terça-feira, 10 de maio de 2011

VELHA ENTREVISTA

fernando A postagem desta velha entrevista concedida ao jornalista Renivaldo Costa em “O Liberal Amapá” há 12 anos é uma espécie de prestação de conta a mim mesmo pelos projetos (pessoais ou coletivos) que tentei realizar e ainda não consegui. Mas paralelamente a eles executei outros, que se apresentaram em minha frente e que instintivamente segui. Não deixei de lado nenhum dos projetos literários e musicais citados, e os retomarei logo, logo. Assim que der.

Dos que executei na época alguns foram de inequívoca importância para a cultura amapaense como a Marabaixeta, por exemplo, que surgiu em um momento crucial, quando o Marabaixo parecia agônico devido a vários fatores, entre os quais a falta de sensibilidade para investir na cultura popular. Desse processo surgiu quase uma dezena de grupos folclóricos que vieram fortalecer a nossa maior expressão cultural e consequentemente a identidade do nosso povo.

ENTREVISTA COM FERNANDO CANTO – JORNAL O LIBERAL DE 07 DE JULHO DE 1999

“A CULTURA EM SEU DEVIDO CANTO”

Fernando Pimentel Canto é uma das figuras mais importantes da cultura amapaense contemporânea. Sociólogo, poeta, contista, Fernando é também boêmio e idealizador da Marabaixeta, o Marabaixo fora de época, que anima as tardes do Laguinho. Nesta entrevista, o poeta fala de seus projetos, religiosidade, Grupo Pilão e da cultura amapaense.

Pergunta - As pessoas contestam muito essa história de que a arte é algo de sangue. No entanto, sua família é um exemplo disso, além de você, Eduardo, Juvenal, conheci em Belém um primo seu (Ronaldo) que também escreve. Como você analisa essa questão?

Fernando Canto – Arte é um produto social. Estar no meio artístico incentiva e motiva as pessoas a navegar por esses meandros difíceis, mas prazerosos. Tudo é trabalho e dedicação. Ninguém espere que os genes sejam a varinha de condão que vai fazer o cara ser artista sem esforço, num passe de mágica, só porque o pai toca e a mãe dança. Para ser artista o cara tem mais é que ralar. É verdade que na minha família tem várias pessoas que se dedicaram a algum ramo da arte. Meu pai e seus irmãos tiveram um conjunto de pau e corda lá no interior do Pará. Minha mãe, que era professora, escrevia versos. Tenho irmãos e primos que tocam, escrevem e compõem.

Pergunta - O Bálsamo é uma expressão máxima em se tratando de Realismo Fantástico. Como surgiu a inspiração para o conto e porque não transformá-lo em romance?

Fernando Canto – Não tenho dúvida que “O Bálsamo” é um dos meus mais importantes textos, tanto que virou performance teatral, história em quadrinhos e foi até roteirizado para o cinema pelo pessoal do CRAVA – Coletivo de Realizadores Audiovisuais da Amazônia, em Belém. Para o escritor, cada linguagem artística referente a seu texto é uma revelação do potencial nele contido, haja vista os elementos simbólicos existentes em seu bojo e pelo que carrega de diferente, lógico, ilógico, real, irreal e até mesmo de fantástico.

”O Bálsamo” surgiu desse encantamento amazônico quer perpassa cotidianamente entre nós e que nem sempre percebemos. Na Amazônia o suprarreal acontece e “mundia” como o olhar do boto. Resta capturar esse olhar e fazer a leitura do estranhamento. Foi o que fiz. “O Bálsamo” sobreviverá como conto. Não tenho planos para transformá-lo em romance.

Pergunta – A propósito, você é o quê: ateu, cristão ou agnóstico?

Fernando Canto – Embora respeite as opções religiosas das pessoas e tenha recebido desde a infância os ensinamentos do cristianismo, não sou praticante de nenhuma religião. Estudei várias delas e até participei de rituais com objetivos antropológicos. Agora, numa ordem mais ampla, creio que creio, pois sou vigorosamente impelido a entrar num círculo como um ponteiro de segundo que tem que estar dentro do relógio. Tenho que fazer sentido desse pensamento e me envolver como parte de um movimento arrasador num universo onde o tempo e o espaço sejam uma coisa só. Daí penso crer na imortalidade da alma que, como no tempo mítico de nossos ancestrais, sempre retorna. Bela, no espiral de um tempo novo. Nesse ponto sou agnóstico. Porém, nem ímpio nem ateu nem cruel. Às vezes creio e crio dentro do mito, por estar enlevado de essência amazônica. E de atávicos conhecimentos indígenas, estes que engendram a imaginação no ato de criar. Todo amazônida que se preza começa a crer a partir do poder das plantas e das águas. Quem não tem um pé de comigo-ninguém-pode em sua casa? Um tajá? Uma espada-de-são-jorge? Um vidro de água-benta? Não gosto da hipocrisia acadêmica. Fui professor de Antropologia Cultural na UFPA, e tanto lá como em muitos lugares em que vivi, percebi que o que dizem a esse respeito, com a fundamentação teórico-científica “é só da boca pra fora”. Religiosidade, para mim, é algo muito tácito, muito pele. Tem que se sentir e provocar o consentimento.

Pergunta – Muitos artistas comentam que algumas facções da arte não têm merecido o apoio devido pelo governo do Estado. Você concorda?

Fernando Canto – O Governo existe para agir e apoiar os anseios da sociedade, baseando-se em diretrizes e políticas públicas que tenham a participação ativa do povo. Se não há política para a área cultural, abre-se um enorme abismo entre o povo e o governo. Nenhuma sociedade pode ser sustentável se a ponte entre ela e os gestores é um fio de algodão encerado e puído, prestes a romper. A cultura é o grande calo melhor governo que o Amapá já teve até agora. Pena que alguns gestores da área não tenham entendido o que é Desenvolvimento Sustentável, e por isso, como se dizia antigamente, vão perder o trem da história. A cultura é um dos pilares do D.S., posto que congrega as características da nossa identidade e idealiza o que pretendemos enquanto povo.

Pergunta – O segundo manifesto do “Mister A” cita você que engrandece a nossa literatura. Como você recebe o elogio e o que acha do primeiro manifesto?

Fernando Canto – Não li o segundo manifesto. Acho que. Mesmo com pseudônimo – o que não é lá muito confiável – o primeiro texto remete ao debate. A cultura amapaense sofre a falta de ânimo. É apática, precisa se fortalecer. E nada como o conflito para provocar mudança.

Pergunta – E projetos? Quais os que você está encampando atualmente?

Fernando Canto – Estou terminando, junto com um grupo de colegas, uma monografia sobre a questão cultural em Mazagão Velho, que consideramos o berço de nossas tradições. É o trabalho final do curso de Especialização em Desenvolvimento Sustentável e Gestão Ambiental, realizado pelo GEA/IEPA/CEFORH e UFPA/NAEA. Após isso pretendo terminar meu romance “Noite das Nove Luzes” e reiniciar um outro, que é sobre a vida dos principais construtores da Fortaleza de São José de Macapá no século XVIII. Comecei esse trabalho em Belém, em 1995, quando pesquisei todas as correspondências dos comandantes do forte e de outros com a capital da Província, existentes nos códices do Arquivo Público do Pará, no período de 1762 a 1782, desde antes da construção até após a inauguração. Esse período de 20 anos traz revelações impressionantes. É só aguardar. Mas projeto é o que não falta. Já iniciei um novo livro de contos sobre expressões populares estapafúrdias, que trazem sempre algo de fantástico. Também tem um que é sobre a transformação de alguns “ladrões” de Marabaixo em prosa. Só que eles serão a base ficcional da escrita. Há outros, mas preciso terminar estes.

Pergunta – Pra encerrar. E o Grupo Pilão?

Fernando Canto - O Grupo Pilão já prepara o seu quarto CD, que, aliás, é mais um trabalho de pesquisa que fazemos há vinte e quatro anos. É um projeto cultural especial que será lançado como produto local das comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil. O Pilão também vem aí com toda a força, devolvendo ao povo o que é do povo. Sem nenhuma demagogia, vai como sempre, apoiar a realização da Marabaixeta, das tardes de domingo no bairro do Laguinho. Além disso, vai realizar shows até o final do ano.

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