Fernando Canto
Sociólogo
Pensando nas
eleições deste ano no Brasil, e especialmente no Amapá, resolvi falar um pouco
da cultura grega clássica, dos homens e mulheres que viveram entre os séculos V
e VI a.C. na cidade grega de Atenas, chamada por Platão de Sophia. Essa palavra
grega significa um tipo especial de sabedoria que une a teoria à prática, pois
eles eram pessoas que filosofavam e praticavam o que pensavam, de acordo com a jornalista Ana Beatriz Magno.
Os gregos
encenavam tragédias, discursavam sobre a educação e tinham escolas para onde
mandavam os meninos e praticavam a democracia com convicção. Magno informa que
a cada doze meses sorteavam um quinto dos 40 mil cidadãos de Atenas para ocupar
os principais cargos públicos. O sorteio acontecia na Ágora, um misto de praça,
mercado e assembleia. Os mandatos eram renovados anualmente e ninguém podia
permanecer no mesmo cargo. Segundo a autora, se você era juiz num momento, no
outro podia ser soldado. As decisões importantes eram tomadas em grandes
assembleias, realizadas mensalmente com a participação de todos os cidadãos.
Todos em termos, diz a autora, pois a mesma Grécia clássica e heroica excluía
mulheres e escravizava estrangeiros. Só os machos, adultos e livres podiam ser
considerados cidadãos. Mas, apesar dos preconceitos, não se pode apagar o valor
de um dos períodos mais férteis da humanidade. Eles
também inventaram todo um cotidiano de práticas e prazeres, tais como as
padarias, teatros, termas e os jogos olímpicos, estes sempre em homenagem a
Zeus, em Atenas. E nunca em tempos de guerra. Os atletas competiam nus e
qualquer pessoa podia assistir - menos as mulheres casadas. As desobedientes
pagavam com a vida, jogadas do alto de uma rocha. Conta-se que só uma mulher
rebelde, chamada Calipatira, foi perdoada, pois corajosamente invadiu a arena
para abraçar o filho vitorioso.
Por ser o
clima muito seco e quente no verão e frio e úmido no inverno, Aristóteles, que
foi discípulo de Platão e mestre de Alexandre, o Grande, sugere em um dos seus
mais eruditos textos, “Os Meteorológicos”, que a ascensão e a queda de grupos
políticos e militares da Grécia eram determinadas pelas mudanças do clima.
Mas embora
saibamos que o determinismo geográfico é uma teoria etnocêntrica, sentimos no ar
um clima variante e sempre cheio de factóides e verdades na Sophia amapaense. O
mercúrio fica dilatando e retraindo em todos os termômetros políticos; partidos
e candidatos dançam a valsa dessa oscilação; o povo anda ofegante, na
expectativa das decisões.
É que vão começar as olimpíadas da política
amapaense. Porém, quem apitará o primeiro jogo é o governador. Ele é o dono do
apito e do cronômetro. Tudo depende de sua decisão, mas ainda não levantou o
braço, apenas adverte os jogadores, dizendo que eles poderão ser penalizados se
transgredirem as regras. A tensão é muito grande. Até as torcidas, na Ágora,
reclamam, ainda que curiosamente não ofendam o árbitro. Os nossos atletas
também estão nus, por enquanto despidos de suas vaidades. São gregos, troianos
e bárbaros, ávidos para iniciar seus esforços. Mas não dá. O árbitro não apita,
apenas olha o cronômetro.
Mulheres,
velhos e adolescentes levantam-se em “ola” na torcida. Parecem mais aborrecidos
quando o locutor anuncia que haverá um “minuto de silêncio”. Então protestam. Ora,
todos são cidadãos, não mais como na democracia grega.
Finalmente parece
que vai começar. Mas um relâmpago anuncia a trovoada, que vem seguida de um
toró amazônico sem igual. O clima fica meio frio, a água alagou o campo. Todos
vão embora junto com a luz, pois o sistema elétrico do local ficou danificado.
No campo,
entre a iluminação dos relâmpagos e raios, ficam os jogadores e o juiz,
congelados, até o recomeço do jogo no dia seguinte. Mas só o juiz sabe que depois
do jogo não poderá mais permanecer no mesmo cargo. Será um soldado ou um
general nessa partida da cidadania.
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