sexta-feira, 24 de julho de 2015
segunda-feira, 13 de julho de 2015
DEPOIS DA TRAVESSIA
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| Foto disponível em: http://www.panoramio.com/photo/60848158 |
DEPOIS
DA TRAVESSIA
Aqui o estreito:
Como as ruas da tua mãe europeia,
Como o rastro da lendária cobra
A apaziguar-se lentamente
Ao sonho de tuas construções.
Ainda agora velhos aposentos aconchegam
As mãos que brindam
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| Foto disponível em: http://oficinadecestas.blogspot.com.br/ |
O cálice do vinho/ o púcaro/ a xícara
A chávena de louça, cristais e porcelanas
Tilintantes ao som de um novo tempo
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| Foto disponível em:http://www.marcelodalla.com/ |
Como a flor do bougainville
nos jardins
Brotando sob a lua cheia.
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| CANTO, Fernando. Canção do Amor Enchente. AALO. Belém:2012 |
domingo, 12 de julho de 2015
PRÓLOGO
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| Fernando Canto em Óbidos, 2009 |
PRÓLOGO
O mundo cabia
Dentro de um caroço escuro e rude
Mas Deus disse:
“- Fiat Oppidum!”
E o verbo fez-se em trajes majestosos
E em mágico presente de rainhas.
Do caos se organizaram vilas
Muralhas e castelos se enfeitaram de história
Em séculos cobertos de azulejos
- Cenas do oceânico traslado -
Em naus lambadas pelo Mar,
Com os seus canhões calados
Fustigados de procelas Amazônicas.
CANTO, Fernando. Canção do Amor Enchente. AALO. Belém:2012
segunda-feira, 8 de junho de 2015
O DISCURSO DISCRIMINADOR DO MARABAIXO
Foto disponível em www.blogderocha.com.br
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| Foto disponível em http://gabriel-penha.blogspot.com.br/ |
Diante
de mais um fato etnocêntrico de um delegado que ameaçou parar as festas do
Marabaixo, publico este texto conclamando todos os amapaenses a defender nossa cultura
ancestral (F.C.)
O
DISCURSO DISCRIMINADOR DO MARABAIXO (*)
Texto
de Fernando Canto
Para o
amigo Herialdo Monteiro
Não é
de hoje que o Marabaixo é discriminado. Aliás, as manifestações culturais de
origem africana sempre foram vistas como ilegais ao longo da história do
Brasil. Do samba à religião, seus promotores foram vítimas de denúncias que os
boletins de ocorrências policiais e os processos judiciais relatam como
vadiagem, prática de falsa medicina, curandeirismo e charlatanismo, entre
outras acusações, muitas vezes com prisões e invasões de terreiros.
Essa
discriminação ocorreu - e ainda ocorre - em contextos históricos e sociais
diferenciados, e veio produzida por instituições que tinham o objetivo de
combater o que lhes fosse ameaçador ou que achassem associadas às práticas
diabólicas, ao crime e à contravenção.
No
caso do Marabaixo, há anos venho relatando episódios de confronto entre a
igreja católica (e seus prepostos eclesiásticos e seculares), e os agentes
populares do sagrado, estes que, por serem afrodescendentes, mestiços e
principalmente por serem pobres, foram e são discriminados, visto o ranço
estereotipado de que são “gente ignorante” e supersticiosa.
É do
século XIX a influência do evolucionismo que tomava como modelo de religião
“superior” o monoteísmo cristão e via as religiões de transe como formas
“primitivas“ ou “atrasadas” de culto. Para Vagner Gonçalves da Silva (Revista
Grandes Religiões nº 6), nesse tempo “religião” opunha-se a “magia” da mesma
forma que as igrejas (instituições organizadas de religião) opunham-se às
“seitas” (dissidências não institucionalizadas ou organizadas de culto).
É do
século XIX também os primeiros escritos sobre o marabaixo. Em um deles um
anônimo articulista o ataca, dizendo-se aliviado porque “afinal desaparece o o
infernal folguedo, a dança diabola do Mar-Abaixo”.
Ele
afirma que “será uma felicidade, uma ventura, uma medida salutar aos órgãos
acústicos se tal troamento não soar mais...”. Na sua narrativa preconceituosa
vai mais além ao dizer que
“Graças
ao Divino Espírito-Santo, symbolo de nossa santa religião, que só exige a
prática de bôas acções, não ouviremos os silvos das víboras que dansam ao som
medonho dos gritos dos maracajás (...), que é suficiente a provocar doudice a
qualquer indivíduo”. Assevera adiante “Que o Mar-Abaixo é indecente, é o foco
das misérias, o centro da libertinagem, a causa segura da prostituição”. E
finaliza conclamando “Que os paes de famílias, não devem consentir as suas
filhas e esposas frequentarem tão inconveniente e assustador espetáculo dessa
dansa, oriunda dos Cafres”. (Jornal Pinsonia, 25 de junho de 1898)
Discursos
de difamação do Marabaixo como este e a posição em favor de sua extinção
ocorreram seguidamente. O próprio padre Júlio Maria de Lombaerd quebrou a coroa
de prata do Espírito Santo que estava na igreja de São José e mandou entregar
os pedaços aos festeiros. O povo se revoltou e só não invadiu a casa padre para
matá-lo graças à intervenção do intendente Teodoro Mendes.
Com a chegada do PIME – Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras - em Macapá (1948) o Marabaixo sofreu um período de queda, mas suportado com tenacidade por Julião Ramos, que não o deixou morrer. Tiraram-lhe inclusive a fita da irmandade do Sagrado Coração de Jesus, da qual era sócio fiel.
Com a chegada do PIME – Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras - em Macapá (1948) o Marabaixo sofreu um período de queda, mas suportado com tenacidade por Julião Ramos, que não o deixou morrer. Tiraram-lhe inclusive a fita da irmandade do Sagrado Coração de Jesus, da qual era sócio fiel.
Nesse
período os padres diziam que o Marabaixo era macumba, que era coisa ruim, e combatiam
seus hábitos e crenças, tidos como hediondos e pecaminosos, do mesmo jeito que
seus antecessores o fizeram no tempo da catequização dos índios. Mas o bispo
dessa época, D. Aristides Piróvano, considerava Mestre Julião “um amigo” (Ver
Canto, Fernando in “A Água Benta e o Diabo”. Fundecap, 1998)
O
preconceito dos padres italianos com o Marabaixo tem apoio num lastimável
“achismo”. Os participantes são católicos e creem nos santos do catolicismo,
tanto que a festa é dedicada ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade e
não a entidades e voduns como pensam. Nem ao menos há sincretismo nele.
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Colheita da Murta
Foto: Fernando Canto: Arquivo pessoal
|
(*) Do livro
“Adoradores do Sol – Novo Textuário do Meio do Mundo”. Scortecci, São Paulo,
2010
terça-feira, 3 de março de 2015
CIDADE DAS ÁGUAS. De Voice of Spring ao Profeta do Ver-O Peso
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| Foto:www.souparaense.com |
Tenho o
hábito de reler livros que apreciei um dia, mas que à época não sorvi direito a
totalidade de seus escritos. Hoje, ao imergir nas profundezas de um livro
publicado pelas editoras Paka-Tatu e RGB, em 2004, o “Cidade das Águas”, louvo
os textos dos autores Ronaldo Franco e Alfredo Garcia, ambos paraenses. Numa
soberba homenagem à Belém e sua chuva, os poetas realizam uma espécie de
libação memorial à Cidade das Mangueiras, despindo-a de máscaras e conduzindo a
observação imprescindível nos detalhes, a matéria-prima que os poetas
transformam em literatura. Em “Cantos sobre a Cidade das Águas” há a estrofe: “Não é o som do rio que ouço/ mas o caminhar
do vento/ Pelas sombras/ Mapeando as entranhas/ Do verso/ Indo ao mais longe/
Da memória”. São poemas sobre poemas como o 15º, onde se evocam fantasmas num
tempo suspenso no arranha-céu da lembrança, pois: “Os sopros da memória/ Rascunham versos/ Nos caminhos do vento/ E este
abre a janela/ Dos casarões/ Onde ainda valsam/ Pelos corredores/ senhores de
pincenê/ Senhoras farfalhando/ Alegres/ e se pode ouvir/ Risos às escâncaras/ E
volteios delicados/ Ao som/ De Voice of
Spring.” Ronaldo Franco ainda nos brinda com poemas como “Esse Ruy é minha
rua” e com a crônica “Procura-se”, quando vivifica e tange o desejo [do]
brasileiro em tradução livre do poeta: “Nádegas
brasileiras. A nossa pátria abunda. Nádegas japonesas, nunca! Nádegas
comunistas convocam posseiros. Viva as nádegas de Raimundas!”
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| Foto: www.noticias.uol.com.br |
Depois
vem Alfredo Garcia, poeta respeitável e prosador aguçado com seu “Barca
Barroca: Contos do Ver-O-Peso”, onde “O Profeta em Delírio no Ver-O-Peso”
explicou: “Porque será só como uma só
noite infinda. Assim será, oh sim, quando vier o que está escrito. Porque não
haverá este rio, esta calmaria de cidade dormitando pelas ruas da tarde, assim
como ora veem. Muitos e muitos rios, um grande desassossego brotará de todos os
lados.”
“Cidade das
Águas” antes de ser apenas um livro plural, é uma reunião de textos de
qualidade. Cada verso, cada frase aborda o habitat desses poetas que absorvem,
espremem e põem ao coarador literário um pano memorial eivado de crítica e de
ternura pela cidade de Belém.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
TIA ZEFA, MINHA RICA MÃE NA VÉSPERA DE UM SÉCULO
Texto de Fernando Canto
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| Foto: Fernando Canto - Arquivo pessoal |
Carinhosamente
conhecida como Tia Zefa, ela é mãe dos meus queridos amigos José Pedro da Silva
Ramos, José Isaías (Também conhecido por “Joaquim” ou “Bomba D’água”),
Aureliano “Neck”, Joana (falecida), Raimunda Lina, Fina, Ana (falecida) e Rita.
É avó do Nilson “Estilizados” (Puxador de Samba), da Paulinha, do Jairo (Porta
Bandeira e Mestre Sala dos Estilizados, respectivamente), do Cauã (Mestre Sala
Mirim), dos gêmeos batuqueiros Pedro e Paulo e de vários outros componentes da
Escola.
Tia
Zefa foi uma das habitantes do centro de Macapá que foi remanejada para o
bairro do Laguinho em 1944, quando da expansão territorial da capital executada
pelo governador Janary Nunes. Reside ainda no mesmo lugar, ali na frente do
antigo campo dos escoteiros, onde depois construíram a Cobal e que agora é a
sede do SEBRAE, na Avenida Ernestino Borges.
Ainda
hoje ela é vista varrendo a frente de sua casa. Mesmo contrariando os filhos,
que pagam uma empregada doméstica para o serviço, ela lava, cozinha e cuida da
casa. Nas procissões de São Benedito, padroeiro do bairro e de São José,
padroeiro da cidade, lá está ela acompanhando as imagens com os fiéis, às vezes
até descalça. No ciclo do Marabaixo lá está ela, dançando, com quase a mesma
disposição, lembrando dos velhos tempos. Sua lucidez permitiu que muitos
estudantes e pesquisadores pudessem conhecer nosso folclore e a história dos
afrodescendentes locais através dos versos dos ladrões de Marabaixo.
Neste
momento em que está ocorrendo uma missa de Ação de Graças pelo seu aniversário,
junto-me ao sentimento de todos seus familiares pela longa presença dessa
pessoa iluminada na face do planeta, que carrega o fado de saber das nossas
coisas e de tê-las testemunhado. Louvo, assim, sua preciosa memória que é plena
de significados individuais e coletivos e fonte inesgotável de informações. Ela
é sujeito da história e voz de muitos sujeitos. Sua memória permitiu a
recuperação de uma visão de mundo, pois vivenciou a experiência e nos deu a
riqueza de uma história mais comovente e verdadeira.
A Tia Zefa também é compositora. Entre tantos ladrões que cantam nas festas de
Marabaixo sem saber o verdadeiro autor, ela nos deixou estes versos:
Mamãe, minha rica mãe
Ora veja o mundo
como é que está
Ainda há moça que
se ilude
Por moço deste
lugar.
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| Foto: Fernando Canto - Arquivo pessoal |
A
contribuição da Tia Zefa, nestes últimos tempos em que se percebe uma
necessidade vital de se trabalhar em busca da identidade local, foi fornecer
matéria-prima para tantos TCC’s, monografias, dissertações e teses. Essas
pesquisas evitam a diluição e os esquecimentos de circunstâncias e momentos não
registrados. A memória da Tia Zefa é, então, o segredo da identidade, porque
vive o que não somos mais.
Perto
de completar um século, e saudável, física e mentalmente, Tia Zefa traz esse
privilégio de poucos. Respeitadora do sentimento alheio, não fez nenhuma festa
devido ao recente falecimento de sua irmã e das amigas Ondina e Chiquinha do
Bolão, outras mulheres negras e representativas da cultura popular do Amapá.
Deixo
aqui para a Tia Zefa, seus filhos e descendentes, minhas felicitações pelo seu
aniversário de 99 anos. Que Deus a proteja sempre e que ela continue a nos
ensinar com a sua humildade e conhecimento as coisas do Amapá, pois ela sabe
também que não são só as moças “que se
iludem com os moços deste lugar”. Todos nós nos iludimos com as coisas: nós
eleitores, nós consumidores, principalmente quando a memória trai e o tempo faz
esquecer a política e os valores humanos mais importantes. Parabéns, Tia Zefa
(Minha Rica Mãe), pelo aniversário e pelo seu legado.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
De novo o nome do Teatro.
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| Foto: edgar-amapa.blogspot.com |
O debate em curso agora vem ganhando outra conotação que não
o acréscimo do nome do Pádua ao Teatro, tudo por conta da vaidade, da mágoa, do
ódio, do rancor e da mentira. Devo dizer à prezada poeta Alcinéa que eu não
tenho nenhuma música com o nome Pérola Negra, e olha que eu conheço todas elas.
Tenho, sim, uma música chamada Pedra Negra, que fala sobre o problema da
exploração do manganês na Serra do Navio, apresentada no I FUMAP, em 1979, e
gravada em 1986 pelo grupo Pilão. Se alguém sugeriu esse título decerto não fui
eu. Nem preciso disso. Não
tenho essas vaidades. Eu tenho boa memória e há muitos anos trabalho na área da
cultura buscando o fortalecimento de nossa identidade, inclusive estudando a
fundo o assunto, que ora é objeto de pesquisa, juntamente com a Fortaleza de
São José de Macapá, da minha tese de doutorado institucional em Sociologia na UFC.
Sobre a possível mudança do nome do Teatro já dei minha
opinião no texto originário do FB do Walter. Eu reafirmo que o Pádua foi um
grande amigo que tive e continuo acreditando que ele merece reconhecimento
póstumo. Ainda continuo defendendo o nome Teatro das Bacabeiras, mais
fortalecido ainda pelos comentários dos amapaenses e pela vontade daqueles que
na época – a maioria dos artistas – elegeram democraticamente o nome da nossa
casa de espetáculos, provando que não existe esse negócio de “vontade política”
do governante, mas sim pressão popular.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
KITESURF
KITESURF
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| Foto: Juvenal Canto |
Texto de
Fernando Canto
Para o velho RauzitoT., pioneiro do windsurf nestas águas de Heráclito
Que a brisa sopra
E forma apostos frasais no alvo céu
Aleatórios - na tarde cênica Em que me ardo e esfrio
Ao vento membranoso da cidade
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| Foto: Juvenal Canto |
Comprimo meu olhar
Ao objeto manobrado
(Em digressões sentimentais)
Entre parênteses forjados
Entre vírgulas dobradas
Nada é verdadeiro:
Aspas tomam conta da cidade
(((,,,,,, “ ...”
,,,,,,)))
terça-feira, 21 de outubro de 2014
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
CONVITE RETROSPECTIVA OLIVAR CUNHA
Convidamos os interessados em artes plásticas
para a retrospectiva de 46 anos de atividade artística do pintor Olivar Cunha,
em uma exposição relâmpago.
A exposição será uma oportunidade única para
conhecer a trajetória do artista e de sua evolução técnica em diversas fases experimentadas
nos caminhos da arte.
Natural do Amapá, o artista reside atualmente em
Vitória-ES e encontra-se na Amazônia para revigorar seu processo criativo, no
qual permeia sempre as temáticas regionais.
Venha visitar a exposição e valorizar a produção
do artista amapaense.
Serviço
Local: Avenida Raimundo Álvares
da Costa, nº 2706 – Santa Rita (entre as ruas Paraná e Santa Catarina)
Data: Dia 23 de
outubro de 2014, quinta-feira
Horário: de 19h00 às 24h00
Horário: de 19h00 às 24h00
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
CONVITE
Convido todos os amigos para o lançamento de meu livro a ser
realizado no hall da Rádio Universitária, UNIFAP, a partir das 17:00h do dia 15/08/14
(sexta-feira).
Na ocasião serão lançadas, também, mais dez obras de autores
da comunidade unifapiana que se habilitaram ao primeiro edital da Editora
Universitária.
Desde já, agradeço o comparecimento de todos.
FERNANDO CANTO
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Parabéns, Leonardo Mont'Alverne
Há oito anos escrevi a crônica abaixo e a publiquei no Jornal do Dia. Hoje meu querido neto Leonardo Mont’Alverne faz dez anos. Parabéns, Leléo. O carinho é sempre o mesmo.
NETOS, AVÓS E PARENTESCO (*)
Fernando Canto
Imagine
aquela pessoa chegar, adentrar o seu quarto e começar a mexer em tudo, a
apertar botões, tirar as coisas do lugar, jogá-las no chão, e você fica ali.
Parado. Sem dizer nada. Esperando o desfecho das coisas com passividade e
calma. Não. Não é um assalto, não há nenhum bandido lhe ameaçando.
É seu neto
de dois anos que chegou para mais uma visita ansiosamente esperada. Mais bobo
ainda, você o convence a bagunçar mais, a fazer festa com controles remotos,
com o ar condicionado, o rádio, e qualquer outro objeto que estiver no local. E
ainda participa de coisas que até então não admitiria que seu filho fizesse. Jamais
deixaria que as pessoas vissem o seu garoto como um mal-educado, sem formação
familiar, alguém descontrolado, sob pena dos olhares de censura. Mas não é o
seu filho. É o seu neto de dois anos que está ali. Desfrutando, talvez uma
liberdade imensurável que a liberalidade dos avós permite em nome de um
sentimento que só se conhece quando se é o pai do pai, mesmo torto, o padrasto
do enteado, mas referência inelutável de parentesco.
O
mito de que uma criança criada pela avó pode ter desvio de caráter no futuro
não passa de um preconceito arraigado. É possível que a ausência dos pais,
nesse caso, leve ao excesso de mimos e de satisfações de vontades. Há quem diga
que a relação avós/netos é a oportunidade que os primeiros têm de consertar os
erros que cometeram com os filhos, dando aos segundos o que não puderam dar a
estes.
Aliás,
voltando à questão do parentesco, sabe-se que é um termo pouco preciso para
denominar relações entre pessoas, baseadas em certas formas de afinidade comum,
real ou suposta. Para a sociologia é preciso reconhecer a distinção entre
parentesco meramente biológico e parentesco socialmente reconhecido. Supõe-se
que pode haver ligações consangüíneas às quais falta o reconhecimento social, aonde
a consangüinidade não conduz a nenhuma forma de relação social. Já o parentesco
socialmente reconhecido nem sempre repousa sobre uma base realmente
consangüínea. Portanto, hoje o parentesco é de uma classificação mais complexa,
mormente se se levar em conta os divórcios e os casamentos que separam e unem
ex-famílias nucleares para a formação de outras. E isso é muito característico
das sociedades ocidentais, que também são consideradas num sistema de
parentesco como bilaterais, pois os parentes são pessoas do lado dos dois pais.
A confusão se forma quando não há consangüinidade, apesar dos filhos dos dois
pais diferentes e unidos pelo casamento sejam agora “irmãos”.
Não
é bem isso que eu queria dizer quando falo do meu neto torto. ( – Torto é o
avô, diriam). Porém as condições de amar revelam que a consangüinidade não é
tudo. Um carinho é um caminho bastante usual para a conquista, mas a atenção
excessiva que permite o neto ser o rei e reinar, ser o centro das atenções e
saber disso, levam à satisfação de que independentemente de parentesco temos
que dar às crianças o máximo possível de amor. Pois o amor, seja ele qual for,
é o “produto” garantidor da nossa existência na memória delas.
(*) Publicado
no Jornal do Dia em 2006.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
PAVÃO E O MARABAIXO
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| Foto disponível em: www.federacaofolcloricadoamapa.blogspot.com |
Em maio vai fazer cinco anos que o
Mestre Pavão nos deixou. Reproduzo esta crônica que escrevi sobre ele, com uma
grande saudade no coração.
O ÚLTIMO VOO
DO PAVÃO *
O homem do Marabaixo partiu para
encontrar-se com seus ancestrais, os mesmos que lhe ensinaram a tocar tão bem a
caixa, o tambor que anunciava bons augúrios nas tardes do Laguinho.
Com ele Pavão comunicava a seus pares, os agentes populares do sagrado,
que a festa do Divino e da Santíssima Trindade já tinha início. E todo um
ritual deveria ser obedecido, desde o Domingo da Aleluia, passando pelos
preparativos da seleção dos mastros nas matas do Curiaú, até a sua derrubada e
escolha dos próximos festeiros no Domingo do Senhor. Com ele se foi um
arcabouço cultural de grande valia para a memória do nosso patrimônio
imaterial. Foi-se também a sabedoria dos que fazem acontecer as manifestações
mais legítimas do povo. E restou apenas o espanto dos que ficaram.
Doente, não mais participava ativamente dos eventos do Marabaixo como
nos velhos tempos, mas sempre dava um jeito de ir em sua cadeira de rodas aos
mais importantes, para ouvir o rufar das caixas
e ver as saias da negras velhas rodarem sob o ritmo intenso oriundo de
além-mar.
Pavão levava muito a sério o que
fazia no Marabaixo. Até brigava por ele. Seu amor pelo folclore certamente foi
herdado do avô Julião Ramos, o grande líder negro, que na época da implantação
do Território Federal do Amapá disseminou o ritmo e a dança para todo o Brasil.
No domingo, véspera da sua morte, sua filha Ana perguntou-lhe se ia ao
Marabaixo do Dia das Mães na casa da Naíra – uma das festeiras deste ano no bairro
do Laguinho. Ele disse que não ia porque estava indisposto, mas mandou todo o
pessoal de sua casa para lá, pedindo que não deixassem a ”cultura morrer”. Mal
sabiam todos de sua casa que a cultura do Marabaixo, nele impregnada, estava
morrendo um pouquinho com ele.
Justo que consideramos a memória
como o deciframento do que somos à luz do que não somos mais, a morte é o
abismo que tudo leva e engole inclusive o segredo da identidade, aquilo que nos
pertence social e culturalmente. Posto isto, quantas conversas não foram
abruptamente cortadas numa gravação para um trabalho de conclusão de curso
dessas tantas faculdades da capital? Assim sendo, o que restou de seus
depoimentos, desse depósito memorial tão importante para que se analise o
Marabaixo? Ora, sabe lá quantos pesquisadores egoístas guardam suas fitas
encarunchadas e vídeos empoeirados que nunca vão se abrir para ninguém?
Mestre Pavão a todos respondia com a
maior paciência, paciência esta que aprendeu a ter com a doença intratável que
lhe fez perder uma perna. Mestre Pavão dava a todos o seu conhecimento vívido e
vivido intensamente em setenta e dois anos de repetição ritualística que a sua
memória avivava e exprimia no vai-e-vem dos olhos.
Aqui peço licença poética ao
escritor moçambicano Mia Couto que escreveu o “Último Voo do Flamingo”, para
parafraseá-lo, dizendo que o nosso pavão alçou seu último voo na tarde amena de
maio. Um voo curto, é certo, porque pavões não voam quase nada, mas são aves do
paraíso por excelência.
Sua luxuriante plumagem em profusão de dourados, verdes e azuis à luz
do sol reflete uma miríade de cores, onde o vermelho e o branco parecem estar
presentes como se preparando para um desfile da Universidade de Samba Boêmios
do Laguinho, a escola do coração do mestre. Convém lembrar aqui que o
simbolismo do pavão carrega as qualidades de incorruptibilidade, imortalidade,
beleza e glória, que por sua vez se baseia em outro aspecto além destes: a ave
é predadora natural da serpente, e em certas partes do mundo, mesmo seu aspecto
maravilhoso é creditado ao fato da ave transmutar espontaneamente os venenos
que absorve do réptil. Este simbolismo de triunfo sobre a morte e capacidade de
regeneração, liga ainda o animal ao elemento fogo.
Fogo, sim, do Marabaixo quente, do “Caldeirão
do Pavão” com seu caldo revitalizador do carnaval que tanto o mestre amava e
por isso se enfeitava nos áureos tempos dos desfiles da FAB. Vai em paz, Pavão,
tua plumagem tem cem olhos para vigiar o que deixaste entre nós.
*Publicado originalmente em A Gazeta (maio de 2009) e
depois no livro Adoradores do Sol, de minha autoria (Scortecci, São Paulo,
2010.)
segunda-feira, 21 de abril de 2014
O JUIZ E O JOGO POLÍTICO
Fernando Canto
Sociólogo
Pensando nas
eleições deste ano no Brasil, e especialmente no Amapá, resolvi falar um pouco
da cultura grega clássica, dos homens e mulheres que viveram entre os séculos V
e VI a.C. na cidade grega de Atenas, chamada por Platão de Sophia. Essa palavra
grega significa um tipo especial de sabedoria que une a teoria à prática, pois
eles eram pessoas que filosofavam e praticavam o que pensavam, de acordo com a jornalista Ana Beatriz Magno.
Os gregos
encenavam tragédias, discursavam sobre a educação e tinham escolas para onde
mandavam os meninos e praticavam a democracia com convicção. Magno informa que
a cada doze meses sorteavam um quinto dos 40 mil cidadãos de Atenas para ocupar
os principais cargos públicos. O sorteio acontecia na Ágora, um misto de praça,
mercado e assembleia. Os mandatos eram renovados anualmente e ninguém podia
permanecer no mesmo cargo. Segundo a autora, se você era juiz num momento, no
outro podia ser soldado. As decisões importantes eram tomadas em grandes
assembleias, realizadas mensalmente com a participação de todos os cidadãos.
Todos em termos, diz a autora, pois a mesma Grécia clássica e heroica excluía
mulheres e escravizava estrangeiros. Só os machos, adultos e livres podiam ser
considerados cidadãos. Mas, apesar dos preconceitos, não se pode apagar o valor
de um dos períodos mais férteis da humanidade. Eles
também inventaram todo um cotidiano de práticas e prazeres, tais como as
padarias, teatros, termas e os jogos olímpicos, estes sempre em homenagem a
Zeus, em Atenas. E nunca em tempos de guerra. Os atletas competiam nus e
qualquer pessoa podia assistir - menos as mulheres casadas. As desobedientes
pagavam com a vida, jogadas do alto de uma rocha. Conta-se que só uma mulher
rebelde, chamada Calipatira, foi perdoada, pois corajosamente invadiu a arena
para abraçar o filho vitorioso.
Por ser o
clima muito seco e quente no verão e frio e úmido no inverno, Aristóteles, que
foi discípulo de Platão e mestre de Alexandre, o Grande, sugere em um dos seus
mais eruditos textos, “Os Meteorológicos”, que a ascensão e a queda de grupos
políticos e militares da Grécia eram determinadas pelas mudanças do clima.
Mas embora
saibamos que o determinismo geográfico é uma teoria etnocêntrica, sentimos no ar
um clima variante e sempre cheio de factóides e verdades na Sophia amapaense. O
mercúrio fica dilatando e retraindo em todos os termômetros políticos; partidos
e candidatos dançam a valsa dessa oscilação; o povo anda ofegante, na
expectativa das decisões.
É que vão começar as olimpíadas da política
amapaense. Porém, quem apitará o primeiro jogo é o governador. Ele é o dono do
apito e do cronômetro. Tudo depende de sua decisão, mas ainda não levantou o
braço, apenas adverte os jogadores, dizendo que eles poderão ser penalizados se
transgredirem as regras. A tensão é muito grande. Até as torcidas, na Ágora,
reclamam, ainda que curiosamente não ofendam o árbitro. Os nossos atletas
também estão nus, por enquanto despidos de suas vaidades. São gregos, troianos
e bárbaros, ávidos para iniciar seus esforços. Mas não dá. O árbitro não apita,
apenas olha o cronômetro.
Mulheres,
velhos e adolescentes levantam-se em “ola” na torcida. Parecem mais aborrecidos
quando o locutor anuncia que haverá um “minuto de silêncio”. Então protestam. Ora,
todos são cidadãos, não mais como na democracia grega.
Finalmente parece
que vai começar. Mas um relâmpago anuncia a trovoada, que vem seguida de um
toró amazônico sem igual. O clima fica meio frio, a água alagou o campo. Todos
vão embora junto com a luz, pois o sistema elétrico do local ficou danificado.
No campo,
entre a iluminação dos relâmpagos e raios, ficam os jogadores e o juiz,
congelados, até o recomeço do jogo no dia seguinte. Mas só o juiz sabe que depois
do jogo não poderá mais permanecer no mesmo cargo. Será um soldado ou um
general nessa partida da cidadania.
sexta-feira, 4 de abril de 2014
BURACOS
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| Disponível no blog De Rocha: eltonvaletavares.blogspot.com |
Buraco do clécio,
buraco do roberto, buraco do joão, buraco do barcellos, buraco papaléo, buraco
do capi, buraco do azevedo, buraco dos indicados, buraco dos intendentes.
Buraco do historiador, buraco do poeta, buraco do (e)leitor. Buraco fodido do
povo.
Buraco de papel,
buraco dos otários, buraco do orçamento, buraco do buraco, buraco do aeroporto,
buraco de fraque e colarinho, buraco mercantil, buraco comunista, buraco balacobaco,
buraco babaca imagina na copa. Buraco do dia, buraco da noite, buraco belle de
jour. Buraco del culo de tu madre. Buraco do equador, buraco pélago do
Bailique, buraco da preamar, buraco do tamanho do amazonas.
Buraco invisível,
buraco olho de japonês lá no fundo do poção, buraco voyeur, buraco do coração
partido, buraco da minha esquina, buraco do mecânico ricaço-novo, buraco
enlameado, buraco lama gulosa, buraco condescendente, buraco homo, buraco hetero,
buraco falo, buraco sexualmente transmissível, buraco aidético. Nenhum buraco é
ético. Buraco de propósito, buraco amarelo, buraco vermelho, buraco verde,
buraco azul, buraco negro. Nenhum buraco
é branco.
Buraco de dez
metros, buraco do poço, buraco baixo, buraco largo, buraco sepultura, buraco
celular, buraco zap-zap, faceburaco baco, buraco kkkkk, buraco reflexo da lua, buraco
aniversariante com bolo e a primeira fatia vai pra quem? Buraco titã, buraco
voador, buraco que geme, buraco sindicalista, buraco grevista toda semana, buraco
alcóolatra, buraco liamba, buraco ayahuasca, buraco tralhoto, buraco sugador,
buraco candiru, buraco vulcão, buraco laguna, buraco igapó, buraco que ri da
gente todos os dias de manhã.
Buraco da droga,
buraco do noiado, buraco do palhaço, buraco da cachaça, buraco corrupto, buraco
carnaval do sambódromo de pista escorregadia, buraco cem mil marcos zeros, buraco
raio que o parta, buraco chove de baixo pra cima, buraco forró universitário,
buraco tecnobrega, buraco quebra-canela, buraco hip-hop do mc, buraco funk
rebola que eu quero ver, buraco pagode cada qual no seu quadrado buraco
televisivo, buraco programa matinal de rádio, buraco musical desafinado que só
ele. Buraco, buraco, buraco. Buraco do meio da tua bunda porque o meio do mundo
está um buraco. Buraco ponto final.
sexta-feira, 28 de março de 2014
LOS TIRANOS DE NUEVA ANDALUZIA
O texto abaixo (escrito ainda em
Macapá, em 1986) é um dos três poemas do meu livro “Fedeu, morreu”, publicado
pela Fadesp-Pa, com o apoio do Núcleo de Arte da UFPA, em 1992. O prefácio foi
escrito pelo poeta paraense Antonio Juraci Siqueira.
O motivo desta publicação é uma alusão ao coup d’État que
obscureceu o país durante 21 anos. O Amapá e muitos amapaenses também sofreram
na pele as consequências do regime nefasto. Ditadura nunca mais!
LOS TIRANOS DE NUEVA
ANDALUZIA
Para Leonardo de Vilhena e
Osvaldo Simões Filho
O PRIMEIRO
Quando o primeiro tirano chegou
O povo foi às ruas olhar sua cara de pedra
Sua galhardia atenuava o ódio popular
Pois era um exímio cavaleiro
Mesmo carregando quilos de medalhas coloridas
Tal como um robô, tirou de dentro da gandola
Um rolo imenso de papel
Pra num discurso interminável
Hipnotizar o povo que, letárgico
Concordou com as decisões de arbítrio
E a instituição do “Imposto sobre a Paisagem”
- Tributo cobrado estranhamente
Nos seus costumeiros aparecimentos públicos
Ordenou a seus imediatos
A elaboração de um Plano de Governo
Cuja meta prioritária era higienizar a plebe
Através de banhos sistemáticos
Do corpo e da alma
Que consistia no que falavam
“Educação para o Progresso”
Anos depois, “O Brilhoso”, como era chamado
Rouco de tanto discursar e dar ordens
Saiu a galope e olhou sobre a cidade
E, como que antevendo o futuro
Transfigurou- se em estátua equestre
Que por longos anos simbolizou sua tirania.
O SEGUNDO
Balançando as mãos de aço
Prometendo dar ao povo
Uma felicidade relativa
Desde que todos se curvassem ao seu passar
E beijassem vez- em- quando sua imagem
Que mandou pregar nas portas
E nas escuras galerias dos prédios públicos
No seu mandato as prisões se encheram de agonia
Pois controlava um imenso território
Onde insurretos contestavam suas mentiras
E por isso não voavam e nem corriam
O que tomava conta do tirano era a iracúndia
Ao observar a abundância de aves maviosas
A cantar e voar pelos ares
Saboreando o colorido das manhãs
Espumante como um cão raivoso
Decidiu incrementar a economia
Incentivando a criação de indústrias nobres
Para o fabrico de bodoques e gaiolas
Promoveu concursos de tiro a passarinhos
E premiou com ouro a quem lhe trouxe
A ave mais canora da região
Para ser sacrificada em holocausto
Num ritual orgíaco e macabro
Para centenas de convivas coagidos
Quando foi substituído pelo terceiro tirano
Os funcionários comentavam nas repartições
Que muitas cabeças haveriam de rolar nas avenidas
Vestidos como um dândi, narcisista
O novo tirano também era exigente e áspero
Instituiu que cada sala de qualquer prédio com teto
Seu retrato afixado fosse entre Cristo e o tirano Federal
Passou o tempo e a liberdade apodreceu de mão em
Mão
Induzida por veículos comunicadores de mentira.
Como ninguém ousou conjeturar sua legitimidade
O tirano fazia festas explodindo sua libido
Sob um pálio, em frente a espelhos embaçados
Um dia, exasperado com a chuva
Que estragou sua adoração pública
Mandou queimar todos os livros de meteorologia
E engaiolou todos os bibliotecários
Então surgiu a idéia de construir
Um enorme palanque de fibra amarela
Para abrigar da tempestade seus trajes majestosos
Em certa data comemorativa a chuva não parou
E rompeu- se a estrutura do palanque
- Uma obra de arte cara, calculada pelos
Melhores engenheiros
Após o estrondo e mil minutos de silêncio
Quando dissipava a branca bruma matinal
Surgiu no porto, em passo firme, o outro:
Viera conhecer o seu oitavo mar de lama
Assoviando uma canção húngara
Atrás vinha um cortejo estapafúrdio
Objetivando lavar suas galochas sujas de medo
Uma vez por mês esse tirano
Mandava incinerar os cães que ladravam na cidade
Determinou, inclusive, que todo homem, fora ele
Seria morto
Se não regasse um espinheiro às cinco da manhã
Assinou decretos- leis abolindo o uso de banheiros
E enfatizou no rádio
A obrigatoriedade da cópula diurna
Um mistério rondava os ares palacianos...
Até o bobo oficial da corte, “O Cínico”,
Indagava:
- O que meu chefe pensa sobre a agricultura?
Mal sabia o bobo que o tirano
Ao meio de suas vestes brancas suspirava
Penetrando em si longos espinhos
Certa vez a noite chegou pensa
E o marinheiro perdeu um olho numa queda
Cego pela dor estonteante
Arrebatou as jóias e o ouro dos impostos
E zarpou, como um pirata
para singrar outros mares enlameados
Quando chegou o quinto tirano
Este era um velho que coçava o corpo a toda hora
Nem bem aportou foi devastando tudo o que sobrara
Com a avidez de quem atravessou o deserto
Corrompendo lagartos transeuntes
E andorinhas que habitavam os fios elétricos
Adorava receber presentes eletrônicos
Mas vigiava os cidadãos com uma luneta
Contava das vantagens do progresso
E em nome da democracia que insinuava
Falava de ordem social como sua meta
Já que nos bares os civis dialogavam
Incentivou a imprensa e a construção civil
Porque uma faria a outra continuar
E a cada obra construída era seu nome
Que o jornalismo glorificava para a história
Nos bastidores transformava cargas
Em dinheiro
Visando desestabilizar o futuro
Mesmo descobertos os atos abscuros
Que por pouco não provaram, mas proveram
As promessas de voltar para ficar
Um tempo explodiu no horizonte
Era a claridade que todos esperavam
Assim mesmo o tirano só foi embora
Num avião carregado de fortuna
O povo recebeu seu governante
Sob uma festa inesquecível e longa
Que durou noites e mais noites de esperanças
Quando a banda parou de tocar
O novo tirano discursou, segurando o pescoço:
“Convoco-vos, irmãos, meus queridos irmãos
A não perder a espuma dessas nuvens
E a furar a dureza das pedras das estradas
Onde tanto andei quando mais novo
“Foi preciso sangue, foi preciso faca
Para motivar a luta e vencê-la
Pois é nula a placidez do rio
E inútil as entranhas do peixe fora d’água
“Vós, irmãos, homens desta bela terra
Sabeis da abundância do brutal
Que enlameou durante anos vosso povo
Mas sabeis também da existência do movimento
E da solidez dos ossos
“Ficai de pé e olhai pro céu
Porque ainda que venha a doçura do mel
E o perfume das flores
Nascidas no cemitério
Urge abrandar a fúria do dinheiro
Penetrante em vós
Como o sol pela peneira
E que pouco a pouco engole vossas naturezas
“Não vim disseminar o desprezo nem o medo
Eu vim para
incentivar o trabalho
Vim para pregar a religião e a Glória de Deus
Vim para que devagar, bem devagar
Somemos nossos esforços
Em prol de uma democracia justa e imensurável”
O tempo passou, o tempo passou, o tempo passou...
Lento, como as vigilengas pelo rio
Passaram as eleições, as promessas
As premissas, as confabulações...
Reuniram- se Governo e povo
Em classe, associações, partidos
Pela democracia exigiu- se rapidez e decisão
Para pôr em ordem as questões fundamentais
E implementar as trinta mil metas prioritárias
No pescoço do tirano não cabiam
Mais guizos nem pelhancas
E suas palavras
Antes emprenhadoras dos ouvidos
Foram perdendo força diariamente
Num claro exemplo de incerteza no horizonte
Foi então que o povo novamente se reuniu
Para cogitar e especular, mas sem ter força
O nome do próximo tirano
OS FUTUROS
Dizem que virá o sétimo, o oitavo
O nomo, o décimo...
O macaco, o porco, o rei dos animais...
Ou um novo Leviatã
Dizem que é provável a volta de um tirano
Embriagado de poder, para poder
O tesouro que deixou escondido
- Como tantos o fizeram -
Entre os granitos
De uma velha fortaleza
Macapá, Setembro de 1986.
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