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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

OBDIAS ARAÚJO - Novo poema


Um poema novo do velho militante da literatura amapaense Obdias Araújo, irmão de outros bons poetas, primo de loucos-varridos-da-porta-da-igreja e parente de punha-mesas. O título está lá embaixo, na forma que caracteriza a poesia de OB.
Tu sabias
que a Fortaleza
foi toda construída
no Curiaú?
Diz que o Sacaca
o Paulino e o Julião Ramos
vieram em cima da Fortaleza
varejando até chegar na beira do Igarapé Bacaba
onde amarraram a bichona na Pedra do Guindaste
e foram tomar uma lá
no boteco do sêo Neco.
Diz que o o Alcy escreveu uma crônica
E o Pedro Afonso da Silveira Júnior leu
Oito horas da noite
no Grande Jornal Falado E-2.
Diz que, né?
Diz que o mestre Zacarias
vinha em cima do farol
tocando um flautim feito
com as aparas da porta de ébano...
E que Dona Odália vinha fazendo
flores de raiz de Aturiá
sentada no maior de todos os canhões
brincando com a Iranilde
que acabara de nascer.
Diz que o Amazonas Tapajós vinha
cantando ladrões de Marabaixo
-ele, o Edvar Mota e o Psiu.
E o João Lázaro transmitia tudo para a Difusora.
Diz que até o R. Peixe pintou um mural
-aquele que ficou no pátio da casa do Isnard
lá no Humilde Bairro de Santa Inês
de onde foi roubado pelo Galego e trocado
por duas garrafas de Canta Galo
e uma de Flip Guaraná, lá na Casa Santa Brígida...
Hoje Macapá amanheceu bem
mais triste que de costume.
Roubaram a Fortaleza!
Levaram o velho forte! De madrugada
Dois ou três bêbados remanescentes
viram passar aquela enorme coisa boiando
rumo Norte, parecida uma usina
de pelotização.
Andam comentando lá
pelo Banco da Amizade
que foi o Pitoca
a Souza
o Quipilino
o Pombo
o Zee e o Amaparino...
E que o Olivar
do Criôlo Branco
e o Cirão
estão metidos nessa história.
Eu, hem!
oOo

O ROUBO DO FORTE VELHO

terça-feira, 28 de junho de 2011

MINHA POESIA

Por Alcy Araújo

A minha poesia, senhor, é a poesia desmembrada
dos homens que olharam o mundo
pela primeira vez;

Dos homens que ouviram o rumor do mundo
pela primeira vez.
  
É a poesia das mãos sem trato
na ânsia do progresso!

Ídolos, crenças, tabus, por quê?
Se os homens choram suor
na construção do mundo
e bocas se comprimem em massa
clamando pelo pão?
  
A minha poesia tem o ritmo gritante
das sinfonias dos porões e dos guindastes,
do grito do estivador vitimado
sob a língua que se desprendeu,
do desespero sem nome

Da prostituta pobre e mãe,
do suor meloso da gafieira
do meu bairro sem bangalôs
onde todo mundo diz nomes feios
bebe cachaça, briga e ama
sem fiscal de salão,

- Já viu, senhor, os peitos amolecidos
da empregada da fábrica
que gosta do soldado da polícia?

Pois aqueles seios amamentaram
a caboclinha suja e descalça
que vai com a cuia de açaí
no meio da rua poeirenta.

 - Cuidado, senhor, para seu automóvel não atropelar a menina!... 

sábado, 1 de agosto de 2009

CIDADE LANÇANTE



Esta baía

é uma grande gamela de líquidas contorções, ondas que bailam sob a música do vento.

Esta baía

não guarda mais o sangue inglês do comandante Roger Frey que pereceu sob a espada implacável do capitão Ayres Chichorro a 14 de julho de 1632, um dia claro, aliás, de verão amazônico, quando o sol derretia naus e o piche dos tombadilhos. Nem o sol, nem o vento, nem o oceano lá adiante cogitavam que naquela mesma data, dali a 157 anos o povo francês tomaria a Bastilha.

Na margem

esquerda deste rio imensurável uma floresta úmida abrigava uns seres esquisitos, cabeludos e cheios de penas coloridas que os portugueses conheciam por Tucuju, Tikuju, Tecoju ou Tecoyen. Segundo ensina a mestra Dominique esse era um povo de origem Aruaque, ocupante da Costa Sul do Amapá que se tornou aliado dos holandeses, dos franceses e dos irlandeses. Por isso foi atacado impiedosamente por uma expedição do desbravador Pedro Teixeira no ano da graça de 1624. Sua história, no contexto da nossa, dá conta que após a façanha do capitão português esse povo procurou abrigo no Cabo do Norte, mas foi reduzido pelos jesuítas a uma missão no baixo Araguari e pelos capuchinhos no baixo Jari. É provável que um pequeno grupo tenha sobrevivido ao sul do município de Mazagão até o início do século XIX. Desse pequenino grupo restaram apenas as cinzas do tempo e um soluço quase imperceptível que morre a cada segundo na agonia de todos os silêncios.

Esta baía

guarda estranhos segredos: uns são contados em língua morta, quando o hálito da madrugada sopra depois que a lua assim determina. Esses são de difícil entendimento. Os outros pairam nos escaninhos dos tabocais ou na boca das pirararas. Dificilmente serão contados.

O estuário

deste rio dadivoso acelera a corrente de 2,5 quilômetros por hora para jogar no oceano cerca de 220 milhões de metros cúbicos de água por segundo. O inacreditável é que apenas o desaguar de 24 horas daria para abastecer de água potável uma cidade superpovoada como São Paulo por quase 30 anos. Números são números, diria o matemático. Nessa foz está a redenção de nossa terra, diz o sonhador sem perder sua utopia. Do barro e dos detritos aluviais se faz a vida. E ela está ali dentro das águas à espera da sustentação das mãos trabalhadoras.

Esta baía

não se faz só de águas e barcos deslizando ao sabor das ondas. Ela abriga uma pequena jóia nascida sobre a várzea dos aturiás, velada há dois séculos por uma fortaleza plantada em cima de falésias.

Macapá, velho

pomar das macabas, carrega dentro de si a similitude de um éden tropical das narrativas dos antigos viajantes, até por ser banhada por tantos líquidos e cheiros advindos diariamente pela chuva refrescante e pela espuma das lançantes marés.

Macaba, Maca-paba:

gordura, óleo, seiva do fruto da palmeira, vida e princípio desta terra, posto que a sombra traz a ternura e contrasta com o benefício da luz que se espraia por glebas de esperança.

Antiga terra

da maleita e da febre terçã. Terra do "já teve" já não és. Mas alguns homens ainda jogam em teu traçado xadrez e, silenciosos, manipulam segredos e conspiram contra ti, a degradar-te e degredando teus verdadeiros sonhos e tua vocação para o abrigar da vida que se espera. Mesmo assim a felicidade bem insiste em se hospedar em ti.

Embora batizada

com nome de santo - especialíssimo no panteão católico - teus habitantes não ficam isentos dos perigos: pés se torcem ou se fraturam todos os dias nos buracos das ruas outrora bem cuidadas.

Agora eu

fico aqui me perguntando: por que quando te fundaram ergueram um pelourinho? - "Símbolo das franquias municipais", dirão os doutos e sisudos professores. Ora, quantos homens não castigaram seus escravos até à morte após a partida do governador Francisco, porque estes aproveitaram para fugir durante a solenidade.

Um tralhoto

viu e contou ao Mucuim que diz-que o Ouvidor-Geral e Corregedor Paschoal de Abranches Madeira Fernando tomou um porre de excelente vinho do Porto ofertado a ele nesse dia pelo plenipotenciário capitão-general Mendonça Furtado, que daqui zarpou para o rio Negro para demarcar as fronteiras do reino, a mando de Pombal. Foi um dia de festa aquele 04 de fevereiro de 1758, porque nasceu naquele instante a vila de São José de Macapá.

E ela

cresceu e fez linda e amada, pois os caruanas das águas vez por outra rondam em espirais por aí, passeando em livros abertos, nos teclados dos computadores, pelas portas e pelos filtros dos aparelhos de ar condicionado, nos protegendo das agruras naturais e das decisões de homens isentos do compromisso de te amar. Parabéns, Macapá!

Publicado em 1998, por ocasião dos 240º anos de fundação da vila de Macapá

segunda-feira, 20 de julho de 2009

PARABÉNS MINHA FILHA


Parabéns Julia, pelo seu aniversário.



JÚLIA


Minha dor não lacrimeja
Sangra
Salga sofre e sobrevive
como o pássaro amazônico
Minha saudade é doída
É doida
É longa e viva
mesmo ao im(pacto)
da roda morta
das horas
Minha saudade rosna por aí

É uma saudade cega
seca e chuva
Minha saudade é uma cidade

grande
obesa, depravada
e noite


É uma saudade gasta
É uma saudade jade
É uma saudade Júlia

Publicado no livro "Os Periquitos Comem Mangas na Avenida". Macapá, 1984. Poema musicado por Joel Elias e gravado por Sabatião

quinta-feira, 16 de julho de 2009

HOSPEDEIRO DA NOITE PREMATURA

"No princípio eram pedras e paus. Então inventaram a lança, a funda, a flecha ..."


10
Mais brilhante que um cometa

da Europa surgirá um míssil

anunciando a vinda dos Quatro Cavaleiros

O espetáculo de fogo enseja

a renatividade de um Cristo confuso

entre dez mil estrelas desguiadas

e reis desintegrados no deserto

"Na batalha de Adrianópolis, no ano de 378, a cavalaria visigoda e ostrogoda dizimou as legiões romanas: 40 mil mortos".

9

Genebra é a capital da atenuação

Olhares antípodas se cruzam

e o mundo suspira de alívio

ligado nas cenas de sorrisos

e apertos de mãos

"A infantaria cedia lugar ao homem montado, uma arma dominaria os campos por séculos".

8

Homens e santos politizam gestos

privatizando o que não lhes pertence

Qualquer merda será lucro

escatológico

na proliferação dos cientistas

que criam os meios

e combatem os fins

Oh infeliz essência de evidência!

Lixo humano

poluindo inteligência

"Em 1139, um édito do Vaticano proibiu o uso da besta, exceto contra muçulmanos. Ela era capaz de penetrar uma cota de malha a 150 metros."

7

Dialogaram cuspindo painas

ao vento do inverno inadiável

o ponto convergente foi a certeza:

- Após a bomba a dor acabará.

Homens e robôs transformam a terra

fabricando ogivas

como quem fabrica filhos

Os arsenais se multiplicam

e as conversações aumentam

Quem sabe mesmo

são os intérpretes

(enclausurados nos segredos)

"No século XIV, o uso de canhões tornou inúteis os castelos e seus torreões. A pólvora deu impulso à busca de armas capazes de atingir o inimigo com maior rapidez e impacto".

6

Corre ocidente

Corre oriente

Corre boiada humana

Correm megatons

Cidades desenganadas

Desfile de dentes brancos

Sádicas gargalhadas

Maratonas de instrumentos

Botões e temperamentos

Quem ganhar tem como prêmio

O fogo desesperado

Do mito de Prometeu

"Um avanço simples – converte de rombuda para pontuda a extremidade da bala – tornou o fuzil uma arma extremamente mortal: 86% das baixas da guerra civil americana foram provocadas por fuzis".

5

A Paz é uma atividade guerreira

Inda que por meios mais obsoletos

o homem fere e vaza

os olhos do inimigo

Por trás do ódio absoluto

há um claro e louco canto

Agônico

Do homem

Hospedeiro da noite prematura

"O gás penetra em qualquer refúgio, o avião tornou desprotegido qualquer exército".

4

O sonho dos alquimistas

a doce ilusão de Dumont

se volatizam no ar-nada

No coletivo sufoco de Bhopal

No cheiro esdrúxulo da morte

mais que anunciada

por poucos preservadores da raça

Chernobyl, Chernobyl

Protótipo da noite longa

A noite dos fragmentos

noite dos fragmentos

dos fragmentos

fragmentos


"Mas foram criadas armas antitanques, máscaras contra gases, mísseis que derrubam aviões".

3

Presidentes, reis, xeiques, aiatolás

miram botões

Coçando as mãos

Antes, porém, fazem os tratados

Acordos e convenções

- pactos caros -

E louvam os desarmamentos

Dos outros, dos menos fortes

Os botões, sem vida, permanecem

à espera do aperto inconseqüente

Nações ardem em desespero

à revelia do último momento

Pela liberdade que definha

e por seus deuses que fugiram

"As armas nucleares elevaram a potência de impacto a níveis extremos, o uso de foguetes permitiu vencer a distância e a eletrônica tornou a precisão melimétrica"

2

Bomba, bomba

Excrescência da ciência

O tumor sem cura

Letal veneno que o saber

humano

jamais fabricou

  • Que mentiras devassam

o gênero do homem

e a evolução da espécie?

A doutrina armamentista

a oficina da destruição

ou o cinismo deflagrado

antes das armas

"Da besta ao míssil nuclear, a história da corrida armamentista é uma seqüência de 'últimas armas' sendo sobrepujadas pela seguinte, mais letal".

1

Como no Japão

Three Mile Island, Goiânia, Chernobyl

New York, New York, quem sabe Rio ou Tumucumaque

vivemos a iminência do perigo

a certeza do risco

e a ausência dos abrigos

O homem

- o hospedeiro da agonia

o mesmo fabricante das ogivas

pedirá clemência a ele próprio

quando a negação da raça

for a tônica primordial

do genocídio absoluto

"Uma arma, enfim, que colocará fim a todas as guerras".


FOGO!!!


Pesam, contudo, todos os avisos

a mão do ecologista

a graça

das crianças

o poema e a esperança

No outro lado da balança

treme, inexplicavelmente

a Gênese mal começada

ao som do Apocalipse...


Belém, 1987



N. A. As frases que antecedem os poemas foram retiradas do texto "Corrida Sem Fim da Arma Total" (revista ISTOÉ, de 20.11.85)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

INSELBERGUE


Disponível em http://picasaweb.google.com

Eis que surge assim na paisagem, saliente como um bem-te-vi, uma pedra calva, um monte-ilha protegido pelas armas dos seus querubins.
Quanta variação de formas raras, céu de fogo ardente à espera para conhecer as tuas entranhas, casas de ciladas dendrobatas, nicho de veneno antes da cura de homens que fizeram suas façanhas.
Véus de nuvens cortinam cerrações nas manhãs de pássaros cantores, tal como arrancassem corações de quem guarda segredos furta-cores.
Serras, rios, montanhas, cordilheiras. Tempo em espiral, hora de ataque às deusas que dormitam no horizonte. Entes que já são tumucumaques.
Lá longe na guiana, Mitaraka, o monte, se levanta gritando em desespero com sotaque.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

FUndofuNDO

Meu destino é naufragar nas tuas águas de marés itinerantes como eu

Quero mesmo aguar-me em ti como um peixe morto de velhice ou devorado por cardumes nascituros preso ao último instante às armadilhas das cadeias ecofundas

E perecerei meio sem alma fundido em ferroespírito para me tornar parte de ti matéria transparente âmbar líquido na escuridão do fundo não na mera margem que comprime tua passagem ao mar

Publicado no livro Equinocio – Textuário do Meio do Mundo – Editora Paka-Tatu – Belém, 2004

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Dança da criação

Foto de Fernando Canto: Tarde na Praia de Fazendinha
Um canto de amor à cidade,
a bem dizer, este poema.
Uma necessidade vital, um amor
sem preconceitos,
puro e apaixonado.
Macapá de ontem e de hoje,
Histórica e sem farsas.
Telurismo versus pés descalços,
um banho de água doce
neste mar que encanta e
faz permanecer um universo.
Sensação de trabalho iniciado
pela perspectiva de inúmeras rotações.
Nós que guarnecidos em fortalezas
e tocados pela linha imaginária
do equador, somos forçados a cantar
acompanhados por um vento ameno
e pela voz que a paisagem, a gente
e a História fotografam em nossa mente.
A terra, o rio, a chuva e o sol do equador
encerram em si um micro-mundo,
autêntico, que provoca
a dança da criação
num ritmo de tatos vivenciados e amados
durante todo um tempo
em que enraizamos
e nele formamos nossa cultura.
Este pequeno roteiro, aliás,
uma viagem iniciada há anos,
é traçada única e exclusivamente
pelo amor.
Um amor à terra
e ao que nela existe
um amor sincero e perene
para que a existência se torne mais significante.
É uma homenagem
em forma de cantiga,
uma poesia larga e bela,
onde, sobretudo, está patente
uma declaração de amor.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

AMAPÁTRIA

Foto de Fernando Canto




O rio diante de mim parecia um ser de barro
De cabelos avoantes e um hálito doce
A soprar minha face de criança atônita

O riO O riO O riO
Curso d’alma dentro d’água
(nele corriam todos os destinos
os desejos
os sentidos e uma direção)
II

A noite-breu vagava lume de estrelas
E os homens apontavam dedos verrugosos
Seguindo a trajetória dos satélites
Entre seres pequeninos que sonhavam luzes
E as ondas que embalavam as redes
Para o vai-e-vem dos devaneios

III
O medo era um peixe engolidor
Que se dissipou à vista da primeira paisagem
– Uma estranha construção de pedra
E um longo madeirame sobre as águas
Estava completada a travessia
(Ávida espera
Ânsia desritmada)
Meus pés, então, colaram à terra
Como planta que “pega-de-galho” em solo fértil

E nunca mais eu e tu fomos nós dois!
IV
Aprendi te amar nas madrugadas
Quando ainda eras um Adelantado
Decretado por reis mortos como Nueva
Andaluzia
Depois mundiei nos olhos do futuro
E construí só para ti um forte
Com meus braços de operário compulsório
–Ah, o sangue, a malária à espreita! A morte!
V
A ti devo o conceito de ser contra a corrente
À evidência do remanso
Porque não canso de aprender tua sábia natureza
Que some e surge como um tempo em espiral
Espraiando mitos e magias de Ianejar
O herói de Mairi dos Waiãpi

VI
E assim como o fogo estica o couro dos tambores
E a mão que toca a vida e seus amores
O canto encobre o som desses batuques
Que agitam saias e toalhas
Da gente do marabaixo
E a lembrança da senzala que nunca mais virá
VII
Por sob o gesto está toda a ossatura
A verve e a formosura dos seres calcinados
Frutos de paixões, azuis, amalgamados
Paridos de carbono e oxigênio
Envoltos sem querer num tempo-calendário
Voantes como flecha à caça do milênio
Com sua cosmogonia
E mitos vitimados pela História
VIII
Mas foi aqui que vi fincarem bases / desenharem
Formas
(Ousadas águas que o oceano anseia)
sob o grito inenarrável dos revéis sem planos
Enquanto a cobra-grande se movia
O riO O riO O riO
Segue então seu curso inexorável
IX
Agora há uma chama no horizonte
Iluminando o rosto dos mortais que se transformam
Em seres pregnados da certeza
Que luz não é fogo-fátuo esvanescente
Que sombra não é a aziaga forma de domínio
Mas decerto projeção da realidade
Sob o espelho das manhãs
X
Ah, eu quero um vir-a-ser da claridade
O incenso/o ouro/a mirra
A águA A águA A águA
O Ar
E a luz que vislumbrei na travessia
XI
Eu quero ser a chuva e o pranto da felicidade
Caindo sobre as folhas da floresta
E amarrar por fim esse tempo na retina dos olhares
XII
Eu quero alimentar o sonho e me emantar de ti
Pois só quem te AMA
palma
te AMA
nhá
te AMAPÁ
Te A M A P Á T R I A