segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Lívia Cafusa
Saudosa Canoa a Vela
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Pero Vaz de Caminha praticou nepotismo? E Camilo Capiberibe, do Amapá, que deu emprego público para a mãe?
Por Ray Cunha (http://raycunha.blogspot.com)
A ex-deputada Janete Maria Góes Capiberibe perdeu o cargo na Câmara Federal mas não ficou desempregada. Seu filho, Carlos Camilo Góes Capiberibe (PSB), governador do Amapá, colocou-a no comando da representação em Brasília, com status de secretária de estado. O pai de Camilo, João Capiberibe, quando foi governador indicou sua irmã, Raquel Capiberibe da Silva, conselheira do Tribunal de Contas do Amapá, um dos salários mais cobiçados no país. E daí? Daí que Camilo era a esperança de moralidade na terra que perpetuou Zé Sarney presidente do Senado. Nepotismo é uma maneira de homens e mulheres de colarinho branco meter a mão no dinheiro público para enriquecer a família. Nepotismo e patrimonialismo no Brasil só serão extintos com reforma do Estado brasileiro.
Em artigo - O nepotismo, o emprego e o Estadão - publicado em 31 de agosto de 2008 no jornal O Estado de S.Paulo, o então embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa (hoje, embaixador em Paris), protesta contra o uso brasileiro de citar Pero Vaz de Caminha pedindo emprego ao rei para um parente como o primeiro sintoma de nepotismo registrado no Brasil-colônia. O argumento do diplomata é correto e a indignação que suas palavras, embora cuidadosas, deixam entrever, é justa, pois na época do escriba Caminha o rei era dono de tudo, de modo que um escrivão do rei teria que pedir pelos seus ao rei, óbvio. Os tempos eram outros.
Se a evocação brasileira é injusta, embora simbólica - porque nossa cultura administrativa, incluindo o velho e vigoroso patrimonialismo, é herança portuguesa -, o nepotismo é uma das pragas que trava nosso desenvolvimento. O momento histórico contemporâneo é absolutamente diferente de 1500. Hoje, no Brasil, reis são folclóricos, mas presidentes e governadores procuram enriquecer suas famílias em quatro ou oito anos; não há mais barões, mas ministros e parlamentares metidos nas mais torpes e sofisticadas negociatas, com o objetivo de ampliar seu patrimônio; não há mais senhores feudais, mas prefeitos que chegam a planejar meticulosamente o saque da burra.
Há, inclusive, parlamentares que defendem o nepotismo como se sua eleição lhes desse o direito de se apossar do patrimônio público. Nessa marcha, esses aristocratas pós-modernos fazem de suas famílias verdadeiras quadrilhas, nas quais seus familiares assumem postos estratégicos para o bom andamento da negociata.
O nepotismo e o patrimonialismo no Brasil só serão extintos quando acontecer a utopia de o povo se levantar, por meio das instituições que o represente, e exigir a reforma política, a reforma tributária, a reforma agrária, a reforma do ensino público, a reforma do Estado brasileiro.
Segue-se, na íntegra, o desabafo do embaixador Francisco Seixas da Costa.
O nepotismo, o emprego e o Estadão
Por FRANCISCO SEIXAS DA COSTA
Ao ler no editorial do Estado de S.Paulo, de sábado, 23 de agosto, que o nepotismo era o produto residual “arraigado” da herança colonial portuguesa, senti reproduzida, pela multi-enésima vez, a referência à expressão em que Pero Vaz de Caminha pede ao rei, na sua famosa Carta, emprego para um seu parente.
Talvez “porque hoje é sábado”, como diria Vinícius (o poeta Vinícius de Moraes), dia em que os jornais se leem com maior vagar, detive-me a refletir um pouco no verdadeiro conteúdo do que foi escrito pelo cronista do “achamento”. Ao formular a sua reverente petição ao rei, Caminha não estava a nomear ninguém para um cargo público, a colocar filho ou primo num gabinete ou numa sinecura paga pelo erário, na rentável administração de uma estatal, estava longe de pretender falsear um concurso público. Limitava-se a solicitar ao soberano, num tempo em que só a este cabia prover discricionariamente todos os lugares, no seu livre e indisputado arbítrio, um emprego para pessoa ligada à sua família. Assim acontecia em todo o mundo, de que Portugal não era exceção.
O pedido de Caminha, que se tornou num bordão referencial da ética pública brasileira, mesmo de quantos se não deram ao trabalho de ler o texto da Carta, passou a representar o exemplo tipificado de nepotismo, não obstante incontáveis contribuições posteriores terem ajudado a recortar, com bem maior sofisticação, essa histórica prática - e não apenas no Brasil, é claro. Para alguns, porém, a frase de Caminha permaneceu como um ferrete que terá marcado, por uma misteriosa eternidade, o DNA brasileiro, transformando-se numa herança ético-administrativa de raiz pecaminosa. Ela reemerge sempre como pernicioso ranço luso, nas horas em que a retórica de alguns oradores já esgotou os clássicos bebidos no Reader’s Digest. Não é este, como é óbvio, o caso do Estado de S.Paulo.
Neste reiterado uso do exemplo de Caminha subsiste, porém, um pequeno, embora quiçá despiciendo, pormenor: “nepotismo” não é nada disso. Trata-se de aproveitar a titularidade de lugares da administração pública para oferecer livre colocação a parentes (etimologicamente, a sobrinhos), passando a alimentá-los à mesa do orçamento. Nem mais, nem menos. E disso, convenhamos, Pero Vaz de Caminha está inocente, sem necessidade de liminares ou recursos.
Longe de mim, como atual embaixador de Portugal, arvorar-me numa espécie de advogado-geral do tempo colonial. Bem me tem bastado, ao longo desde ano, ajudar à gestão póstuma das obras e graças do senhor dom João VI. Mas enquanto usufrutuário comum da bela língua que nos une, sinto-me no dever de colocar os pontos nos is, enquanto um novo Acordo Ortográfico os não abolir. E relembrar que, no século 16, ser solicitado um emprego para alguém - familiar, amigo ou correligionário -, pedido formulado a quem tinha então o legítimo poder para o conceder, não configurava nada que se pudesse identificar com o conceito de nepotismo, nem sequer com a ideia de fisiologismo - impressiva expressão brasileira que passo os dias a tentar traduzir aos meus perplexos compatriotas, a quem a prática não é alheia, mas para a qual não dispunham de tão interessante instrumento qualificativo. Por isso, entendamo-nos de vez: Caminha não praticou nepotismo. Para confirmar isso, basta ler o vosso excelente Aurélio ou o nosso magnífico Moraes.
Mas por que razão, estarão a perguntar-se os leitores, terá o embaixador de Portugal tomado o Estadão como alvo deste seu preciosismo terminológico, quando o tema é recorrente em tanta outra imprensa? Por um motivo de oportunidade, que nada tem a ver com o nepotismo, mas que se prende com o emprego.
Sem que tal represente menor consideração pela restante imprensa brasileira, cuja qualidade é reconhecida internacionalmente, talvez neste país se desconheça que muitos de nós, portugueses, sempre olhamos para o Estado de S.Paulo de forma muito particular. Nos longos anos em que, em Portugal, a liberdade não passava de uma miragem que se mantinha no horizonte longínquo, o Brasil acolheu, com imensa generosidade, muitas figuras que a ditadura salazarista alienava da vida cívica portuguesa. Nesse tempo, o Estado de S.Paulo destacou-se como porto de abrigo para algumas dessas personalidades, as quais, frequentemente, eram menos bem acolhidas por alguns compatriotas, aqui residentes, que não partilhavam ou rejeitavam mesmo o progressismo das suas ideias, porque haviam optado por se manterem próximos do regime que vigorava em Portugal.
Foi o Estado de S.Paulo, foi a figura honrada de Júlio de Mesquita Filho, quem deu então uma mão solidária a vários profissionais exilados da imprensa portuguesa, bem como a outras figuras da Oposição ao salazarismo, oferecendo-lhes emprego, ajudando-os a reconstituir a sua vida e a sustentar o seu quotidiano. Nada disso era feito por adesão ideológica ou doutrinária, por qualquer interesse ou favoritismo, mas simplesmente por um sentimento de simpatia e pela partilha de uma magnífica e rara ética de solidariedade. Nomes como Vítor Cunha Rego, Miguel Urbano Rodrigues, João Alves das Neves, Carlos Maria de Araújo, João Santana Mota ou mesmo Henrique Galvão, puderam encontrar no Estadão um apoio essencial, nesse tempo de turbulência de suas vidas.
Por essa razão, por essa memória grata e afetiva que os democratas portugueses devotam ao Estado de S.Paulo, sentimo-nos livres para pedir que, quando um capítulo da nossa História em comum vem a lume, num dos seus editoriais, aliás, sempre redigidos num excelente “português de lei”, o máximo rigor seja mantido. Achamo-nos, assim, no direito de exigir ao Estadão, com toda a cordialidade e imensa simpatia, a absolvição póstuma de Pero Vaz de Caminha, que nunca pisou os terrenos pantanosos do nepotismo e se limitou a exercer o direito à solicitação de um singelo emprego.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
É BIG! É BIG! Professor Munhoz
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Uma bomba do ENEM na UNIFAP
Sobraram 151 vagas para serem preenchidas na repescagem, quase 50% só no curso de Medicina.
Foi publicado hoje, 09 de fevereiro de 2011, no site da Universidade Federal do Amapá, a lista de segunda chamada de matrícula para os cursos de graduação que a instituição oferece o popular listão de repescagem. Procedimento normal, se não fosse o quantitativo elevado do rol de vagas dos candidatos que não fizeram a matrícula quando da publicação do listão de aprovados no Processo Seletivo Vestibular 2011-UNIFAP.
A lista da segunda chamada apresenta um total de 151 indivíduos que estão sendo convocados para efetuarem a matrícula, nos dias 11 e 12 de fevereiro de 2011.
Este ano a UNIFAP implantou a novidade de que 50% das vagas seriam preenchidas por meio do tradicional vestibular e as 50 % das vagas seriam por meio da nota obtida do Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM, que foi uma das estratégias adotadas pela instituição para contornar o não preenchimento de vagas que tem acontecido nos últimos anos.
Quando da divulgação do listão dos aprovados, no dia 22 de janeiro, sábado de manhã, causou muita estranheza a redução de famílias comemorando a aprovação dos seus rebentos. Uma das explicações é que quem concorreu pela nota do ENEM não sentiu a mesma sensação que anualmente experimentam os aprovados no resultado final do vestibular
Agora, a publicação desta lista de segunda chamada pode significar a debilidade da estratégia adotada pela instituição, em conceder metade das vagas para os indivíduos interessados em apenas apresentar na UNIFAP a média que eles obtiveram no ENEM, e paralelo a isso, concorrerem presencialmente nos processos seletivos de outras universidades e faculdades particulares. O resultado disto, é que os candidatos têm a possibilidade de escolherem onde vão se matricular e cursar a graduação.
151 pessoas estão sendo convocadas nesta segunda chamada, boa parte resultante da decisão dos aprovados iniciais que decidiram não matricularem-se na UNIFAP.
Conforme cálculos realizados, das 1026 vagas oferecidas pela UNIFAP no Vestibular 2011, 513 foram para os vestibulandos tradicionais e 513 foram para os inscritos apenas com a nota do ENEM. E 151, por exemplo, em relação às 513 vagas do ENEM, equivale a 29%.
Um item que chama a atenção é que dos cursos que estão na lista da segunda chamada, o curso de Medicina é o que apresenta a maior quantidade de vagas não preenchidas na primeira convocação. São 13 nomes que lá aparecem, o que significa que das 30 vagas do curso tão cobiçado de Medicina, 13 pessoas declinaram de preenchê-lo, para alegria dos que aparecem nesta lista de repescagem. Resta agora esperar se com esta segunda chamada, serão preenchidas as vagas da referida instituição.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
ANA MARTEL FAZ BRASILEIRÍSSIMO SHOW “BRANCA NO SAMBA”
A cantora e compositora amapaense Ana Martel mostra seu lado brasileiríssimo no show, “Branca no Samba”, em duas apresentações, dias 11 e 18, no Armazen Beer. O repertório tem músicas de sua autoria e de compositores da velha geração, como Paulinho da Viola, Chico Buarque, Arlindo Cruz e os novatos no samba Pedro Luis e Roberta Sá. A banda base que acompanha Ana Martel é um show à parte, formada por experientes músicos de corda, sopro e percussão que farão uma roda de samba inovadora.
Ana Martel é uma das poucas artistas nascida no Amapá que canta e compõe em parceria e individualmente. Pioneira, ela foi a primeira amapaense a gravar um CD com o incentivo da Lei Rouanet, o “Sou Ana” foi lançado com oito músicas de sua autoria e três de outros compositores. Em seus trabalhos mostra suas vertentes musicais incluindo toques de marabaixo, batuque, samba e word music. Ana faz ainda diferença quando faz parcerias. Os nortistas Zé Miguel, Joãozinho Gomes, Enrico Di Miceli, Paulinho Moura, Ubiratan Porto e Val Milhomem são apenas alguns que contribuem para que a arte de Ana se complete.
Com quase 30 anos de carreira e muito chão em Macapá, Belém e outros cantos do Brasil, Ana Martel realiza, com “Branca no Samba” o sonho de ser reconhecida pela sua autenticidade e enraizada brasilidade. Com produção de Preta, o show é pra quem gosta de música brasileira com qualidade garantida. (Marileia Maciel)
Serviço:
Show: Branca no Samba
Local: Armazen Beer / Data: 11 e 18 de fevereiro / Hora: 22:30
Mesas antecipadas: R$ 60,00
Contato: 9127-2000
CONCERTOS DE PSALTÉRIO, RABECA E VIOLA
Por Fernando Canto
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Sempre quis saber como se divertiam os membros das comitivas nobiliárquicas que vinham para a Amazônia no século XVIII. Naturalmente que as condições estruturais e climáticas não eram lá espetaculares para se fazer festas, embora as pessoas, com seus cargos e funções, tivessem responsabilidades inerentes a eles e nem sempre pudessem comemorar algo, a não ser suas conquistas ou datas magnânimas para o Cristianismo. E era uma época em que a Igreja ainda estava atrelada ao poder dos governos europeus (com raríssimas exceções), e estes ao poder papal. Toda expedição que se prezava tinha a bordo um capelão, um padre escrivão ou mesmo padres missionários e confessores prontos para as missões as quais eram destinados.
Mas foi lendo o Compêndio das Eras da Província do Pará, de Antonio Ladislau Monteiro Baena (UFPA, Belém, 1969) que pude constatar a participação desses membros em recreações coletivas. E tem muito a ver com a história de Macapá.
Tendo que voltar ao Rio Negro em 16 de janeiro de 1758, o capitão-General Francisco Xavier de Mendonça Furtado, “porque foi avisado pelo Plenipotenciário e Primeiro Comissário Castelhano de que no ano subseqüente se havia de achar indefectivelmente com a sua Partida na Povoação de São Fernando. Nesta viagem seguido do Ouvidor Corregedor Pascoal Abranches Madeira Fernandes demandou as Aldeias missionárias pelos Jesuítas (inclusive a povoação de Macapá, que seria elevada à Vila no dia 4 de fevereiro desse ano) para praticar a Lei de 6 de junho de 1755, que lhe permitia converter em Vilas aquelas que tivessem circuito capaz deste predicamento, e em Lugares aquelas cuja população fosse menos considerável, ficando tudo sujeito à jurisdição do Ordinário. Na nomeação dessas novas Vilas e Lugares para esquivar-se de ser onomaturgo adota as denominações das que em Portugal pertencem à Coroa, Casa de Bragança, Terras do Patrimônio da Rainha, Infantado e Ordem de Cristo. Nesta extensa digressão certas pessoas do seu séqüito o recrearam com danças e concertos de psaltério, rabeca e viola, e outros prazeres da graciosa humana sociedade”.
Ninguém pode ser preciso quanto ao tipo de dança que essas pessoas executavam, mas pela tradição é possível que o “Vira”, tenha sido o canto e a dança que realizavam na época, até por ser muito popular em Portugal. ”O nome provém da coreografia onde os pares, em fileiras opostas, devem virar rapidamente evitando mostrar as costas ao companheiro”. Não se pode descartar também o “Malhão”, uma dança antiga com origens nas províncias do Norte de Portugal e muito praticada no Brasil Imperial pelos próprios portugueses. Segundo nos conta Mário de Andrade no seu Dicionário Musical Brasileiro o Malhão é semelhante à polca da dança moderna.
Mas o que dizer desses instrumentos trazido pelos colonizadores que viajavam por toda a Amazônia fundando cidades, vilas e lugares? Esse estranho nome psaltério é o mesmo saltério, “instrumento de cordas pinçadas com os dedos, da família das cítaras de mesa, cuja caixa de ressonância tem formato retangular, trapezoidal ou triangular” (M.A.). A palavra tem origem no grego “psallo”, que significa pinçar uma corda, mas o instrumento é originário do canún árabe, que por sua vez é instrumento de cordas dedilhadas, que já era conhecido na Europa desde o século XIII. Já a rabeca é um tipo de violino que se popularizou no Brasil e nos enriqueceu o vocabulário com expressões tipo “Rabecada” (reprimenda), “afinar a rebeca à custa do próximo” (censurar, criticar) e “rabequista”, que quer dizer músico medíocre ou sujeito assanhado. A viola também é um instrumento de cordas dedilhadas, semelhante ao violão, com uma caixa de ressonância em forma de oito, e um braço dividido em trastes em cuja extremidade as cordas são fixadas e afinadas por cravelhas. Essas cordas são dispostas em pares e seu número varia entre dez, doze e até quatorze, com afinações diversificadas.
Neste texto fica pendente a última parte da citação de Baena. Mas creio que os “outros prazeres da graciosa humana sociedade” devia ser o vinho, pois numa época em que navegar com velas era um suplício não havia nobre que aguentasse chegar em terra sem tomar um bom vinho do Porto (Do Livro “Adoradores do Sol”, Scortecci. São Paulo, 2010).
Imagens disponíveis em:
Psatério: http://www.funjdiaz.net
VISTA AÉREA (HOMENAGEM À MACAPÁ)
Letra: Célio Alício/Música: Beto Oscar
Manhã de aurora e brilho cálido
De um novo dia sob o Sol, por entre o véu
Da nave louca, doce moça, tu cidade
Jóia rara do quintal da Amazônia.
Do alto espio o tempo, a chuva, o anel da tarde
Num vôo rasante e lento, as asas de Pinzônia
De cima, enquadro tua anatomia
O meu remédio em teu mistério
O que te move e me vicia.
Contemplar-te o panorama
Nas matas de Pindorama
A costa norte, o anel da sorte
Teu negro olhar, tua alquimia
Das nuvens estacionadas no horizonte
Bebo da tela bucólica das enseadas
A tua gente, a tua alma
O rio gigante, o curso d’água
Quem te ama e quem te mata
Quem te cuida ou te maltrata
Bêbada noite, órbita do meu planeta
Ladrilhos e mosaicos nas gravuras dos cometas
No chão amarelado nessa festa, desta feita
Ensimesmados que te entendem
Desassombrados em tua receita
Ó mãe do meio do mundo inteiro,
Olhai teus filhos no terço primeiro
Estação Bacabeira, teus pretos te amam
Morada primeira, ameríndios te chamam
A chuva cinza se condensa e precipita
Na cavidade do sorriso, prima gesta
Via-L’Afritea, Macapaba prometida
Eis que, linda, só deslindas minha festa.
Júpiter-Ambé, Abaca-Marte da Pedreira
Mer-Curiaú, me batucas noite inteira.
Mar-Urano-Anum, feitiço das vilas
Soltas horas, vozes roucas, volta e meia
O rio-mar de têmpera e guache
O barro sagrado no chão de bom grado
Alinhando tuas casas à luz das estrelas
Refletindo no azul o solar das palmeiras.
Vista aérea, meninos alados
Ornamento de linhas, assoalho das aves
Abençoadas margens de igarapés de asfalto
E agora olha, e, então, vê
A tua face espelhada nas estrelas,
Bem pra adiante, o coração andante
No teu futuro refletindo essa grandeza.
Ao léu da sorte, no cais da vazante
Ao mar abaixo das caixas
Tens aberto o horizonte
Entre a lida e a morte
E o final de anteontem.
Palpitando em versos a tua gentileza
Entre a canoa e os carros,
O bálsamo, o cigarro
A corrente que espalha a tua beleza
Embala meus versos a firme certeza
De que um mantra de amor
Anoitece e adormece
A tua cândida natureza.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
ÉBIG! ÉBIG! - Oriana
COLUNA CANTO DA AMAZÔNIA
Publicada no jornal Tribuna Amapaense de 05.02.11
ANIVERSÁRIO
Macapá completa mais um aninho. 253 anos marcam a sua elevação de lugar a vila, ocorrida no pelourinho da Praça São Sebastião (hoje Veiga Cabral) no dia 04 de fevereiro de 1758, com o discurso do fundador Mendonça Furtado.
Um dia e tanto, registrado pelo historiador português Antonio Baena como cheio de prazeres, com muita comida e bebida, danças e concertos de psaltérios, rabecas e violas, executados pelos músicos que acompanhavam a comitiva do Governador da Província do Grão Pará e Maranhão. Hoje as festas em regozijo à data se repetem na Veiga Cabral, não mais com esses arcaicos instrumentos coloniais, mas com guitarras eletrônicas e vez por outra com um tímido rufar da caixa de marabaixo, lembrando a presença do negro na construção da velha cidade.
NOVA DIRETORIA DA AMCAP
O músico e arranjador, maestro Miquéias Reis, tomou posse da Associação de Músicos e Compositores do Amapá – AMCAP para o biênio 2011/2012 prometendo muita “transparência”, muito trabalho e muita luta pela categoria.
Quem sai é o cantor/compositor Cleverson Baía, que representa os músicos no Conselho Estadual de Cultura e vai cuidar da sua carreira como cantor. Pretende lançar brevemente, na segunda quinzena de março, seu CD “Arte e Ira”, com 12 faixas, das quais regravou dois clássicos da MPA – “Assim como Raul” (Fernando Canto e Osmar Júnior) e “Planeta Amapari” (Joãozinho Gomes e Val Milhomem).
ADEUS À MARJÔ
Após longa batalha perdida para um câncer, nossa querida Marjô descansou para sempre. O corpo da saudosa ex-presidente da Liga das Escolas de Samba foi velado na quadra da Paróquia Jesus de Nazaré, do jeito que ela pedira ao seu amigo padre Paulo Roberto: com a saudação das baterias das escolas de samba da cidade.
Lembro de Marjô na Guiana Francesa, levando o nosso carnaval para ser apresentado em evento internacional em Kourou. Ela tinha um grande prestígio junto às autoridades daquele Distrito e também em Caiena, onde por muitas vezes participou de eventos culturais. Falava fluentemente o francês e servia de intérprete para a galera que a acompanhava.
ADEUS À MARJÔ 2
O dublê de carnavalesco e radialista Heraldo Almeida me disse que “Marjô era uma guerreira. Corajosa e determinada. Peitava todo mundo, fosse quem fosse, e dizia: vamos fazer, vamos fazer. E fazia”.
Heraldo não economizou adjetivos para elogiá-la. Falou que ela era muito verdadeira e que podia até se prejudicar pelos seus atos, mas que ela falava, falava. Tudo em nome da entidade que presidiava e do carnaval amapaense. E não levava desaforo pra casa. Requiescat in pace!
BONEQUINHA DE PANO
Será no domingo, dia 06, às 19h00, em frente à Casa do Artesão, a apresentação da peça infanto-juvenil “Bonequinha de Pano”, de Ziraldo. A atividade faz parte do projeto “Jornada Cultural”.
O trabalho tem a direção do encenador Cláudio Silva, do Grupo “Ói Nóiz Aqui Traveiz” e vai ser protagonizado pela atriz Sabrina Zahara, que faz papel duplo. Muito amor e emoção marcam a peça, que tem na direção musical Cleverson Baía, os adereços e figurinos a cargo de Bruno Neves e a cenografia do artista plástico Josaphat. Imperdível, leve seus filhos e prestigie nossos artistas.
IEMANJÁ
Não recebi nenhum e-mail ou telefonema informando se haverá uma programação oficial do aniversário da cidade. Mas lembro que até recentemente a Prefeitura prestigiava os grupos afro-religiosos que iam para a frente do rio Amazonas na noite do dia 02 de fevereiro reverenciar Iemanjá, a Rainha do Mar.
Era uma festa bonita e cheia de rituais, comandada pela saudosa Mãe Dulce Moreira e coadjuvada por ilustres babalorixás como pai Salvino e Geléia. Ali iam os umbandistas, os praticantes do Candomblé e muitos turistas para assistir os rituais e as danças. Dona Dulce dava banho de cheiro em todas as autoridades presentes e em todos os que pediam a proteção da entidade reverenciada. Depois, em um pequeno barco, soltavam as oferendas sobre as ondas do rio-mar, debaixo de tiros de foguetes.
ZUNIDOR
A banda musical “Belos Tempos”, formada por mais de uma dezena de músicos, como Aldo e Claudete Moreira, Tyson, Alcinão e Bolachinha, vão tocar na sede campestre do Trem Desportivo Clube, hoje, comemorando o aniversário de Macapá. Pretendem resgatar a tradição dos velhos carnavais de salão
O cantor Amadeu Cavalcante continua como Tesoureiro da entidade, pela quarta vez consecutiva. Bebeto é o vice e também quer transparência na gestão. Nada de “salto alto”.
Cristina Moreira, uma das herdeiras do arcabouço musical de sua mãe Dona Dulce, vai gravar um CD com músicas de Umbanda e Tambor de Mina. Saravá!
UNIFAP ficou de luto na segunda-feira passada. Perdeu a Professora Sandra.
“A história do mundo não é senão o progresso da consciência da liberdade” (Hegel).
Inderê! Volto zunindo no sábado.
Da arte e do prazer de escrever
Por Frei Beto
Escrevi ao longo dos últimos 27 anos. Alem de prosseguir no trabalho de textos longos, redijo dois ou três artigos jornalísticos por semana. E... por que escrevo? Trago uma multiplicidade de hipóteses não excludentes.
Escrevo para construir minha própria identidade. Tivesse sido criado por lobos, será que eu me sentiria lobo no mundo? A identidade é também reflexo de um jogo de espelhos. Se pais e mestres me tivessem incutido que sou tapado para as letras, e não me restasse outra alternativa senão trabalhar no fundo de minas, talvez hoje – se houvesse sobrevivido – eu fosse um mineiro aposentado.
Minha experiência, porem, foi diferente. Os espelhos reluziram em outras direções. Já trazia um mim o fator filogenético. Meu pai escreve crônicas. Minha mãe publicou seis livros de culinária. O gato da casa não escreve; mas pelo jeito, gosta de ler, a julgar pelo modo como se enrosca em jornais e revistas.
Veio, então, o fato ontogenético. Segundo ano primário, Grupo Escolar Barão do Rio Branco, Belo horizonte. Dona Dercy Passos, que me ensinou o código alfabético, entra na classe sobraçando nossas composições. (Bonito: composição. Promove a escrita a nível de arte poética e musical.) A professora indaga aos alunos: “Por que não fazem como o Carlos Alberto? Ele não pede aos pais para redigirem suas composições”. A palavra elogiosa pinçou-me do anonimato, inflou o meu ego, trouxe-me um pouco mais de segurança na tarefa redacional.
Textos Mágicos
Tornei-me ávido leitor. Monteiro Lobato, coleção “Terramaear”, o “Tesouro da juventude”. Não lia com a cabeça, e sim com os olhos. O texto se fazia espelho e eu via meu próprio rosto no lugar do perfil anônimo do autor. Mais do que conteúdo, encantavam-me a sintaxe, o modo de construir uma oração, a força dos verbos, a riqueza das expressões, a magia de encontrar o vocábulo certo para o lugar exato.
Primeira série ginasial, Colégio Dom Silvério, dos irmãos maristas, Belo horizonte. Irmão José Henriques Pereira, professor de Português, aguarda-me à saída da aula. Chama-me à parte e sentencia: “Você só não será escritor se não quiser”.
Escrevo para lapidar esteticamente as estranhas forças que emanam do meu inconsciente. Aos poucos fui descobrindo que nada meda mais prazer na vida do que escrever. Condenado a fazê-lo, tiraria de letra a prisão perpétua, desde que pudesse produzir meus textos. Aos candidatos a escritor, dou este critério: se consegue ser feliz sem escrever, talvez sua vocação seja outra. Um verdadeiro escritor já,ais será feliz fora deste ofício.
Escrevo para ser feliz. Batheanamente, para ter prazer. Sabor do prazer. Tanto que, uma vez publicado, o texto já não me pertence. É como um filho que atingiu a maioridade e saiu de casa. Já não tenho domínio sobre ele. Ao contrário, são os leitores que passam a ter domínio sobre o autor. Nesse sentido, toda escritura é uma oblação, algo que se oferta aos outros. Oferenda narcísica de quem busca superar a devastação da morte. O texto eterniza o seu autor.
Escrevo também para sublimar minha pulsão e dar voz à babel que me povoa internamente. A literatura é o avesso da psicanálise. Quem vai ao divã é o leitor-analista. Deitado ou recostado, ouve nossas confidências, decifra nossos sonhos, desenha nosso perfil, apreende nossos anjos e demônios. Por isso, assim como os psicanalistas evitam relações de amizade com seus pacientes, prefito manter-me distante dos leitores. Não sou a obra que faço. Ela é melhor do que eu. No entanto, revela-me com uma transparência que jamais alcanço na conversa pessoal. Tenho medo do olhar canibal dos leitores, como se a minha pessoa pudesse corresponder às fantasias que forjam a partir da leitura de meus textos. Tenho medo também da minha própria fragilidade.
O texto tece o tecido da minha couraça. Com ele me visto, nele me abrigo e agasalho. É meu ninho encantado. Privilegiado do qual contemplo o mundo. Dali posso ajustar as lentes do código alfabético para falar de religião e política, de artes e ciências, de amor e dor. Recrio o mundo. Por isso, escrever exige um certo distanciamento.
Deveria haver mosteiros nas montanhas onde os escritores pudessem se refugiar para criar. Não posso exercer meu ofício têxtil cercado de interrupções, como idas e vindas, reuniões etc. Concordo com João Ubaldo Ribeiro quando ele afirma: “Escrever, para mim, é um ato íntimo, tão íntimo que não acerto escrever na frente de ninguém, a não ser em redação de jornal, que é como sauna, onde todo mundo está nu e não repara na nudez alheia”(Folha de S .Paulo de 19/04/92).
Loucos e vaidosos
“Escrevo por vaidade”, confessava o poeta Augusto Frederico Schmidt. Em geral, os escritores são insuportavelmente vaidosos. Tanto que chegam a criar academias literárias para se autoconcederem o título de “imortais”. Ali, a maioria sobrevive às próprias obras. Qual o autor que não atribui ao que escreve uma importância superlativa? Se o livro não vira best-seller e não é elogiado pela crítica, o autor culpa o editor, a distribuidora, o preconceito da mídia, as “panelinhas” literárias das metrópoles. Ora, alguém conhece uma obra de indiscutível valor literário que tenha sido olvidada por ter sido impressa na gráfica do município de Caixa Prego? O que tem valor, cedo ou tarde, se impõe. O que não tem, ainda que catapultado às alturas pelos novos e milionários recursos mercadológicos, não perdura. O bom texto é aquele que deixa saudade na boca da alma. Vontade de lê-lo de novo.
Todo texto, entretanto, depende do contexto. Por isso, dois leitores têm diferentes apreciações do mesmo livro. Cada um lê a partir de seu contexto. A cabeça pensa onde os pés pisam. O contexto fornece a ótica que penetra mais ou menos na riqueza do texto. Um alemão tem mais condições de usufruir de um Goethe do que um brasileiro. Este, por sua vez, ganha do alemão na incursão pelos sertões e veredas de Guimarães Rosa. Do meu contexto leio o texto e extraio, para a minha vida, o pretexto.
Escrevo em computador. Quando busco um tratamento estético mais apurado, faço-o à mão. Hemingway escrevia de pé. Kipling, com tinta preta, em blocos de folhas azuis com margens brancas, feitos especialmente para ele. Henry James fazia esboço de cena por cena antes de iniciar um romance. Faulkner dizia “ouvir vozes”. Dorothy Parker confessava: “Não consigo escrever cinco palavras sem que modifique sete”. Escrever é cortar palavras é modificar frases.
Escrevo para ganhar dinheiro. Livro dá dinheiro como a loto: para uns poucos. Neste país de analfabetos, cujos alfabetizados não têm o hábito da leitura, e onde as pequenas tiragens editoriais encarecem o custo do produto, viver de direitos autorais é privilégio de um Jorge Amado e de um Paulo Coelho. Meu também, guardadas as proporções. Porque tenho muitos livros, destinados a diferentes segmentos de leitores e, como religioso e celibatário, um custo de vida relativamente reduzido. Tivesse família, seria difícil viver dos direitos autorais. Envio meus artigos semanais a cerca de vinte jornais e revistas. Só dois pagam. Os demais, nem os serviços de correio fax/telefone.
Escrevo, enfim, para extravasar meu “sentimento de mundo”, na expressão de Drummond. Tentar dizer o indizível, descrever o mistério e exercer, como artista, minha vocação de clone de Deus. Só sei apreender este peixe sutil e indomável – o real – através da escrita. É minha forma de oração. (Fonte: Revista Imprensa, Mar/1996)
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
ADELANTADO DE NUEVA ANDALUZIA
– Tu sabias, mano, que esse foi o primeiro nome oficial dado às terras do nosso Amapá?
Em 1544 o Rei da Espanha, Carlos V, concedeu a Francisco Orellana este lugar, mas o grande navegador não chegou a assumi-lo por ter naufragado quando para cá se dirigia.
Desde Pinzon que os espanhóis e os portugueses disputavam acirradamente nossas terras em virtude do Tratado de Tordesilhas.
Depois vieram os holandeses, os ingleses e os franceses.
Depois, portugueses, índios e negros, nossos avós, garantiram nossos destinos conquistando definitivamente a foz do rio Amazonas rechaçando com atos de heroísmo os flibusteiros e marinheiros europeus.
E nós, como povo, temos nossa História. Brava História.
Por isso, compadre, que um dia, na antiga Província dos Tucujus, chegou o Governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado para fundar neste local a então Vila de São José de Macapá. Era o dia 04 de fevereiro de 1758. Daí em diante esta cidade cresceu e se fez bonita.
E em maio de 1944 Macapá foi transformada em capital do Território Federal do Amapá, criado um ano antes.
Foram chegando os pioneiros. Cada qual com seu trabalho e sua coragem.
Saga e valentia.
Só mesmo homens e mulheres dispostos a trabalhar poderiam modificar aquele quadro triste de doença, analfabetismo e miséria. Nossos pais e avós, todos juntos, reuniram suas forças para trabalhar por esta terra.
O sentimento de amor e de progresso era superior ao esmorecimento e ao pessimismo.
Tudo foi modificando-se.
Chegou o primeiro carro e o primeiro avião.
O primeiro campo de aviação foi construído e foi para o ar o primeiro programa na velha e querida Rádio Difusora de Macapá, uma das pioneiras do Brasil.
Instalou-se a primeira usina de luz, o primeiro hospital.
Égua! O Caixa de Cebola foi o nosso primeiro ônibus.
Depois veio o Gavião Malvado... tudo tinha nome ou apelido.
Havia a “Turma do Buraco” que arborizava Macapá...
Em Macapá faziam sátira com a música “Cidade Maravilhosa” e cantavam assim: “Cidade Maravilhosa / Cheia de catabil”... Pois sim. Essas pessoas que a cantavam, assim o faziam porque não tinham a visão do futuro.
Macapá tinha o horizonte aberto para receber as mãos dos homens trabalhadores que chegavam de todas as paragens.
E juntos, com os que aqui já se encontravam, mineiros, cariocas, nordestinos, gaúchos...
Todos trabalhavam e pensavam em progresso. E como na lenda da cigarra e da formiga uns cantavam, mas a maioria trabalhava.
E esta cidade, mano, foi crescendo, crescendo e crescendo ao sabor do tempo e ao som do Marabaixo que a preta velha cantava na Quarta-feira da Murta pelas ruas do Laguinho e da antiga Favela.
“Passei pelo lírio roxo
Cinco folhinha apanhei
Cinco sentido qu’eu tinha
Todos cinco eu lá deixei.”
Todo um sentimento poético abraçava a cidade.
E Macapá estava linda sob o sol.
Aliás. A luz sempre simbolizou a vida.
O sol beija o rio na maior parte do ano.
E ao nascer todos os dias ele traz para nós a esperança de dias melhores e mais mansos.
Sabe, mano, enquanto soubermos discernir o bom do ruim faremos deste lugar a razão de nossa felicidade pois ela permanecerá acesa nos nossos lares.
Devemos ainda aprender a amar as obras dos nossos antigos irmãos, para preservar assim nossa memória.
Devemos amar nosso chão e nosso céu de sonhos.
Temos tudo para ir adiante, assim como nosso primeiro nome, lembra?
Adelante, adiante, para a frente.
É importante sermos otimistas e ter os pés neste solo.
Batalhar e trabalhar para fazer desta terra um mundo de coisas boas.
Sim, um mundo moldado com as mãos e com a respeitável inteligência de nossos irmãos.
Tu já fizeste uma vigem, não foi?
Sem querer tu pensaste em alguns detalhes e fostes e voltaste.
Assim como tu, nossos dirigentes também pensam, planejam e realizam obras que nossos filhos vão falar com orgulho e seus corações também falarão através de um grande sorriso em suas bocas.
É preciso continuar planejando para atender os anseios de nossos irmãos carentes.
É preciso combater os malefícios e pensar no bem-estar geral.
É preciso compadre, é preciso trabalhar.
E nós estamos trabalhando para viver e se forpreciso morrer por este lugar.
Adiante, adelante, adelantado.
Bem ali, no mais tardar das esperanças tu construirás o teu tempo.
Nem que seja sobre a folha que cairá de uma árvore sob o impacto da chuva.
Olha, mano, deves ter a certeza que o rio corre para um único destino: o mar.
E nesta linda cidade que hoje faz o seu 226º ano de fundação paira a luz sobre nossas cabeças.
Então, iluminados, devemos homenageá-la.
Já viste o rio Amazonas deitado no seu leito.
Já viste a imponência da Fortaleza de São José.
Já viste também os namorados apreciando o rio parir uma lua gordinha lá no quebra-mar.
Então tu sabes, mano, como é linda e hospitaleira a nossa cidade, né? Pois é!
O Marco Zero do Equador passa aqui pertinho, separando o mundo em dois hemisférios.
Já notaste que vem tanta gente aqui para visitá-lo?
Tem uns turistas louros, morenos, pretos e amarelos que só tiram fotografias com as pernas abertas dizendo que estão no meio do mundo.
Sabes por quê?
Ora, Macapá é importante...
Mas tu sabes o que significa a palavra Macapá? Não?
Macapá é uma variação de Maca-paba, que quer dizer. Na língua dos índios, estância das macabas, ou lugar de abundância de bacaba.
Bacaba é uma fruta boa e gostosa, né? Apesar de gordurosa ela alimenta muito a gente e o seu vinho ainda tem aparência de café com leite.
É assim como o açaí, o nosso petróleo comestível que a gente compra um litro na amassadeira do Ramiro e dá de pau na hora do almoço.
Temos tanta fruta que tu nem imaginas... Temos cupuaçu, graviola, bacuri, genipapo, uxi, pupunha, camapu, ingá... chega a dar água na boca.
Mas, compadre, Macapá é uma linda morena.
Vês que de manhã aquele solzão bate no Amazonas que chega até encandear a gente.
Macapá é uma cidade segura. Aqui o rio nunca transbordou.
E ela está de aniversário.
Mas nós não vamos ficar aqui neste cantinho só olhando e contemplando sua história e sua raça.
Vamos soltar foguetes e brincar com a criançada. Vamos enfeitar nossas bicicletas e sair por ai, pedalando pelas ribanceiras ou pelas suas largas avenidas, festejando...
Pois ela já fez muito pela gente. E quando o sol for embora, mano, nós levaremos a certeza que ele voltará. E assim como nós acreditamos nisso, nós acreditamos no futuro e no trabalho de nossos irmãos.
Na essência da poesia à Macapá o que vamos encontrar é a alma do povo.
O povo que sonha, ama e constrói.
É para ele que planejamos. É para ele que pensamos em novos estímulos à expansão da alma coletiva.
Neste poema, cada dia reescrevemos um verso apaixonado. Uma declaração de amor à nossa cidade, que mesmo se tornando uma capital diferente daqueles dias de Adelantado, não aceitou perder sua alma, nem endurecer seu coração.
Publicado em 1983 (Cartaz) e em 1984 (folder) pelo Governo do Estado em comemoração ao 226º aniversário da fundação da cidade de Macapá.
Macapá do meu coração
Por Ray Cunha
Fortaleza de São José de Macapá; ao fundo, o Trapiche Eliezer Levy, em foto do francês Olivier Marcille (out/04)
Adelantado de Nueva Andaluzia, assim foram chamadas as terras tucujus, futura Macapá, por Carlos V de Espanha, em 1544, numa concessão ao navegador espanhol Francisco de Orellana. Macapá nasceu de um destacamento militar, instalado em 1738 na Praça São Sebastião, atual Veiga Cabral. Em 4 de fevereiro de 1758, o capitão-general do Estado do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundava a Vila de São José de Macapá, e foram surgindo edificações, como a Fortaleza de São José de Macapá.
Amo muitas cidades. Cada uma delas marcou meu coração. Há, contudo, uma que me ilumina, pois é como uma mulher que desejamos por muito tempo e que de repente está diante de nós, nua, aos primeiros raios do sol de julho. Macapá emerge da boca do rio Amazonas avançando na Linha Imaginária do Equador, e quando a cidade nos engole, mergulhamos num mundo prenhe de jasmineiros que choram nas noites tórridas, merengue, a poesia azul da Alcinéa Maria Cavalcante, a casa do Fernando Canto, que recende ao Caribe de Gabriel García Márquez, mulheres cheirando a Chanel número 5 e maresia, o embalar de uma rede no rio da tarde, mapará com pirão de açaí, tacacá, Cerpinha.
Quando entro neste santuário, dispo-me de todas as feridas, e oferto rosas, pedras preciosas e luz, toda a minha riqueza, aos que eu amo, e te chamo, Macapá, de querida!
Sempre me perco em ti, e sempre de propósito, numa vertigem da qual só me recupero em Brasília, dias depois. As viagens que fazemos no coração são vertiginosas demais para a pobre física terrena. A casa da minha infância, cada palavra que garimpei em madrugadas eternas, cada gota de álcool com que encharquei meus nervos, cada mulher que amei nos meus trêmulos primeiros versos, cada busca do éter, nas noites alagadas de aguardente, os jardins da casa da Leila, no Igarapé das Mulheres, o Elesbão, a casa da Myrta Graciete, a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, o Macapá Hotel, o Trapiche Eliezer Levy, estão para sempre no meu coração, que enterrei na Rua Iracema Carvão Nunes.
São José de Macapá – Roteiro Poético Parte III
SÃO JOSÉ DE MACAPÁ – ROTEIRO POÉTICO parte II
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Mestrado
Estou escrevendo minha dissertação para o mestrado. Este quadrinho reflete bem o que estou passando…
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
FARROZ,UM AMIGO DE INFÂNCIA
Por Tito Melo
Ainda guardo comigo lembranças dos tempos do Morro do Sapo, dos moleques de pés descalços trilhando as ruas piçarrentas e empoeiradas,com suas baladeiras enfiadas em seus calçòes de cáqui ou brim,perseguindo as rolinhas que vinham mariscar nos imensos quintais com árvores frutíferas que atraíam,também,periquitos, pipiras,bem-te-vis,suís e outros passarinhos que coloriam a paisagem de nossa infãncia.
Era um tempo de sonhos e descobertas,de fascínio e crenças,de alegrias e dificuldades, mas, sobretudo, de encantamento,de contato próximo com a natureza e da livre forma de pensar,sentir e agir,alheios às amarras que hoje tolhem a liberdade do encontro.
Macapá ainda era uma pequena cidade, traçada por ruas estreitas,de casas simples cobertas, em sua maioria,de palha,entrecortada por pequenos lagos,igarapés e área de frágeis pontes por onde transitavam seus moradores e trabalhadores humildes em direção à Doca da Fortaleza.
Foi nesse cenário que conheci um menino dentuço recém chegado de Óbidos,de estatura franzina e sotaque do interior,fascinado pelo grande rio que banha Macapá,maravilhado com os barcos que ancoravam próximos à Fortaleza, enfeitados com bandeirinhas multicores,recebendo os sussurros da brisa que tangia segredos e estórias de iaras,sereias e botos encantados.
Os longos quintais de nossas casas próximos um do outro, foram palco de nossas travessuras e brincadeiras,prolongadas pelas investidas sorrateiras às hortas do japonês,onde frutas e hortaliças eram surrupiadas pela molecada que invadia às escondidas para se deliciar com as frutas e hortaliças que nos saciavam depois de longas caminhadas e investidas pelos sítios que completavam aquele mundo verde.
Constantemente nos encontrávamos na ladeira do Morro do Sapo, onde seu pai Tonico possuía uma mercearia e lá comprávamos donzela,pirulitos,bazuca,foguetinhos e bombas para estourar nas festas juninas, e na volta da escola era de praxe vir chutando lata, espirrando água dos buracos empoçados, chupando picolé no Bar Teco-Teco, azucrinando, também,o Manjuba e o Camarão Frito, além de irritar Seu Gama, jogando pedras no taperebazeiro que ficava dentro de sua propriedade, por onde deslizavam as águas de um córrego cheio de matupiris, carás-barbelos, uéas, pratinhas e sanguessugas.
Também adorávamos colecionar figurinhas do Rin Tin Tin e de jogadores de futebol,tomar banho no Pacoval,soltar pipas,morcegar os caminhões que subiam com dificuldade a ladeira ‘lngreme do Morro do Sapo,inclusive o Violino,”brechar”por debaixo do assoalho do Clube 7 de Setembro as dançarinas de largas saias que íam se divertir ao som dos Sonoros Caçula,exibindo seus passes de merengue,boleros e twiste.
Nos finais de semana costumava ver Farroz vestindo seu uniforme de lobinho e,aos domingos, aguardando as sessões de matinê na porta do Cine Macapá, Cine Territorial e Barraco dos Padres,a fim de assistir as comédias da Atlântida e os filmes da Metro- Goldwyn- Mayer para dar preciosas gargalhadas com as piadas de Ankito,Grande Otelo,Oscarito,Zé Trindade e Costinha e torcer pelos mocinhos e cowboys que exterminavam os peles- vermelhas comandados por Touro Sentado,além dos seriados de Durango Kid,Falcào Negro e Buck Jones,onde era comum também encontrar o Luís Jorge (Pinguim) trocando revistas em quadrinhos de Roy Rogers,Tarzan, Fantasma, Zorro, Buffalo Bill, Rock Lane, Batman, entre outros personagens e super-heróis que fertilizaram nossos sonhos juvenis.
Ainda na fase juvenil,Farroz gostava de jogar uma pelada nas ruas piçarrentas, onde a molecada à tardinha se encontrava para dar “dibras”, chapéus, bicudas e xagões e para o costumaz bate-papo com Bolinha, Bossa Nova, Vevé, Puíca, Zeca Doido, Mamânico, Pneu,Au-Au, Zeca do Sinval, Vilhô, Tutano, Lulu, Pelhudo, Doidelo, Charuto e muitos outros amigos de infância que compunham nosso círculo de amizades,todos de família humilde como a nossa, mas que comungavam dos mesmos sonhos,tristezas e alegrias.
São recordações que o tempo não apagou e que continuam a acompanhar nossa trajetória existencial eivada de saudades dos tempos que podíamos sonhar ouvindo as pererecas e sapos-cururus coaxando ao cair da tarde.
QUANDO EU MORRI
Era a última quarta-feira do ano e chovia muito. Eu suava e mantinha uma permanente sensação de palidez. Também senti que o ar me era escasso e ofeguei muitas vezes. Nas vezes anteriores, em que o ar também faltou, eu me socorria dos cisnes brancos. Como eles, eu abria minhas asas e desfiava o vento pouco a pouco até erguer-me o suficiente para atravessar a privação de viver sem ar. Não era um exercício simples, mas ter aprendido com os Cisnes foi decisivo para minha sobrevivência até a última quarta-feira do ano.
Ai, próximo às cinco horas da tarde, eu sentei em uma cadeira de balanço disposta no pátio descoberto da casa. Ali, já não mais tive forças para voltar a abrir minhas asas. Então, confiei na agitada atmosfera que acompanhava a chuva que me marinava justamente para compensar a falta que o ar fazia. Não lembro tudo. Mas Levemente eu perdia a autoridade sobre meu corpo que se inclinava para o lado esquerdo e uma dor lancinante se derramou em meu peito. Fui ao chão, em morte tardia, como há muito pressentido.
O tempo imprevisto adivinhou a morte e, aflito, demorou águas em meu corpo. O vento, já desnecessário, soprava um hálito viril em minha boca como se ainda possível guincha-me a vida. Um transitório clarão de relâmpago às vezes iluminava meu maxilar inferior caído e os olhos arregalados, como desejassem alguém que, por indulgência, os fechasse, desassustando a morte. Desejo foi algo sempre presente em minha vida, agora morta, designadamente o desejo de morrer.
Essa não foi a primeira vez em que morri. Aliás, tive muitas mortes. Algumas atrozes, difíceis de lembrar. Em todas, entretanto, eu estava amando e é por isso que sempre receei não morrer mais. Morri em segredo. No escuro do quarto. Rés a solidão. No sábado que foi. No domingo que vem. No sopro do rio que morreu no mar, eu morri. Tantas foram as vezes em que morri que por aqui pouco se ouviu falar de dor. Morri a morte que dura. Faz feliz a criatura e, às vezes, imortaliza o amor.
Mas agora era diferente. Eu estava diante de minha última morte. Não haveria outra, como dantes. Assim, mesmo não sendo um iniciante em morte, tive a oportunidade de senti-la mais profunda e definitivamente. Ela, sem cerimônia, vestiu-me de noivo. Deixou que suas tranças incolores deitassem em meu colo e pôs-se a ciciar em meus ouvidos palavras que acasalam. Recém nascidos, ziguezagueamos em fina lã até tecermos um idioma famélico de corpo e gozo. Lembro também de quase gemidos assíduos e um turvo leite gravitando em gotas e em bocas.
Aprendi muito com a morte. Aprendi, por exemplo, que existem pelo menos duas coisas que não se pode deixar de fazer depois de morrer. Uma, é passar em revista a cidade, inspecioná-la, acariciá-la nos extremos, inconfidenciar todos os traços da vida. A outra é secar as lágrimas e as corizas dos rios. Tristeza não é a consequência lógica da morte. Pelo menos da minha morte. A morte que morri estimula a vida, às vezes surda, noutras ouvida. A morte e a poesia andam tão perto, bem dizer prosa e verso. Vida. Foi assim, quando eu morri.
Os avós são pais duas vezes.
Por André Mont'Alverne
Araguarino Mont'Alverne, avô do André.
É pela presença que sentimos a falta. Somente o ser humano é capaz de entender o passado, presente e futuro. Talvez por isso, a vida se torne muito difícil em momentos como este. A partida de quem você desejava que ficasse para sempre, desperta uma forma de saudade que trava a alma, e faz a vida perder muito a graça. Mas o sofrimento também é parte daquilo que nos faz humanos.
Araguarino era o nome do menino, e entre todos os remistas, o mais azulino. Homem especialmente simples e dedicado as amizades, sempre reservando importância fundamental a família, esse era o seu estilo de vida. Encheu de alegria a vida e o coração de todas as pessoas que o rodeavam. Seus olhos viram guerras, viram dores, mas o seu olhar, apesar de tudo, transmitia a paz. General do seu pátio, Rei do seu mundo. Um grande homem que tinha uma força e uma vontade de viver incrível. Até o último momento de sua vida!
As águas estão divididas. Choramos hoje porque ele se foi. Mas devemos agradecer sempre por termos conhecido e convivido por tanto tempo com essa pessoa maravilhosa que ele era. Sempre dizem que os avós são pais duas vezes … e os netos? O que são, então?
