariazinha!

-Olha o ambiente, Gusmão, não faz escândalo.

-Então fala logo!

Mary toma meia caneca de chope com tira-gosto de coragem.

-É sobre tua separação.

-Onde está minha mulher?

-Em Carajás, na Serra dos Carajás.

E explica com espuma na boca:

-Arranjei emprego pra ela, bem longe...

Gusmão agarra-lhe os pulsos.

-Ainda arrebento contigo!

Mary desaba chorando.

-Gusmão, fiz por nós, por mim, eu te amo, sempre te amei.

E beija as mãos dele com ternura desmedida como se fossem as mãos do arcebispo.

-Afastei ela de ti, será que tu não entendes?

Diante dessa inesperada revelação, a raiva inicial dele foi pras cucuias. E vários outros goles de chope e muitos cigarros, os dois, ali no aconchego do local, chegaram à bendita conclusão que tinham sido feitos um para o outro. Acabaram desesperadamente num luxuoso motel da cidade.

Passada uma semana, no sábado, Gusmão acorda às dez depois de uma tremenda noitada a dois. Tateia ainda sonolento o lado direito da cama, buscando costela no frio do ar condicionado. Toca num corpo nu e macio. Desliza a mão.

-Gusmão...

-Mary, chega aqui, dá uma costelinha.

Ela se enroscou nele e deu não só a costela, deu tudo. Em seguida, felizes e aplaudindo a vida, foram pro chuveiro e tomaram um banho demorado na base do afago. No mesmo instante, em Carajás, a emancipada Luíza levava uma tremenda dura do chefe e já lutava pra sobreviver.

domingo, 17 de outubro de 2010

CAMALEÕES URBANOS

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Por morar próximo a mata da Infraero minha casa vive cheia de passarinhos e abelhas em busca de alimento e água. Vez por outra uns sapos dão as caras. Mas um dia desses apareceu um camaleão que ficou hospedado mais de três dias entre o jardim e um açaizeiro, vindo, talvez, por um terreno baldio atrás do meu quintal.

O bicho parecia um dinossauro saído de um filme de Spilberg, com seu andar imponente. De repente corria rápido, fugindo ao olhar curioso dos habitantes da casa. Ficou dias no alto do açaizeiro, contemplado até pelas visitas que o admiravam sem incomodá-lo, ali, impressionantemente imóvel, olhando o tempo, aventando uma possibilidade de fugir pelo muro alto ou talvez do faro esperto dos cachorros da rua. Ao meio do quarto dia sumiu. Mas não sei se sobreviveu, pois a sua cauda de cerca de um metro e meio estava com a ponta quebrada e assim mesmo ele reagia aos que chegavam muito próximo para lhe fotografar, abanando-a com violência para se defender.

camaleão7O interessante é que veio logo à memória um “ladrão” de Marabaixo muito cantado e antigo, cujos versos dizem:

“Eu vim neste Marabaixo

Você não me dá alimento

Eu não sou camaleão

Que enche o papo de vento”

A estrofe do cantador-compositor mostra logo o seu protesto contra o festeiro de alguma comunidade distante da sua, que deve ter lhe oferecido comida, bebida e todas as mordomias da festa para que ele fosse cantar, e não lhe deu o essencial na hora da fome, querendo dizer que vento não enche barriga.

camaleão3Mas quem é esse réptil que a televisão mostrou servindo de alimento a famílias flageladas na mais recente seca do Nordeste? Quem é esse inofensivo animal, cujos ovos, chamados “ovas de camaleoa”, são tão apreciados na dieta alimentar de pessoas aqui na Amazônia? O Aurélio nos diz que se trata de um réptil lacertílio, da família dos iguanídeos. A maioria tem uma prega mento-faríngea capaz de se encher de vento, crista serrilhada no dorso, língua curta, grossa e não protrátil. É arborícola e muda de cor e também é conhecido por papa-vento, senembi, sinimbu, tijibu, etc. Por desconhecerem a sua importância para o equilíbrio ecológico das nossas florestas, caçam-no e lhes comem a carne impiedosamente. No sentido figurado é o indivíduo que assume o caráter conveniente aos seus interesses; o indivíduo que adapta sua opinião ao interesse do momento.

E neste justo momento que vivemos um processo de transição política é que surgem, sem dúvida, bandos de camaleões políticos infiltrados nas diversas campanhas. Oportunistas, traíras (coitado do peixe!) e cães (“coitado do melhor amigo do homem”!) subservientes, sem terem nada a contribuir, a não ser com fofocas e intrigas, enchem o papo de vento para dar a impressão que tudo sabem. Entretanto querem mesmo é a atenção dos líderes políticos para poderem viabilizar seus interesses econômicos, políticos e até familiares, posto o exemplo das oligarquias decadentes do Amapá.

camaleão5Já vi esse filme. Certamente não se chamava “O Camaleão Invisível” nem era algum documentário ecológico sobre mimetismo. Era, talvez, a arte de grudar dissimuladamente em qualquer campanha política, cujos protagonistas estejam viajando na penumbra sem que disso saibam.

camaleão6Então, rendo aqui minha homenagem ao camaleão visitador do meu quintal pelo seu porte aparentemente grotesco; louvo a forma crassa em que ele veio ao mundo e pelo seu grau na escala evolutiva dos animais, que desconheço. Ora, eu não o admiro apenas pelo papel que exerce no meio da floresta. Eu o tenho na memória como um extraordinário ser que, imóvel, acompanhava o sol na sua trajetória todos os dias aqui entre os perigos da cidade, sem que soubesse que homens inescrupulosos roubam-lhe o nome e suas características naturais para se darem bem na vida.

Publicado no jornal “A Gazeta” de domingo, 17.10.10

segunda-feira, 14 de junho de 2010

CRÔNICA AMOROSA DA CASA DE PRAIA

Publicada no jornal “A Gazeta” de domingo, 13/06/2010

Aquele feriado prolongado caiu como uma cerveja gelada num dia quente.

Iríamos novamente, eu e ela, para a nossa casa de praia curtir a um pouco de calma, já que os filhos e os netos resolveram conhecer outros lugares. A ausência deles doía, pois estávamos tão acostumados que era difícil acreditar que estivéssemos a sós. Vez por outra uma paisagem, uma ponte ou os animais que pastavam ao lado da estrada geravam uma lembrança e um comentário sobre eles. Então fizemos um “acordo” para evitar falar neles, algo meio difícil para nós, tão apegados aos netos.

Chegamos cedo. E após a festa do cachorro e as reclamações habituais do caseiro, fomos à praia, aonde encontramos velhos amigos, para contar novamente antigas e esquecidas piadas e para ouvir as mesmas risadas, agora mais discretas. Foi um dia bom, cheio de novidades positivas e felizes.

De manhã o sol bateu forte na vidraça da janela e se intensificou no quarto. Levantei e não a vi. Depois a encontrei no jardim cuidando das plantas, seu trabalho predileto em nossa casa. Ela estava de chapéu, botas e luvas, com aquelas tesouras, garfinhos e pazinhas alaranjadas, plantando, podando e trocando a terra de uns vasos. E dissecava palavras carinhosas sobre as plantinhas. E me explicava com paciência que a rosa vermelha estava produzindo poucas flores, que a rosa-rosa e a rosa branca precisavam de adubo, que as frutas do pomar estavam esturricadas devido ao calor e outras coisas mais. Falou-me que deveríamos dar mais valor às plantas mágicas da nossa região porque elas protegem a casa e as pessoas dos males dos homens e dos maus espíritos. E discorreu sobre as propriedades místicas do tambatajá, dos tajás rio negro, rio verde, boto e onça, de outros tantos e, principalmente, do comigo-ninguém-pode, que é uma espécie de aninga, explicava.

Não tive mais nenhuma dúvida. Peguei a camionete e fui comprar adubo e terra preta na vila. Ela aproveitou para adquirir novos pés de plantas, que eu até ignorava que existissem. Trabalhamos pesado o dia todo. Eu e o pobre do caseiro que sempre descuidava do jardim da patroa. Consertamos cercas, fizemos leiras, limpamos as varandas, a área de lazer e a piscina, colocamos os colchões de mola para desumidificar ao sol, consertamos móveis antigos e polimos a enorme e pesada mesa de mogno onde toda a família e os amigos se reuniam para almoçar. Depois de tudo limpo e no seu devido lugar fomos jantar. Então ela falou que tinha algo muito importante a me dizer. Enquanto eu imaginava o que fosse ficou no ar o cheiro encorpado de ovo frito quando ela o tirou da frigideira para me servir. O prato de porcelana inglesa - herança dos seus pais – era antigo como o sino da igrejinha da vila. Parecia um gigantesco tacho de comida aos meus olhos, tanta era a fome que eu sentia. Educadamente me contive até ela pôr o prato sobre a mesa. Percebi que no seu olhar sobre meus gestos havia admiração e certa censura. Aquilo foi me encabulando aos poucos, não consegui terminar de comer a omelete, que, aliás, era a única coisa que cozinhava bem. Ela percebeu e me disse: - Coma devagar. Não vou ficar aqui te olhando. E saiu da cozinha.

Na rede da varanda a gente olhava a lua imensurável aos nossos olhos, em silêncio. Até que ela falou: - Obrigada, amor, foi um dia puxado, mas recompensador. Lembra-se disto? Disse-me mostrando um anel de ouro e brilhante, envelhecido. - Encontrei-o ao trocar a terra de um vaso quando meditava sobre o que tem sido a minha vida ao seu lado. Eu agradecia a Deus por ela ser tão cheia de desafios, de vitórias e de superações e por ser prenhe de amor e de perdão, justamente quando arranquei um pé de quebra-pedra e esmaguei a terra de suas raízes. Eu estava sem as luvas de borracha, pois tem hora que elas incomodam, e de repente aquele anel sujo parecia querer se alojar novamente no meu dedo. Foi um dia feliz porque recuperei um objeto que faz parte da nossa história, meu anel de noivado, que você me deu e que eu havia perdido durante a construção desta casa, lembra? Ah, eu tinha chorado tanto e agora ele volta para o meu dedo assim... Tão simples.

Eu a deixei chorar de alegria, um aparente gesto de fragilidade no rosto de uma mulher tão forte e corajosa. Apesar de estarmos cansados, conversamos abraçados a noite inteira, falando da vida, das coisas que vão e que voltam mesmo quando nem imaginamos e, claro, dos netos e filhos, tão inteligentes e bonitos. Então o sol chegou como um imenso anel de brilhante para iluminar nossa história de amor e os sonhos que sonhamos para quem amamos, nos embalando na rede da varanda da nossa casa de praia.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O DRAMA DO PAPAGAIO RODOPIANTE

Crônica de Fernando Canto, publicada no jornal “A Gazeta” de domingo, 09/05/2010

pipaO sol se punha certo dia na frente de uma cidadezinha das margens do Rio Amazonas quando deparei com uma cena que não via há tempos: um papagaio rodopiava preso pelo rabo na linha de outro que lhe cortara. Um quadro dramático, pois o objet o parecia lutar desesperadamente contra o seu algoz, o vencedor desse duelo. O vento colaborava para que ele se enrolasse cada vez mais, enquanto ambos eram puxados para baixo, lentamente, sob a gritaria dos meninos ribeirinhos em diversão com aquela brincadeira. No terceiro convés do navio eu apreciava aquilo como um lamento e cheguei a sentir a dor do objeto de papel e tala, de linha e cola, matérias-prima imprescindíveis para a sua existência artesanal no meio dos homens.

E eu me perguntava como é que um objeto desses, um brinquedo tão perecível como comida, no meio de um bando de crianças, pode despertar esse sentimento tão estranho. Parecia sim, uma cena de cinema mostrando uma titânica luta entre animais ou um embate mortal entre o herói e o bandido. Eu me perguntava até mesmo o que eu estava fazendo ali, quase sem destino em busca de algo que nem mesmo eu sabia o que era.

O papagaio rodopiante fora interceptado em sua aventura de subir ao céu e brindar seu empinador com o brilho do poente. Uma aventura efêmera, diga-se, pois certamente espera-se de um empinador de papagaio a habilidade de movimentá-lo como um acrobata chinês. Entretanto, uns são mais hábeis que outros nesse embate entre êmulos casuais. O “ser” geométrico em movimento circular e decadente era o meu oposto naquela viagem súbita, porém certíssima de um encontro, pensei num primeiro momento. Uma viagem justificada pela incerteza de viajar sem planejar em uma hora desnorteante, confusa, ação corroborada pela angústia que a rotina causa, pela necessidade de partir sem ter que chegar. Assim como poderia ser um encontro com alguma coisa também teria um significado especial, que eu só poderia saber depois.

Então o navio seguiu sua rota sob a noite estrelada. Milhares de quilômetros, dezenas de trapiches e mãos abanando suplicavam para que eu aportasse. Contudo eu sempre preferia o próximo porto.

Eu me sentia um planeta cuspido pelo furor da via láctea, latejando no quase imperceptível movimento das ondas, naquelas paragens vistas há séculos pelos navegadores espanhóis. Até sonhei que o corpo de Orellana estava sendo devorado por cardumes de piranhas negras; que Pinzon e sua tripulação enxergaram as lendárias Amazonas curtindo o rum que lhes restava, embotados no inebriante líquido. Senti o coração transpassado por uma flecha mura e percebi olhos brancos na floresta à margem do Mar Dulce, que mais tarde se tornaria o célebre rio das Amazonas. O ouro reluzente de El Dorado refletia a paixão dos homens cobiçosos, ávidos por riquezas, vociferando dentes e arroubos de ódio incontido pelos índios. Vi um litoral de ondas grandes e arrebatadoras: uma espécie de vingança da terra e da água contra os homens que ousavam penetrar-lhe a pele. Ouvi um som pulsante, vibrando embaixo do sol, ofertando aos habitantes do lugar o arrepio, o medo, a espuma capilar das ondas que viajam por extensões desmedidas. Vislumbrei o nascer de fortalezas feitas de pedras e os olhares de seres calcinados em seus degredos. Ali nas construções militares mais do que forçadas erguiam-se muralhas feitas de impropérios e piche, de farinha d’água e sangue, de sonho, embrutecimento e chibata. Gritos, gritos dos negros encalcetados se diluíam no ar junto ao barulho das ondas. Adiante, grandes pássaros atravessavam as ilhas na companhia de milhões de borboletas amarelas enquanto soldados disparavam canhões que varavam a História, até o meu despertar na rede balançante.

Eu havia sonhado em espiral, rodando como um papagaio que vibra em sua morte de não-ser, morte aparada pela linha que equilibra a vida entre o vento, o caos, e o desejo de sonhar com um novo e necessário porto.

Agora a imagem do objeto geométrico vez por outra fica como um símbolo na minha lembrança. O papagaio visto do navio na relatividade ensteiniana é apenas o veículo para a sorte da viagem que não paro de fazer sobre mim mesmo. É o meu encontro com a beleza da vida nessa paz amazônica que se espraia em mim. É a vida em rodopio, movimentada e larga, a experiência de um tempo fugaz e embrionário de outros rodopios, de papagaios que me falam de sonhos.

domingo, 18 de abril de 2010

O NAVIO DOS CABELUDOS E A EDUCAÇÃO PELO MEDO

Publicada no jornal “A Gazeta” de domingo, 18/04/10.

medo1 O medo de fazer algo errado e ser punido controlava a ação de qualquer moleque da minha idade.

Os mais velhos comentavam com veemência sobre uma tal Ilha de Cutijuba, no Pará, para onde levavam os jovens transgressores das leis, falando misérias sobre ela. Diziam ser um presídio de onde era impossível fugir por causa dos tubarões e pirararas que viviam ao seu redor, perto do oceano; um lugar quase inacessível, que para viver era preciso lavrar a terra na chuva e no sol para produzir seu próprio alimento; uma prisão ao ar livre na qual poucos sobrevivam cumprindo suas penas. Em suma: um inferno.

O controle social bem articulado, posto nas nossas cabeças pelo medo, povoava nossas vidas desde a infância. Para cada situação sempre existia uma história que evitava o fazer errado. Era a educação pelo medo. Até hoje quando vejo uma sandália virada providencio logo que ela fique na posição de calçar, pois me ensinaram a acreditar na superstição de que minha mãe morreria se a sandália não estivesse de cabeça para cima. Espertos esses adultos! Eles inventaram uma forma de fazer as crianças não bagunçarem os espaços da casa e também de não castigá-las com surras e outra correções violentas. Certa vez um dos meus filhos, ainda criança, viu o irmão chutar uma sandália que ficou de cabeça para baixo num canto da sala. Imediatamente ele disse: - A mamãe vai morrer, eu não tô nem aí, eu não tô nem aí! E saiu se isentando da culpa da (im)provável “morte” de sua mãe, causada pela sandália virada.

Situações como essa aprendemos em todos os lugares, seja em casa, na rua ou na escola, onde nossas relações sociais se ampliam e solidificam. E assim a gente vai se educando, variando os conhecimentos, resistindo ou não às novidades, segundo os contextos históricos, sociais, culturais e políticos que se apresentam. Mas dificilmente essas superstições e abusões sairão de nossas memórias, embora entendê-las, hoje, signifique dar boas risadas, porque todas as representações simbólicas produzidas pela consciência coletiva ou individual expressam visões de mundo e de sociedade. É uma visão política de realidade porque as ideologias estão ligadas à compreensão da cultura, que por sua vez é uma percepção ligada às diferenças entre os homens. O controle implícito no gesto de “ajeitar” a sandália é uma experiência de poder.

Bem próximo, na continuação da educação pelo medo, lembro da expressão “o Navio dos Cabeludos vem te buscar”, uma forma de coação social e familiar para os que não gostavam de cortar os cabelos, principalmente no tempo da Jovem Guarda, quando era moda usar os cabelos compridos, mesmo se arriscando a ser chamado de “bicha”. Não sei de onde veio a dita expressão, mas desde a Guerra do Paraguai, passando pela Revolução dos Cabanos e pela Segunda Guerra Mundial, muitos jovens se escondiam no mato com medo dos “Pega-pega”, navios que passavam nos rios da Amazônia para alistá-los compulsoriamente e remetê-los aos campos de batalha.

A invenção dessa “pedagogia” não raro ainda se estabelece em muitos lares urbanos e rurais da Amazônia. E funciona com as crianças, porque todas têm medo. Nenhuma delas quer perder a mãe por causa da sandália virada. Ninguém quer viajar a força num desses Navios dos Cabeludos que sempre aparecem na frente da cidade para uma viagem sem destino e sem volta.

Imagem disponível em: www.eutedigo.wordpress.com