domingo, 18 de abril de 2010

O NAVIO DOS CABELUDOS E A EDUCAÇÃO PELO MEDO

Publicada no jornal “A Gazeta” de domingo, 18/04/10.

medo1 O medo de fazer algo errado e ser punido controlava a ação de qualquer moleque da minha idade.

Os mais velhos comentavam com veemência sobre uma tal Ilha de Cutijuba, no Pará, para onde levavam os jovens transgressores das leis, falando misérias sobre ela. Diziam ser um presídio de onde era impossível fugir por causa dos tubarões e pirararas que viviam ao seu redor, perto do oceano; um lugar quase inacessível, que para viver era preciso lavrar a terra na chuva e no sol para produzir seu próprio alimento; uma prisão ao ar livre na qual poucos sobrevivam cumprindo suas penas. Em suma: um inferno.

O controle social bem articulado, posto nas nossas cabeças pelo medo, povoava nossas vidas desde a infância. Para cada situação sempre existia uma história que evitava o fazer errado. Era a educação pelo medo. Até hoje quando vejo uma sandália virada providencio logo que ela fique na posição de calçar, pois me ensinaram a acreditar na superstição de que minha mãe morreria se a sandália não estivesse de cabeça para cima. Espertos esses adultos! Eles inventaram uma forma de fazer as crianças não bagunçarem os espaços da casa e também de não castigá-las com surras e outra correções violentas. Certa vez um dos meus filhos, ainda criança, viu o irmão chutar uma sandália que ficou de cabeça para baixo num canto da sala. Imediatamente ele disse: - A mamãe vai morrer, eu não tô nem aí, eu não tô nem aí! E saiu se isentando da culpa da (im)provável “morte” de sua mãe, causada pela sandália virada.

Situações como essa aprendemos em todos os lugares, seja em casa, na rua ou na escola, onde nossas relações sociais se ampliam e solidificam. E assim a gente vai se educando, variando os conhecimentos, resistindo ou não às novidades, segundo os contextos históricos, sociais, culturais e políticos que se apresentam. Mas dificilmente essas superstições e abusões sairão de nossas memórias, embora entendê-las, hoje, signifique dar boas risadas, porque todas as representações simbólicas produzidas pela consciência coletiva ou individual expressam visões de mundo e de sociedade. É uma visão política de realidade porque as ideologias estão ligadas à compreensão da cultura, que por sua vez é uma percepção ligada às diferenças entre os homens. O controle implícito no gesto de “ajeitar” a sandália é uma experiência de poder.

Bem próximo, na continuação da educação pelo medo, lembro da expressão “o Navio dos Cabeludos vem te buscar”, uma forma de coação social e familiar para os que não gostavam de cortar os cabelos, principalmente no tempo da Jovem Guarda, quando era moda usar os cabelos compridos, mesmo se arriscando a ser chamado de “bicha”. Não sei de onde veio a dita expressão, mas desde a Guerra do Paraguai, passando pela Revolução dos Cabanos e pela Segunda Guerra Mundial, muitos jovens se escondiam no mato com medo dos “Pega-pega”, navios que passavam nos rios da Amazônia para alistá-los compulsoriamente e remetê-los aos campos de batalha.

A invenção dessa “pedagogia” não raro ainda se estabelece em muitos lares urbanos e rurais da Amazônia. E funciona com as crianças, porque todas têm medo. Nenhuma delas quer perder a mãe por causa da sandália virada. Ninguém quer viajar a força num desses Navios dos Cabeludos que sempre aparecem na frente da cidade para uma viagem sem destino e sem volta.

Imagem disponível em: www.eutedigo.wordpress.com

Um comentário:

  1. Ademar Ayres do Amaral30 de setembro de 2010 09:39

    Do escritor e amigo Fernando Canto, recebi e já devorei o livro ADORADORES DO SOL .É um conjunto de crônicas escolhidas que foram publicadas ao longo de anos, nos principais jornais de Macapá. Mesmo sendo crônicas aparentemente desconectadas uma da outra, no livro elas formam uma incrível unidade, vão fundo ao umbigo daquele território e de sua vasta cultura, que livros como este têm a virtude de resgatar.Ler o livro e saborear o texto sempre exemplar do Fernando Canto - escritor premiadíssimo -, é como dar um passeio pela pela história do Amapá e da sua bela gente.E para minha surpresa,na penúltima crônica eu me deparei com um assunto que também foi motivo de uma crônica minha há uns dois anos: o mistério amazônico das borboletas amarelas. Antes das nossas abordagens, o escritor Márcio Souza já havia falado sobre elas no excelente Mad Maria, quando lembra um passeio do escritor Mario de Andrade pelas vastidões inóspitas da Estrada Madeira Mamoré, a conhecida ferrovia do diabo. Fernando, parabéns pela obra, ela tem O Bálsamo das nossas lonjuras.

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