sábado, 14 de setembro de 2013

URDIDURA (ENIGMA AMAPÁ)



Para Alba Carvalho, com carinho, nesta aventura epistemológica no meio do mundo, este estudo de sociopoesia reflexiva.

            I

Des/vendar tua terra, teus sonhos, Amapá
Des/vendar teus olhos, teus textos não escritos
Des/velar tua alma circunscrita sobre um rio de prantos
Que se espraia para a foz e lava sortilégios no oceano

            II
Na terra o sol repuxa a sombra do arquipélago
E explode sobre o manto da tua dimensão aquática
Em festa de bailados sem fim

            III
O teu estado é o de ausente nas necessidades, Amapá
Essas que emergem quando o tempo lento das tuas tardes
Flanam no teu dorso como a vida descaindo à chuva nos barrancos
E re/velam teus segredos:
A construção de pedra ainda esmaecida na paisagem
E o ofício de viver uma inócua pedagogia da espera

            IV
Desgarrar das guelras, relatar os mistérios das entranhas
Desfibrar as teias, manusear teares
Para fabricar tecidos de ouro e aço e de cores rutilantes
Como as mãos habilidosas de Penélope
Até a volta do heroi na hora exata

            V
Quando és só tu és nada, Amapá
Nada te adianta se ao calor não refrigeres
E se ao frio não acenderes a teus filhos                                                                 
O fogo do amor e da paixão que de ti tantos esperam

            VI
Quando és só equinócio, Amapá
Parece não temeres
O jogo equidistante dos solstícios
Nem a força das vozes nos quadrantes
Onde estão os mitos, a fé e os gritos
Vindos lá do fundo da floresta
Em busca de respostas que as saciem

            VII
Só verás pulsar em ti a substância
Quando a enigmática estrutura do teu corpo
Abrir-se ao vento e à mansidão da tessitura
Espelhada ao sol do equador

            VIII
Tu só sentirás a ruptura
Ao ouvir a voz gestante das ciências
E o anseio ainda latente no clamor de homens e mulheres
Sem os receios dos silêncios obscuros
Sem o medo de arder velhas memórias
Sem a escória a deformar os teus caminhos
E os passos do teu povo em agonia

            IX
Terás, assim, a urdidura do algodão e da lã
Por aqueles que te tocam com ternura
Do meio-dia à meia-noite em tempo de contrários
Até que as sombras sejam luzes transparentes
Para que surjas radiante após a cerração

            X
Mas dobrarás, decerto, as pontas da Rosa dos Ventos
Para o coração, num círculo de luz:
Um gesto a agradecer eternamente

            XI
Verás, então, que desvendar-se é por o lume sobre a mente
É libertar-se já do que te oprime
É trazer o mar de volta para os Andes
É revolver a vida em ondas inquietas
De um novo rio que surge para sempre

 
Texto de Fernando Canto
Macapá, Campus Marco Zero do Equador, 09 de julho de 2013

Um comentário:

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