




Bi Trindade e Jomasan
Amigos Carlos Lobato e Juliele assistindo ao Show.





Bi Trindade e Jomasan
Amigos Carlos Lobato e Juliele assistindo ao Show.
Premiação de Fernando Canto e Osmar Jr. no II Festival Amapaense da Canção de 1998 com a canção "Farras e Cimitarras". Ao fundo, o meu amigo Neck.Festival é um termo que tem diversas conotações, mas sempre traz o sentido de algo grande, que denota movimento, sons e cores. E é dele que quero me reportar para lembrar o seu plural, que também enseja vanguarda e apresentação de coisas novas.
Desde 1971 participo de festivais de música, principalmente porque àquela época era o único meio de se saber quem compunha, escrevia ou tocava alguma coisa fora dos círculos sociais, onde pouquíssimos artistas freqüentavam. Estes, de alguma forma tinham uma relação com o poder.
Nesse tempo, romper o bloqueio de músicos e intelectuais como Isnard Lima, Amilar Brenha, Nonato Leal, Alcy Araújo, Ezequias Assis, e outros, não era fácil. Praticamente eles faziam de tudo. Inclusive trabalhavam como promotores desses primeiros festivais e se redobravam como divulgadores, jurados e, até mesmo como compositores. Não dá para esquecer que nesse ano de 71 (quando inscrevi o samba "Laguinho, Laguinho, Laguinho", em parceria com Odilardo Lima, poeta do nosso bairro que se transformou em delegado e esqueceu a poesia), a música vencedora foi "Balada de Amor e Dor" de Isnard Lima e Venilton Leal. Canção magistralmente interpretada por José Maria Santos, que viria a tornar o famoso Jomasan, que depois se radicou na Guiana Francesa e fez sucesso como cantor, mas que agora está de volta à Macapá. Nesse ano acompanhei ao violão a música "Maria" de Hernani Vitor Guedes, violinista e líder do conjunto "Os Mocambos", que integrei mais tarde. O detalhe desse festival foi que se descobriu depois que a canção vencedora era de autoria do presidente da comissão julgadora e não de seu filho. Isso praticamente desestimulou a produção do seu Hernani como compositor, segundo Nivito Guedes, seu herdeiro musical e meu parceiro hoje.
Normalmente os festivais de música trazem a suspeita de fraude, de protecionismos e de vínculos de camaradagem, onde estão presentes os afagos culturais de uns e relações políticas de outros. Nem sempre a competência vence, mormente se o autor, o intérprete ou a banda não fazem parte do chamado "esquema".
Lembro que em 79, no festival da canção da Associação dos Universitários, quando apresentei "Pedra Negra" com o Grupo Pilão, e perdi no final, o jornalista Antonio Corrêa Neto publicou no falecido jornal Marco Zero um relato do quase eterno jurado Antonio Munhoz. Munhoz denunciou a manobra dos organizadores do festival para não deixarem a minha música vencer, posto que eu tinha sido expulso da AUAP e era considerado subversivo, além do que a canção falava mal de uma empresa local e não se sabia COMO ela havia passado pela censura dos federais. Mas este desabafo não pára aí.
Em 1971, nós do Laguinho, fomos desclassificados do Festival por causa da palavra "cachaça", que segundo os jurados, feria a moralidade da época. No ano seguinte concorri com "Devaneio" que ficou em segundo lugar e perdeu para uma tal "Morte do Rei Sapo", de Azarias Neto. Depois se constatou que a tal "Morte" era plágio de uma história de um livro infantil. Essa música sumiu e "Devaneio" veio a se tornar o primeiro sucesso fonográfico do Amapá, gravado pelo grupo "Os Mocambos" na voz de José Maria Santos, o atual Jomasan.
Essas são apenas pequenas histórias dos ditos festivais, que para uns ficam na memória como uma coisa competitiva e boa, e para outros, algo nojento e ruim. Para mim apesar dos percalços consegui vencer quatro festivais em Macapá e ser premiado em Minas e São Paulo, tentando mostrar na raça e no talento um pouco da nossa vida amazônica e dizer sobre o que poderíamos fazer para tentar mudá-la. E festival que se preza não busca apenas revelar talentos, mas valorizar o que se tem de melhor. Também.
Foto cedida pelo meu amigo Ronaldo Bandeira, acervo de família.
Desfile de 07/09/1972 - foto publicada na Revista Latitude Zero, nº 8
Setembro sempre foi pródigo em festas. Tempo de equinócio, de sol e de vento. Tempo das paradas escolares e dos desfiles militares que ainda hoje povoam a memória do povo amapaense.
O músico e produtor Finéias está muito contente com os resultados do II Feminsap – Festival de Música Instrumental do Amapá, feito em agosto. Durante o evento ocorreu um work shop de bateria, contrabaixo e piano, respectivamente com os músicos Cuca Teixeira, Tiago Espírito Santo e Vitor Gonçalves, fato que concorreu para o aprimoramento dos instrumentistas tucujus.
Renivaldo Costa, Prof. Mnhoz, Fernando Canto e Paulo Tarso no Encontro dos Artistas Plásticos de 08/05/2009.Republico este texto em homenagem ao meu amigo Paulo Tarso que aniversariou no dia 29/08. Desejo muitas felicidades e sucesso a esta grande expressão literária do Amapá.
Há exatamente 22 anos tive o privilégio de apresentar o livro "Poemas de Aço" do então jovem e talentoso poeta Paulo Tarso. Eu dizia que "apresentar um poeta, um livro de poesia ao público, é um trabalho de responsabilidade, sobretudo em Macapá, onde os movimentos literários não são tão intensos, mas a crítica é feroz e ávida por novos escritos. A isto se justifica a constante luta dos autores que batalham para ver os seus trabalhos publicados, em que pesem as distorções e a pressa de alguns mais afoitos, que trazem no que escrevem uma carga muito grande de falta de qualidade, de experiência de vida e de vivência literária.
Como autor, garanto que não é tão fácil propor um trabalho que venha a ter imediata aceitação ou que os caminhos percorridos desde a concepção dos versos ou da prosa foram perfumados, e que não tiveram obstáculos de alguma origem.
Não obstante o passado recente, quando a censura cerceava criações artísticas de alto nível, os artistas não se intimidaram e foram á luta, desatrelando-se daquilo que podia tê-los como um compromisso histórico, com homens e regime espúrio. Daí é que com a mudança do sistema político, muita coisa também mudou. Horizontes se descortinaram e, apesar das dificuldades do estado gerir não mais por si só a questão cultural, entramos numa nova época onde já se percebe um maior entrosamento dos setores governamentais com a classe artística e com os movimentos populares. Á luz da idéia de que a arte vem do povo clareou e assim o leme do barco tomou um rumo diferente, mesmo que saibamos que ainda navegamos em meandros.
Vinda do povo, da sua atávica sabedoria e das suas entranhas, a poesia não só nasce da linguagem como vive do aprimoramento desta e que por si só representa, também, o pensamento de muitos mesmo que hermética para alguns.
Mas apresentar Paulo tarso Barros para mim não só é responsabilidade, é motivo de orgulho, pois a sua humildade e talento coalescem, fundem-se como o aço derretido que endureceu seus poemas há tempos, desde a adolescência na terra de Gonçalves Dias e Ferreira Gullar, de onde veio para enriquecer mais, como outros, a literatura aqui produzida.
Natural de Vitória do Mearim, onde nasceu a 29 de agosto de 1961, lá estudou e participou da sua vida política e cultural, escrevendo peças teatrais, letras de músicas, literatura de cordel e contos. Publicou seus primeiros trabalhos em jornais de São Luís e de sua cidade. Em 1981 mudou-se para Macapá e aqui trabalhou no comércio, tendo estudado no Colégio Amapaense. Colaborou com poesias, contos e crônicas em jornais locais e em março de 1986, publicou sua primeira coletânea de poemas intitulada No Dentro de Mim, que recebeu ótima aceitação dos leitores e da crítica de seu estado e de Macapá.
Sobre "Poemas de Aço" talvez não seja necessário dizer que é um livro forte, poema que "vem da oficina metálica", no dizer do autor. É um trabalho filosófico e maduro. Nele, Paulo Tarso não sintetiza, expande o mais virtual gesto operário para uma situação universal, tangendo a sofreguidão e a angústia de quem faz algo útil, de quem trabalha num afinado canto proletário, cavando a profundeza dos dias. Por ser social, logo abrangente, a poesia deste nordestino que às vezes reclama de solidão se descreve atônita ao sentir um novo mundo ou "apenas um rosto". Dono de uma sensibilidade admirável o poeta diz que "Em todos os amanheceres menores somos". E, por ter a certeza que de que "não entregará sua vida para um abismo qualquer, poderá deslanchar futuramente como um escritor de grande valor, pois não procura desesperadamente caminhos, mas ensina por veredas diversas que há um destino a ser encontrado".
A festa dos 63 anos do São José na quarta-feira passada foi mais um congraçamento entre cartolas, atletas e torcedores, categoria esta em que me situo com muito orgulho.Laguinense que sou muitas vezes acompanhei o Sanjusa assistindo seus jogos no Glicerão e os treinos no campo da sede dos Escoteiros do Laguinho, sob o comando do Chefe Humberto Dias. Eu me dividia entre o violão e a bola, pois cheguei a jogar no Flamenguinho, time de adolescentes incentivado pelo saudoso "Seu Lima", um empresário maranhense apaixonado por futebol e morador do nosso bairro. Desse time saíram muitos craques que seguiram seus sonhos em outras agremiações.
O aniversário do clube contou com a presença maciça da imprensa e de torcedores que hoje integram a ala de quem não perde um jogo sequer; uma galera jovem que tem o compromisso de levar aonde o time for a garra e a vontade de vencer e mostrar aos adversários a cultura do Laguinho. O clube inovou ao levar o Marabaixo para os estádios e mostrar a pujança cultural do bairro. A garotada comparece e prestigia o Mais Querido. Uns "se mandam" do Jardim Felicidade e do Novo Horizonte de bicicleta, atravessando a cidade.
Mas no meu tempo a maioria dos torcedores era constituída de adultos. E ninguém ia ao estádio por não ter o que fazer aos domingos, apesar da televisão estar chegando a Macapá. O "campo" ficava cheio, principalmente quando vinha jogar um clube de fora. Muito time metido a bom pegava "peia" quando encontrava pela frente craques como Orlando Cardoso (Currú), Alceu, Moacyr Banhos, Odilon, Zé Roberto (no gol), Macaco Pennafort, Timbó entre outros, que se agigantavam nas partidas e recebiam os aplausos carinhosos dos torcedores.
Em um desses jogos, por não ter dinheiro para o ingresso, acabei fazendo o que não devia: tentei "furar" por cima do muro com o auxílio de outros penetras sem dinheiro, que faziam uma espécie de escada humana pelo lado de fora do muro. Na minha vez olhei para um lado e para outro e vi que a "barra" estava "limpa", como se dizia na época. Fiz mais um rápido esforço e pulei. De repente eu vi surgirem do nada dois guardas territoriais (Acho eu!) que me pegaram e me levaram para a antiga "Permanência de Polícia", no Trem, onde fiquei "detido". Essa palavra em nada suavizava a minha apreensão de estar lá dentro e sem saber o resultado do jogo contra o Remo. Só lá pela meia-noite, quando trocou o plantão do delegado, foi que me mandaram para casa. Fui embora à pé, pela ladeira da Eliezer Levy, muito invocado e jogando fósforo aceso nos cães do Trem, que rosnavam ferozes, tentando me atacar.
Próximo ao cemitério encontrei o velho poeta Galego, seu primo Julinho e o pintor Olivar Cunha. Vinham com um violão secando uma "meiota" de Cantagalo. Tinham mais umas duas garrafas na sacola e uma porção de cajus. Pedi um holywood e segui com eles até ao trapiche municipal, onde não fomos incomodados por cantar nossos protestos contra a ditadura e nem pelo Julinho soltar a voz interpretando os Beatles para os peixes e as ondas do rio. Até hoje eu nunca soube o resultado do jogo. Mas continuei torcendo pelo Sanjusa.
O aniversário do São José proporcionou um tipo de encontro meio nostálgico, desses em que surgem saborosas histórias, fatos inesquecíveis e lembranças que contam a história de sucesso do clube.
Antigos jogadores são personagens vivas que desfilam com suas glórias e encantam a todos com um gosto telúrico e um orgulho inebriante. São os verdadeiros heróis do passado que sem dúvida sabem que são reconhecidos e valorizados pelos que agora surgem.
Embora haja essa valorização, é necessário levar em conta que precisamos estar mais perto do Clube, torcer mais, vestir a camisa e não trocá-la por times de outros estados em detrimento do nosso futebol. Vicente Cruz, presidente e ex-jogador do Clube tem razão: parece que somos colonizados pela mídia. Então precisamos mostrar nossa cara e nosso amor pelo clube para fazer ressurgir o nosso verdadeiro futebol. Vamos lá, torcedor! Vista a camisa do Sanjusa!
Publicado no jornal "A Gazeta", de domingo, 30/08/2009
CABOCLOS E CABOCAS 3
Mas caboclo mesmo é mestiço de branco com índia; homem do sertão, de hábitos rudes e pele queimada pelo sol. É aquele que vem do mato e que tem a floresta como seu habitat. É aquele que a gente chama mesmo de "caboco".
E a caboca Patrícia conhece como poucos a selva dos cantares. Sucesso!
PRÊMIO FINEP
ZUNIDOR
De 03 a 05 de setembro ocorre o famoso Festival de Música de Itacoatiara, no Amazonas. É a edição de nº 25, revelando talentos musicais da Amazônia./ Será transmitido pela Amazon Sat./ A colombiana Medellin, que usa o slogan "una ciudad en la que el mundo cree", vai realizar em outubro de 2010 a VII BIAU – Bienal Iberoamericana de Arquitectura y Urbanismo. O evento vem sendo preparado e divulgado com mais de um ano de antecedência. Quem quiser se habilitar deve acessar o site www.culturayturismomedellin.com./ Beto Oscar, Helder Brandão, Lula Jerônimo e Sergio Sales preparam show musical "Canto Caboclo" para meados de outubro no Bacabeiras./ O Instituto de Música Oscar Santos, que abrigou os músicos do Pará que aqui estiveram para participar do II Festival de Música Instrumental do Amapá, deverá recomeçar suas atividades ainda este ano./ Falta apenas alguns acertos legais para decolar. O trabalho será organizado pela diretoria do Instituto composta pelos netos do MO./ Como havíamos adiantado há três semanas o cantor/compositor Nivito se apresenta dia 03 no Projeto ¼ de Música do Margarida Schiwazzappa, em Belém. Sucesso, parceiro./ Finéas, da banda Amazon Music, simplesmente feliz com os resultados do Fesminap, após um monte de sufoco de última hora que quase inviabiliza o sonho./ Músicos do Pará como Nego Nelson e Daniel de La Touche esbanjaram talento e ainda deram uma palinha no Norte das Águas, juntos com músicos daqui./ Falaram que no Pará não tem esse tipo de festival. / Na onda estavam lá o Olympio Guarani, Fernando Bedran, João Henrique, Bruno e André Mont'Alverne e Júlia Canto, que já voltou para os States, onde estuda Design de Interiores em Denver, Colorado. / É hoje, a segunda eliminatória do Festival SESI Música 2009, no Malocão daquele órgão, que terá a participação do cantor Zé Miguel (Meu Endereço)./ Bela festa de aniversário do meu time São Jusa. Parabéns ao Heraldo Almeida pelos seus quaraquaquá no próximo dia 03./ Hoje também acontece o Seminário "O SESC na dinâmica cultural do País", às 18h00 no auditório do SEBRAE./ Vem aí o livro "Adoradores do Sol". / Inderê! Volto zunindo na Sexta.
Foto: Fernando CantoSe você nunca viu flores cativas num jardim, eu já vi. É um jardim triste onde as plantas vivem dentro de uma grade de ferro pintada de branco. O branco, segundo o Feng Shui, usado em demasia, deixa a sensação de infinito, frieza, vazio e hostilidade. E assim eu vi aquelas grades oprimindo flores vermelhas, hostis para com elas, frias para mim, que caminhava assobiando sob o sol de Macapá num dia qualquer da semana. Um paradoxo, pensei, aquela história absurda em pleno bairro do Laguinho, onde experimentei tantas angústias e poetizei o voo dos periquitos que enfeitavam as tardes de minha infância, esverdeando o caminho traçado nos céus. Um paradoxo duro de roer, pois como alguém poderia prender flores, torturá-las em um jardim e mesmo assim regá-las para que vivessem. Isso mesmo. Passei outro dia lá e as flores medravam e viçavam dentro da prisão, mas não podiam passar da grade de ferro branca.
Não sei qual crime cometeram nem por quem foram condenadas a essa cruel pena. Talvez fosse por um motivo muito particular, desses que a gente procura entender, mas não entende. Coisas da natureza humana que só compreendemos quando vivemos um fato semelhante e o avaliamos no nosso limite de compreensão.
Julguei que aquele ato poderia ser uma forma de chamar a atenção de quem passasse, assim como eu, porque homem que sou, julgo. Tenho ideias sobre as coisas e faço juízo de valor criticando o que avisto para me posicionar ideologicamente no tempo. E no espaço a que pertenço sou julgado também, como as coisas, cotidianamente. Depois achei que prenderam as flores para protegê-las da fúria ensandecida de pessoas que destroem o que veem, dos iconoclastas e vândalos que não podem ver nada bonito sem destruir ou mutilar. Ora, tantas vezes vi madames descendo de seus carros para arrancar e levar das praças pés de plantas ornamentais e flores carinhosamente plantadas pelos jardineiros municipais.
As flores são admiradas vivas e mortas. Sua efemeridade exorta a condição da duração da vida e dos prazeres; representa a instabilidade essencial da criatura em perpétua evolução, por ser também, símbolo do caráter fugidio da beleza. O simbolismo floral é vasto. São João da Cruz faz da flor a imagem das virtudes da alma, e do ramalhete que as reúne a imagem da perfeição espiritual. A flor também é o símbolo do amor e da harmonia que caracterizam a natureza primordial e identifica-se ao simbolismo da infância. Na arte japonesa, a ikebana (arranjo de flores) comporta um simbolismo muito específico. A flor é considerada como um modelo de desenvolvimento da manifestação, da arte espontânea, sem artifícios e, no entanto, perfeita; como também o emblema do ciclo vegetal – resumo de seu caráter efêmero. O arranjo das flores efetua-se conforme um esquema ternário: o galho superior é o do Céu, o galho médio, o do Homem, e o galho inferior, o da Terra. São infinitos os usos alegóricos das flores. Eles estão nos atributos da primavera, da virtude, da aurora, da retórica e da juventude. Seus perfumes e suas cores mais diversos contam, em toda parte, histórias e mitos relacionados à figura-arquétipo da alma.
Não obstante todos esses significados, as flores continuam na grade daquele jardim. Serão elas cativas como na primeira impressão? Ou estarão protegidas para que suas vidas efêmeras sejam prolongadas? Elas estão presas, sim. E eu creio que nada representam se não podem ser vistas na plenitude de sua beleza. Ao opressor das flores cabe apenas a função de ser um eterno carcereiro que se condenou a si mesmo por esconder aos olhos do mundo a poesia.

Publicado no Jornal "A Gazeta", de 23.08.2009
Um jovem amigo apresentou-me à sua namorada como se eu fosse o expoente de alguma coisa. Antes, porém, que a conversa continuasse fiz um trocadilho que soou a mim mesmo como uma reflexão para a vida. Disse-lhe então que agora eu era um "ex-poente", que buscava a alvorada, o nascente, a direção do sol que muitas vezes ignorei, não lhe dando o verdadeiro valor.
Todos nós, quando paramos para pensar melhor, cremos ser verdade que determinado evento pessoal tem o significado do encerramento de um ciclo. E um ciclo não é apenas um período onde ocorrem fatos importantes ou uma série de fenômenos que se sucedem em ordem, como as estações. Um ciclo também é um círculo, ressalvadas as diferentes origens das palavras. Como tal ele tem um simbolismo amplo, algo maior do que aquilo que pensamos ao começarmos a tomar novas atitudes.
O círculo, segundo Champeaux e Sterckx, é um ponto estendido; participa da perfeição do ponto. Os dois possuem propriedades simbólicas comuns: perfeição, homogeneidade, ausência de distinção ou de divisão. O círculo é considerado em sua totalidade indivisa. O movimento circular é perfeito, imutável, sem começo nem fim, e nem variações, o que o habilita a simbolizar o tempo.
Mas há muitas formas de interpretar o círculo: o próprio céu torna-se símbolo, o símbolo do mundo espiritual, invisível e transcendente. Simboliza o céu cósmico nas suas relações com a terra. Para os autores acima citados "o círculo pode simbolizar a divindade considerada não apenas em sua imutabilidade, mas também em sua bondade difundida como origem, substância e consumação de todas as coisas; a tradição cristã dirá: como alfa e ômega".
Desde a Antiguidade ele tem servido para mostrar a totalidade, a perfeição, englobando o tempo para melhor poder medi-lo. Na Babilônia ele foi dividido em 360º e decomposto em seis segmentos de 60º. Seu nome – shar – designava o universo, o cosmo. Mais tarde dele foi retirada a noção do tempo infinito, cíclico, universal, que foi transmitida através da serpente que morde a própria cauda.
A essa conotação, a serpente Uróboro simboliza um ciclo de evolução encerrada nela mesma. Traz concomitantemente idéias de movimento, de continuidade, de autofecundação e, de eterno retorno.
Mas a serpente não é o círculo, aquele que transcende. Ela, ao morder a própria cauda está condenada a girar sobre si mesma, como a roda. Jamais poderá escapar do seu ciclo para se elevar a um nível superior.
Agora, na ânsia de mudar, de começar um novo ciclo, de ir em busca do sol que nasce, me deparo com paradoxos porque as coisas estão escondidas nos raios celestes e no círculo do céu. E coisas não permanecem as mesmas. Como nós elas não são duradouras e estão sempre se tornando outras coisas, outras entidades. Bem disse Heráclito: não podemos entrar duas vezes no mesmo rio.
E como é grande a correnteza dessas águas! Ela guia e move meu caminho ao mar. Mas apesar de tudo esta viagem reflexiva me obriga a perambular pelo albedo da terra em direção ao oriente. Recuso-me ao crepúsculo: sinto-me mudança, conflito e renovação. A cada sete anos revigoro-me na oblação pelo fogo e regenero-me em chips astrais. Sou carbono, gases, água e sonho que não evanesce.
Sim, recuso-me ao crepúsculo, recuso-me ao poente. Rebelo-me contra meus genes e insurjo-me à natureza, pois busco o círculo onde está centrada a árvore da vida.
E cá estou: no mais profundo mar. Sem culpas, sem vícios. Mudando como o sol na manhã de um equinócio da primavera.
O FUNDO, ENFIM
O Fundo Municipal de Cultura de autoria do vereador Marcelo Dias, foi sancionado agora em agosto pelo prefeito Roberto Góes. É uma lei há muito tempo esperada pelos produtores e dirigentes culturais do município, por se tratar de um instrumento político e técnico de incentivo à produção nessa área.
O valor aprovado para o Fundo é de 1% do Orçamento da PMM, o que significa aproximadamente três milhões de reais, além do orçamento da Coordenadoria.
Para a sua regulamentação será realizada uma conferência no início de setembro, onde os produtores culturais e o governo municipal apontarão os caminhos para a utilização dos recursos.
REPRESENTAÇÃO NO MINC
O Amapá está representando a região Norte no Edital de Curtas do Ministério da Cultura. O nosso representante é o diretor, roteirista e produtor Tomé Azevedo, que está julgando 274 projetos dos cerca de 800 selecionados para 2009.
É a primeira vez que Norte foi chamado para essa tarefa, resultado, aliás, de uma reivindicação da Associação Brasileira de Documentaristas – ABD, que por sua vez foi pressionada pela Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas do Amapá.
O resultado do edital sai em outubro, mas antes terá uma reunião presencial em Brasília que fará a seleção final de 40 projetos de todo o Brasil.
CD INSTRUMENTAL
Já foi gravada a matriz de todas as músicas que integrarão o CD de música instrumental de membros associados da AMCAP.
15 músicas dos mais diversos estilos estarão presentes nesse trabalho inédito e representativo do talento dos instrumentistas. Entre eles estão o trompetistas Siney, o bandolinista Lolito, o saxofonista Spíndola, o violonista Zé Maria Cruz e os guitarristas Fabinho, Israel e Clevérson Baía.
Agora é esperar para ver, pois não há muitos apreciadores da boa música instrumental por aqui. Mas o talento desses músicos precisa ser revelado e reconhecido pelo público.
MACUNAÍMA
O cantor Macunaíma, da Universidade de Samba Boêmios do Laguinho vai gravar o belíssimo samba enredo "Índio Que Te Quero Lindo" de autoria de Vicente Cruz, Ademir do Cavaco e Quinho do Salgueiro. A entrada do Quinho no samba foi um pedido especial do nosso principal puxador que é fã incondicional do seu colega do Salgueiro.
Quinho deverá vir à Macapá para acompanhar os Boêmios no desfile da Ivaldo Veras e logo em seguida voltar para o Rio para defender a sua escola.
AMAZÔNICAS
Será no próximo dia 03 de setembro o esperado show musical do projeto Pixinguinha que culminará com o lançamento dos CDs "Eu sou Caboca" de Patrícia Bastos e "Amazônica Elegância" de Enrico di Miceli e Joãozinho Gomes.
A expectativa não está apenas no teor das músicas inéditas dos discos, mas também no espetáculo em si que trará convidados especiais para enriquecê-lo. Virão o cantor e compositor paulista Celso Viáfora, já bastante conhecido por estas paragens, a cantora Leci Brandão, o cantor e diretor musical Nilson Chaves, Dante Ozzetti e o Grupo Voz.
Depois eles se apresentam na pousada Maramalde, no município de Ferreira Gomes, no dia 05.
ZUNIDOR
Dia 17 de setembro acontece o show "Sou Ana" da excelente cantora Ana Martel, no Teatro das Bacabeiras. Começa às 21h00./ Está em Santana para dar uma oficina de projetos sobre cultura popular a técnica do MinC Adriana Cabral. Será no dia 25 e estará aberto a todos que quiserem se candidatar a realizar projetos na área. O valor ofertado pelo MinC para todo o Brasil é de 1.900 mil reais./ Piratas Estilizados já começam os preparativos para o festival de samba enredo da escola que traz como tema: "No cantar afro-tucuju os Ramos de Alceu e Joaquina ecoam pela amazônica Pedreira e embalam os Estilizados no meio do mundo"./ Professora Eliana Paixão, assessora especial da reitoria da UNIFAP, apresentou trabalho em Foz do Iguaçu em Conferência Internacional de Desenvolvimento Urbano e Cidades de Fronteira. O trabalho foi sobre a cidade de Oiapoque e as interações urbanas que lá ocorrem, principalmente os impactos sociais, políticos e econômicos e a política repressiva aos clandestinos./ Vem aí o livro "Adoradores do Sol"./ Será no dia 28 a 2ª eliminatória do Festival da canção do SESI, com Zé Miguel se apresentando./ O Seminário "O SESC na dinâmica Cultural do País será realizado dia 28 no auditório do SEBRAE./ Acesse o blog Canto da Amazônia: http://www.fernando-canto.blogspot.com./ Inderê! Volto zunindo na sexta.

Texto publicado em 1998, 99 ou 2000 no "Liberal Amapá". Depois de todo esse tempo espero mais uns poemas da Alcinéa Cavalcante, que tem hoje mais brilho na sua "Estrela Azul"
Tive duas agradáveis surpresas literárias na semana que passou. As duas proporcionadas pelo pessoal do SESC – Araxá, que vem continuadamente avançando nos seus projetos culturais, fazendo e promovendo as nossas coisas e dando a elas o valor que merecem.
Ao dar o nome de Hélio Pennafort a sua biblioteca a instituição realizou um ato de carinho às nossas letras e uma justa homenagem ao escritor e jornalista que muito contribuiu para que o Amapá tivesse as suas mais legítimas manifestações culturais conhecidas. Foi através do Hélio que a maioria dos que fazem a formação da opinião local hoje, se baseou para sistematizar a questão da identidade do homem amapaense.
Fora ou dentro das academias seu trabalho ganhou a dimensão esperada e a valorização merecida, posto que só ele conseguia expressar com elegância nos seus textos as formas rudes (para nós) do falar cotidiano da vida do interior.
Muitas vezes publiquei sobre a obra do Hélio por considerá-lo um narrador excepcional das coisas da nossa gente. "Triste como um tamaquaré no choco", "foi cocô de visagem" eram expressões do homem interiorano que ele usava no dia-a-dia. Para qualquer objeto ou situação complicada chamava "catrapiçal". Vivia contando anedotas de caboclo se divertindo a valer com elas. Era extremamente sincero com seus amigos e não guardava o que tinha de dizer. Apesar de ter exercido inúmeros cargos importantes no Governo, tinha lá suas fraquezas e de vez em quando fugia do expediente para ir ao Abreu ingerir uma gelada, mas era também grave e sério nas suas responsabilidades.
Ainda adolescente andei em sua companhia, juntamente com o Odilardo Lima, repórter e poeta que virou delegado de polícia, e o Manoel João, um telegrafista e caçador de primeira linha, bom contador de histórias. Minha função no grupo era tocador de violão e guardião da memória deles, afinal iriam precisar de detalhes que fatalmente esqueceriam, quando da redação das reportagens que faziam para a rádio Educadora e o jornal A Voz Católica.
Hélio proporcionava muitas histórias engraçadas, como certa vez em Mazagão, no início dos anos 70. Fomos de barco até a sede do município, e de carro até Mazagão Velho registrar a festa da Piedade. Ele ia dirigindo (Pasmem!) um jipe, e nós vínhamos tensos, no maior medo, porque até então ninguém jamais o vira dirigir, a não ser uma bicicleta. Com alguns atropelos e barbeiragens chegamos ao destino. Anoitecia e ele foi à casa do seu Osmundo, que liderava o conjunto "Mucajá". Era um grupo rústico, de pau e corda e clarinete que tocava samba, baião, polca e outros ritmos, E que em seguida começou a tocar para nós. Lá pelas tantas, devido sua generosidade etílica, acabou o suprimento de uísque e cachaça. Em toda a vila também não tinha nada de álcool. Ele chamou uma rapaziada e disse: - Vão ver se encontram cachaça que eu dou uma grana pra vocês. Eles voltaram com uma "meiota" de "canta-galo". O Hélio deu uma golada e cuspiu: - Querendo me enganar, é seus porras? Cachaça com água eu não bebo, inda mais se é de mulher que acabou de parir. Fiquei sabendo depois que as mulheres do lugar usavam aguardente na assepsia do pós-parto e que os moleques haviam roubado a garrafa de uma senhora que parira uns dias antes. Esse episódio só fez solidificar a minha admiração pela figura simples e humana do jornalista.
Fecundo no seu trabalho, Hélio sempre procurou dar a ele novas formas em linguagens diferentes. Em 1984/85 associou-se ao talento do piloto e vídeo-maker Roberval Lavor e produziu inúmeros vídeos sobre aspectos turísticos do então Território do Amapá. Embora não se adaptasse ao computador, o apregoava como instrumento do futuro, pois era atualizado nas informações tecnológicas.
A segunda surpresa foi o relançamento do livro "Lamento Ximango em forma de cantiga" de Osvaldo Simões Filho, do qual fui prefaciador, e o lançamento de "Estrela Azul" de Alcinéa Cavalcante, muito aguardado e cobrado por todos aqueles que com ela labutam na arte de escrever poesia.
Neste seu novo trabalho Alcinéa expressa a sua maioridade indisfarçada, porém demonstrado uma espécie de descrença em tudo, amarga e niilista. Seus poemas, a maioria feitos em versos curtos, querem talvez denotar o resultado de uma experiência pessoal frustrante. Como o fez Rimbaud, a poeta escolheu temas malditos, amargos, destilados com imensa autocomiseração que é própria dos mais sensíveis artistas, mas que não se adaptaram a este mundo avassalador e cruel. "Solidão", "Desamor", "Faxina", "Mágoa", "Tédio", "Entardecer", "Ausência", "Saudade", "Cansaço" expressam pelos títulos uma condição de quase desespero, de necessidade de ter a dor como a fonte desse rio de mágoa.
Longe de querer o ideal poético, considero o livro de Alcinéa um exemplo de maturidade. O gérmen de ontem que frutificará amanhã, mesmo que o encanto seja a condição da felicidade – ou da tolerância - ("Recompensa", página 35). Sua sensibilidade dá ao leitor a possibilidade de refletir sobre as dores do mundo e as frustrações pessoais, porque as palavras-chaves de sua poesia são muito recorrentes, como anjo/ ternura/ inauguração, e por serem assim, cada início e o meio traduzem o inopinado golpe do "Fim", quando "A estrela Azul, Anjo/ se apagou."
Seria a estrela azul um símbolo de desesperança? Provavelmente não, porque a poesia de Alcinéa Cavalcante traz um conjunto de emoções e uma doce promessa "que no próximo entardecer/ vou pintar um arco-íris/ para deixar tua tardezinha/ menos triste" ("Entardecer", página 29).

Este foi o primeiro texto que escrevi para "A Gazeta", em dezembro de 2008.
Republico para homenagear Jorge Herberth, companheiro de muitas jornadas.
A metade dos anos 80 trazia a grande expectativa de mudanças no caminho político do Brasil. Após a anistia de 1979 restava ainda o término do Governo Figueiredo e a transição democrática que se estabeleceria com a eleição de Tancredo e a posse de Sarney.
No Amapá tudo isso era motivo de conversa e os jornais emitiam opiniões bem diversificadas sobre o destino de nossa terra, causando certo frisson entre os leitores. E com a possibilidade de transformação em estado o antigo Território Federal cedeu espaço a centenas de aproveitadores políticos que para cá vieram em busca de uma vaga no parlamento. Foi nesse contexto que ressurgiu o Amapá Estado, fundado por Haroldo Franco, Silas e Ezequias Assis. Esse jornal havia sido editado pela primeira vez durante o governo de Henning, que segundo eles, quando leu o primeiro número o amassou e jogou fora dizendo que a pretensão dos jornalistas não passava de um engano,de uma utopia. Foi, também, nesse contexto que posteriormente foi lançado o jornal Fronteira, onde trabalhei com uma coluna informativa, ao lado de grandes expressões do jornalismo local como Alcy Araújo, Luís Melo, Jorge Herberth e Wilson Sena, por sinal o primeiro presidente da Associação dos Jornalistas do Amapá. Antes disso o Silas fechou o Amapá Estado e foi se estabelecer em Belém com um jornal maior.
Mas os grandes assuntos da pauta semanal do Fronteira eram discutidos na casa do Ezequias. Todos os sábados ele nos recebia com aquele jeito brincalhão, mostrando um exemplar que o Ricardo, seu filho, pegava no aeroporto (naquela época era impresso em Belém.) e não economizava o orgulho de ver editado mais um número. E o que era para ser apenas informação virava celebração, pois nunca faltava uma boa dose do melhor uísque, uma carne de caça que o Baleia fornecia para o dono da casa desde que ele fora chefe de Gabinete da Secretaria de Obras e a viola do Nonato Leal, às vezes em duo com a do Sebastião Mont'Alverne. Ao lado disso, apreciadores da boa música, como o Alcy, se deleitavam ouvindo o Humberto Moreira interpretar Taiguara. Artistas e intelectuais chegavam como se estivessem ligados a uma rede invisível e automática, num tempo em que não havia celulares. Aimorezinho era um espetáculo tocando bossa nova com a sua escaleta e o inesquecível bandolim do Amilar parecia pousar em uma partitura mágica vinda das Brenhas de Mazagão. Ritmos se fundiam numa democracia musical crescente que só acabaria quase no início da noite com o sorriso sempre aberto da ilustre e querida amiga Nazaré Trindade. Antes, porém, Ezequias, Nonato e Sebastião faziam um coral com a música "Saci Pererê" de autoria dos três. Depois cantavam "Tauaparanaçu", de Nonato, e arrematavam com "Rio Amazonas", de autor desconhecido. A audiência não poupava elogios ao trio e se despedia de mais uma seresta tropical que a todos encantava.
Tanto Ezequias como Nazaré já se despediram deste mundo. Mas o dom da generosidade que neles havia fica na memória e na eterna gratidão pelo que ensinaram e pelo que foram.
Certa vez, num tempo de vacas magras do jornal, Ezequias me chamou e disse que não podia me pagar naquele mês, mas que iria dar um jeito. Falou que estava querendo "ajeitar" seu carro e que decidira deixar para o outro mês. Foi lá dentro e voltou com quatro pneus novos e 120 dólares e me disse: – Toma. Troca os pneus carecas do teu carro e fica com esse dinheiro pra quebrar o galho. No mês que vem a gente se acerta.
Depois ele me abraçou e pediu ao Ricardo para preparar uns uísques. Ficamos bebendo em silêncio.
Foto: Sônia Canto. Jorge Herberth veste Coisa da Tica (www.tica-lemos.zip.net).
Eram 18h00 do domingo, dia 16, e o trem descarrilou com 18 vagões cheios de minério de ferro um pouco antes das cinco da manhã.

Na cultura popular a música pode muito bem narrar a vida de uma comunidade e colaborar para o esclarecimento de fatos pela poesia (e pela descrição do fato) nela contida.
Os "ladrões", músicas de marabaixo, são assim chamados porque trazem a público a história individual de pessoas ou grupos. Os versos roubam a individualidade de membro ou membros da comunidade que realizou ou realizaram alguma proeza boa ou má. Trazem principalmente testemunhos, histórias não necessariamente verdadeiras, mas que divertem os participantes e que de alguma forma são elementos de função social, reguladores e regradores da sociedade.
Eles contam, através do olho arguto do poeta-cantador, uma história, um fato, como por exemplo, este abaixo, que mais parece um depoimento lítero-musical sobre a chegada do primeiro avião em Macapá. A narração é do saudoso Martinho Ramos, filho de Julião Ramos:
"Quando passou por aqui o primeiro avião, eu estava com dois anos de idade, mas pelos meus antepassados eu soube de muitas coisas que se passaram na época (1923), inclusive o Sr. Eufrásio foi quem conseguiu nos dar uma grande música do Marabaixo, que tem o título de 'A irmã Catita viu o salão / Assim, atracada assim eu não subo não".
"O avião era uma Catalina, anfíbio, descia n'água e em terra. Mas como nós não tínhamos pista de pouso, eles resolveram descer na água. Então, o povo todo correu; aí o Sr. Eufrásio começou a enversar toda a história do avião:
Corram, corram minha gente
Vamos na praça espiar
O barulho vem de cima
E é n'água que vai
pousar.
Em seguida, todo mundo correu lá pro "Torrão", que era o nome de onde está localizado hoje o Macapá Hotel. Na ocasião, o velho Eufrásio, observando que os ocupantes do aparelho eram todos alemães, fez:
A cabeça do alemão
Muito sol ele apanhou
Na taberna do Ventura
Um guarda-chuva ele encontrou.
Seguindo, vieram à cidade onde nós tínhamos um padre alemão; o padre Júlio (Maria Lombaerd), que, ao conversar com um dos tripulantes, soube que a gasolina deles havia acabado.
"Eles estavam perdidos e sem gasolina. Foram recolhidos pelo padre Júlio e aqui ficaram. Logo depois que a maré encheu, eles abriram o avião para visitação pública. As pessoas foram até ao avião, mas não sabiam como entrar. Então um cidadão prontificou-se em auxiliá-las. Quando o cidadão quis atracar na cintura de uma freira (a quem chamavam de Catita, por ser pequena) para pô-la no avião, ela disse: "Atracada assim eu não subo não ". O velho Eufrásio viu aquela situação e tirou o verso que é o estribilho da música:
"Viu a irmã Catita pelo salão / Assim, atracada assim eu não subo não".
"A irmã Catita não ficou aborrecida porque felizmente ela disse aquela expressão
sem saber e sem se preocupar se havia um poeta observando tudo para dar a música
do marabaixo que deu".O interessante é que o avião pousara no dia 18 de março, véspera da festa de São José, padroeiro de Macapá. O velho Eufrásio fez mais uma estrofe:
No dia 18 de março
Quando o avião chegou
Na terra de Macapá
Todo mundo se alegrou"
Segundo o seu Martinho nessa data a cidade estava repleta de gente da redondeza que veio passar a festa. "Nesse dia foi um deus-nos-acuda. Também pudera, pois ninguém tinha nem ouvido falar em semelhante coisa. Só podia assustar". (Ver Canto, Fernando, in Telas & Quintais, CTC, Macapá, 1987).
No dia 09 de setembro de vai fazer dez anos que o povo do Amapá perdeu Raimundo dos Santos Souza, o Sacaca, cujo apelido significa pajé, bruxedo, mau olhado, xamã, etc.
No dia 21 de agosto, entretanto, sua família vai homenageá-lo com uma grande movimentação de Marabaixo e a edição de um livro sobre a sua vida e obra. Sacaca nasceu em Macapá, em 1926. Hoje seu filho Dô (Raimundo) lidera o grupo folclórico "Marabaixo do Arthur", que faz um belo trabalho social com mais de cem crianças carentes do Poço do Mato, no coração do Laguinho.
DEZ ANOS SEM SACACA 2
Todo o povo do Laguinho chorou no dia do seu enterro. Ele era o homem que conhecia ervas medicinais e fazia preparos de chás e garrafadas. Foi massagista oficial do Esporte Clube Macapá, time do qual era fanático e até me deu uma letra sobre o clube da FAB para musicar.
Quando eu sofria alguma torção era ele quem me curava. Passou sua técnica para o filho Nilson (Bode) que também já subiu na árvore misteriosa da morte. Foi homenageado pelos Piratas da Batucadas como tema no carnaval de 1993.
Um sucesso o lançamento do livro "A Magnitude do Estado na Socioeconomia Amapaense" do economista e professor Charles Achcar Chelala, publicado pela editora Publit Soluções Editoriais com o incentivo do projeto CAPES Pró-Defesa. Segundo Reinaldo Tavares, professor da UFRJ, o livro se constitui leitura obrigatória para os que estudam o desenvolvimento econômico e social do Amapá. Resultou da dissertação de mestrado em Desenvolvimento Regional da UNIFAP.
Dia 26 de agosto o São José, o time mais querido do Amapá, estará de aniversário. Junto com ele completa três anos o Movimento Vento Norte, capitaneado pelo advogado Vicente Cruz. Esse projeto cresceu tanto que já integra inúmeras instituições da zona norte da cidade, como a Universidade de Samba Boêmios do Laguinho e 55 grupos de arte, cultura e esportes, abrangendo a região que vai do Perpétuo Socorro e Laguinho até o Açaí e o Curiaú.
O São José é o primeiro clube local a fazer massificação realizando trabalho com crianças em escolinhas "peneiras", descobrindo talentos até sub-18.
"Programa Movimento em Ação", apresentado por Heraldo Almeida na Equatorial FM, que tem na equipe o Rogério e a Mariléia, segundo comentam pela cidade vem crescendo em audiência no rádio, no horário de 08h30 às 10h00. Inovador ao apresentar aspectos da cultura e da arte amapaense que pouca gente conhece, o programa vem sendo incessantemente procurado por artistas que querem divulgar seus produtos na mídia.
Também pudera! Heraldo é radialista, compositor, carnavalesco e "expert" em comissões de frente, item que jamais perdeu nas escolas pelas quais trabalhou. Além disso, coordena grupos juninos com muita competência e é fundador do MVN.
NOVOS DOUTORADOS
O Departamento de Pós-Graduação da UNIFAP está otimista na expectativa do resultado da aprovação pela CAPES, do Mestrado em Ciências da Saúde. O curso será institucional e deverá ser iniciado no ano que vem, assim que aprovado agora em setembro.
Em 2010 a UNIFAP iniciará o curso interinstitucional de Doutorado em Educação, em parceria com a Universidade Federal de Uberlândia. Já o de Doutorado em Ciências Sociais, após duas tentativas frustradas de parceria com a UFCE e a UNB, é objeto de negociação com a UNICAMP
ZUNIDOR
Hoje teremos a volta dos "Concertos de Verão", promoção da Confraria Tucuju de absoluto sucesso na cidade. O concertista é o multiinstrumentista Aimoré Batista. A partir das 20h00 no Largo dos Inocentes./ Quem já está junto de nós e bem de saúde é o violonista Sebastião Mont'Alverne./ Parabéns ao Jara Dias pelo seu aniversário./ O projeto "Canto de Casa", da AMCAP inicia hoje às 21h00 no Sesc Centro com Adriana Raquel e banda ao preço de cincão. Estudantes pagam meia. /Amanhã tem repeteco do show com Osmar Jr. e Aimorezinho, na Casa de Chorinho do Ceará da Cuíca. Promoção da Sônia Canto Produções./ Estão abertas até dia 17 de agosto, segunda-feira, as inscrições para o XV Prêmio Brasil de Economia. As categorias a serem analisadas são: livro de economia, tese de doutorado, dissertação de mestrado, artigo técnico e artigo científico, monografia ou TCC em economia e Gestão Pública. Informações: http://www.cofecon.org.br/ / Rui Lima, do Laguinho, andava muito macambúzio no balcão do Calçadão do Waldir. Preocupado com as sete bases americanas instaladas na Colômbia. Para ele é uma estratégia para a tomada da região, nada de FARC ou narcotráfico. É mesmo para marcar território. Quem vai mexer com o lobo? Ele pergunta./ Recomeçam na segunda as aulas do MINTEG./ Vem aí o livro "Adoradores do Sol"./ Continuam as festividades de São Joaquim do Curiaú a partir de hoje até na terça-feira, 18. Ladainhas, folias e muito batuque acompanham a festa do pessoal do Quilombo. Vá até lá./ Em Mazagão acontece no dia 24 de agosto a festa do Divino Espírito Santo, uma das mais bonitas festas populares de cunho religioso do Estado. Feita por crianças e adolescentes escolhidas por sorteio no ano anterior.
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