Mostrando postagens com marcador Literatura amapaense; Hélio Pennafort. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura amapaense; Hélio Pennafort. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A POROROCA ESTÁ SUMINDO (*)

pororoca-2

Texto de Hélio Pennafort

Vários rios amapaenses ficaram conhecidos mais pelo seu lado pororoqueiro do que por sua extensão ou por sua importância sócio-econômica. Tudo por conta das estórias de embarcadiços e estórias de pescadores que corriam por este mundo a fora dando conta de ondas gigantescas que revolucionavam a embocadura dos rios, derrubando árvores, empurrando a ribanceira mais para dentro, espantando a tralhotada e emborcando incautas igarités ou barcos desavisados que achavam de passar naquela hora lá por perto. Fatos reais se misturavam à fantasia. Entre os reais alguns bem tristes. Como o naufrágio de uma pequena canoa-motor-de-popa às proximidades do igarapé Maruani, afluente do Rio Cassiporé, que provocou a morte do médico Lélio Silva e do comissário de policia Deusdeth, que estava na região a serviço do governo do Território. Na embarcação ainda se encontravam a enfermeira Nair Guarany Lemos e dois caboclos que escaparam porque sabiam nadar e tiveram muita sorte. Eles baixavam o Cassiporé em direção à vila de Taperebá. Quase na hora da pororoca passar, encostaram na margem por medida de segurança. Já se ouvia a zoada. Minutos depois, apareceram as primeiras ondas. Quando passaram, acordando o barranco, o Deusdeth insistiu para que todo mundo embarcasse na canoa e seguisse viagem. De nada adiantaram as ponderações da enfermeira Nair e dos caboclos. Lá se foram. Só que o comissário, que pilotava a canoa, subestimou o banzeiro da retaguarda, tão perigoso quanto as ondas de linha de frente. Resultado, a canoa virou. Dr. Lélio e Deusdeth, que não sabiam nadar desapareceram na escuridão barrenta do Cassiporé. Dias depois encontraram os corpos abaixo da vila do Taperebá. A uns 30 quilômetros do local do acidente.

Outro estrago que a pororoca fez foi às proximidades da Ilha do Maracá. Ivanildo dos Santos, Orlando Cordeiro e Antonio Maranhense passavam por ali há três dias, sem nenhum problema. Tripulavam a canoa “Dois Amigos”, usada na pesca da Gurijuba. De repente, eles se viram na maior enrascada da vida. Na época – já lá se vão uns vinte anos -, eu narrei o fato para a Rádio Educadora: “acompanhada de poderosas ondas, a enchente apanhou a canoa de surpresa e a ventania começou por rasgar a vela, quebrar o mastro e, finalmente, afundá-la. Ivanildo, Orlando e Antonio ficaram assim, repentinamente, ao sabor das ondas que de tão altas não deixavam ver o mato”. Agarrados na canoa-de-leme, os náufragos, de inicio, se limitavam a balançar lentamente os pés para garantir a cabeça fora d’água e poupar energias, pois a distância a vencer não era pequena, embora contando com a correnteza para ajudá-los. Ivanildo e Orlando, por serem mais jovens, estavam resistindo bem ao impulso das ondas. Na metade da terrível jornada, entretanto, Antonio Maranhense começou a implorar ajuda dos companheiros. Conta Ivanildo: “Primeiro ouvimos ele pedir para que nos desse a mão para ele ajudar a se sustentar na canoa-de-leme. Depois ele começou a querer nos agarrar, pra vir na costa da gente. Nós vimos que o homem estava desesperado, mas não deu... Se fizesse o que ele queria, morria todo mundo. Largamos ele e viemos embora. Gastamos quase toda a maré (enchente) para alcançar a beira. Ficamos horas e horas de bubuia”. Outro caso entre os inúmeros registrados na Costa Norte amapaense, aconteceu com dois barcos de propriedade do governo. O iate São Luiz, mal atracado no Marcílio Dias, não resistiu à passagem de uma rebarba de pororoca perto do Ariri e foi para o fundo em questão de minutos. Fim humilhante para um vigoroso barco acostumado a enfrentar vagalhões na rota Macapá/Oiapoque, que cobria regularmente. Em pane, vinha sendo rebocado pelo Marcílio quando pegou o rabo da maré. E só não venceu mais esse desafio das ondas porque não tinha um filho-da-mãe para segurar o leme. Ficou indefeso, desequilibrado.

A pororoca avisa com alguma antecedência quando vai aparecer. Escuta-se ao longe um barulho mais ou menos parecido com o que sai quando a gente sopra na boca de uma garrafa. E vai aumentando, aumentando até que aparecem as primeiras ondas, seguidas de um barulho d’água que às vezes mete medo. Imediatamente à passagem das ondas precursoras, o nível do rio aumenta visivelmente. E a força da correnteza vai tocando rio adentro tudo o que derruba ou encontra pelo caminho. Toras de madeira, galhos de árvores, troncos de miritizeiros. Feita a desarrumação costumeira, a pororoca desapareceu no dobrar do primeiro estirão, o rio já encheu mais um metro. A aos poucos a tranquilidade volta ao lugar. Essa descrição é de quem assistiu ao fenômeno na embocadura de um rio. Dentro dele, numa parte que seja relativamente estreita, além da zoada e do borbulhar, escuta-se também o quebrar dos galhos e o cair das árvores que não estejam bem fincadas.

A mais famosa das pororocas movimenta a foz do rio Araguari. Mormente nos três primeiros meses do ano quando aparecia com toda a aterradora exuberância. A sua fama chegou ao Japão. Uma das principais redes de televisão japonesa, a NHK, mandou sua equipe acampar numa das fazendolas do Araguari. Levou imagens sensacionais que causou espanto à japonesada. Amaral Neto, no tempo em que se dedicava ao jornalismo, também levou daqui boas reportagens sobre a pororoca, um fenômeno que ainda hoje é desconhecido até mesmo pela maioria dos amapaenses e quem não a viu quando era grande, paciência.

Chegam notícias de seu desaparecimento paulatino. Principalmente a do Araguari, por culpa do assoreamento do rio, segundo os entendidos. Pode ser. Porque até hoje ninguém informou com detalhes o que é uma pororoca. Dizer que é o encontro da água do rio com a água do mar é papo furado. Se fosse assim, todos os rios tinham a sua pororoca. Por enquanto a explicação mais aceitável é que ela seja o resultado da formação topográfica do leito do rio com a força da maré no início do fluxo. Isso justifica até o fato de a pororoca às vezes crescer, às vezes diminuir de intensidade. A força da maré, afinal, recebe também influência da lua. Só que agora ela está sumindo mesmo.

Adauto Pantoja mora na fazenda Bom Amigo, na foz do Araguari. Sua casa serviu de base de operações para a equipe da TV NHK e da Rede Globo. “Está havendo muita mudança com a pororoca. Ela já foi muito porruda agora está pequena. E antes era mais forte em março e abril. Já esse ano cresceu mais em fevereiro. Mas para o que era, esta diminuíndo muito”, disse Adauto. Francisco Paulino Rodrigues, o Careca (40 anos), nasceu no Cassiporé e desde os dez anos trabalha embarcado. Começou numa canoa a vela de seu pai, Dico Batista, fazendo viagem para Oiapoque levando melancias, jerimuns, porcos e galinhas. Hoje tem um barco motorizado e dedica-se a pesca no litoral. “Eu já me alaguei uma vez no Bailique quando fui surpreendido por uma pororoca muito menor do que a que tinha no Araguari. Faz algum tempo. O erro foi meu que não coloquei a canoa no canalão. Fundeei numa parte mais ou menos rasa e quando a pororoca apareceu fez o estrago. Mas deu para eu recuperar o barco e não aconteceu nada com os tripulantes”. Falando com desenvoltura enquanto descarrega o peixe na doca do Igarapé das Mulheres. Careca garante que a pororoca do Araguari esta diminuindo em olhos vistos. “Quando ela estava no pique, alcançava até mais de cinco meros de altura. Hoje talvez nem chegue aos dois nos dias em que ela apareceu maior.” Consumindo até quinze dias em cada jornada de pesca, Careca acha uma explicação para o desaparecimento da pororoca do Araguari: “O rio, na foz, está bem raso. E continua secando. Daí ela perde a força porque a pororoca precisa de uma quantidade certa de água para crescer. Nem muito fundo, nem muito raso.”

(*) Publicado no jornal “A PROVINCIA DO PARÁ”, página JORNAL DO AMAPÁ Nº 321 – MACAPÁ, 03 DE NOVEMBRO DE 1991

sábado, 10 de novembro de 2012

O GURIJUBICÍDIO

Leia abaixo o texto do saudoso jornalista oiapoquense Hélio Pennafort, publicado no dia 21 de dezembro de 1991, quando atuava em “A Província do Pará”, no caderno que escrevia sobre o Amapá aos domingos. Infelizmente, quase 21 anos depois, o cenário da vigilância costeira e das fronteiras continua o mesmo. Apenas os atores mudaram.

COSTA GERENCIADA

Por Hélio Pennafort

Que ninguém se atreva a penetrar nas águas territoriais da Guiana Francesa – a possessão europeia colada ao Estado do Amapá -, a fim de capturar peixes ou tramalhar camarão. Imediatamente a guarda costeira Gendarmerie é acionada e o barco é preso com a tripulação e tudo. A fiscalização é tão rigorosa na costa guianense que os brasileiros que viajam clandestinamente a Cayenne, em busca de trabalho, esperam a chegada da noite para a etapa MontgneBrurelle/Maroni justamente o trecho mais policiado. Evitam assim o contato visual com os helicópteros e a consequente detenção pelas lanchas-patrulha. O guianense defende com unhas e dentes o seu banco camaroneiro e a variedade enorme de peixes que existem no seu litoral.

Também há bancos camaroneiros e cardumes das mais variadas espécies nas águas que banham a costa amapaense. E muito, só que a fiscalização e o mecanismo de defesa atuam de maneira um tanto precária, oportunizando a presença quase que constante de embarcações estrangeiras, muitas das quais operando clandestinamente, inclusive oriundas da própria Guiana Francesa. Com os meios em que dispõe a Marinha de Guerra não pode efetuar um patrulhamento ostensivo no litoral amapaense. Mesmo assim, quando os corvetas aparecem há um recuo temporário por parte dos pescadores clandestinos. Mas depois voltam e abusam, causando inclusive mortandade de peixes. Não faz muito tempo houve um gurijubicídio no trecho Cabo Norte/Cabo Orange, causado, segundo se informou na ocasião, por um tipo de bomba de profundidade lançada por barco de pesca japonês para desalojar os camarões que procuram as profundezas em determinada época do ano. Tem ainda o desperdício da chamada fauna acompanhante, que são toneladas de peixes mortos devolvidos ao mar após a separação das espécies mais nobres.

Inúmeras vezes percorri de barco o litoral (Macapá/Oiapoque) em missão jornalística. E certa ocasião, quando fazia o documentário “As Favelas do Atlântico”, vi de perto os amontoados de peixe apodrecendo em diversos pontos da costa, e posso dizer para vocês que o espetáculo não é dos mais agradáveis. Acredito que nenhum outro país permite coisa parecida em suas águas.

Mas isto um dia pode acabar. Ou pelo menos melhorar. Vários sinais já foram dados de que as atenções começam a se voltar também para a Costa do Norte. Um deles é o Programa de Gerenciamento Costeiro que vai ser operacionalizado no Amapá, envolvendo vários órgãos da administração federal e do governo estadual. Segundo o Coordenador Estadual do Meio Ambiente, professor Antônio Carlos Farias, serão colocados em prática a curto prazo muitos planos de proteção e aproveitamento racional dos recursos do mar. A iniciativa é boa e deve favorecer um elenco de atividades ao longo do litoral, motivando inclusive o surgimento de pequenas comunidades à beira mar. Trata-se de um entreposto de pesca implantado num dos maiores pontos de concentração de gurijuba, um tipo de peixe dos mais saborosos e rentáveis. Fora Sucuriju, existem os povoados do Taperebá, Cocal, Montanha, Goiabal, Nazaré e uma ou outra feitoria de pescadores, armadas em pontas como a do Maiacaré, a do Ninhal e a da Cova da Onça: Tem ainda uma estação ecológica e vários moradores na Ilha do Maracá: todos esses lugares podem servir de bases operacionais para o programa.

Vamos acompanhar essa ideia do gerenciamento costeiro do Amapá e torcer para que ela dê certo.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O AMAPÁ E A GUIANA

Texto De Hélio Pennafort

Quando Janary Nunes e Robert Vignon atravessaram a década de 50 governando, respectivamente, o Território do Amapá e a Guiana Francesa, o intercâmbio politico administrativo era muito acentuado entre as duas unidades.

Anualmente, caravanas de autoridades e jornalistas partiam de Cayenne para Macapá e vice-versa. Numa dessas viagens houve até troca de condecorações. Janary, em Cayenne, recebeu a estrela Negra de Benin; Robert Vignon, em Macapá, foi condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul.

No livro Gran Man Baka, que Robert Vignon fez publicar, o antigo governador da Guiana revive alguns momentos passados em Macapá, oferecendo ainda um elenco de observações interessantes. “As ruas eram de uma largura tão impressionante quanto a circulação era modesta. A população, muito dispersa, parecia demais primitiva. Alguns condenados, após uma estada na prisão, estavam autorizados a vir terminar suas penas neste território, dentro de uma liberdade bastante vigiada. Nada era esquecido para se obter o melhor rendimento da mão-de-obra existente. Quando visitamos um fábrica de sapatos, admirei-me de ver todos os operários de farda. Janary me explicou que ele tinha achado que os guardas da alfândega destinados pelo ministério das finanças do Rio de Janeiro a seu Território, lhe serviam com mais utilidade fabricando sapatos que guardando, simbolicamente, uma fronteira mal definida e absolutamente permeável”. Aqui Vignon deve ter confundido as coisas. Quem nesse tempo fabricava sapatos era uma turma da antiga Guarda Territorial, que nada tinha a ver com a vigilância da fronteira.

Mais adiante, ele atesta que o planejamento era vigoroso. “A educação, ensino, esporte reunidos, a religião, tudo estava entre as preocupações essenciais do governador”.

Como não podia deixar de acontecer, Robert Vignon faz uma comparação entre o Território e a Guiana Francesa nesse tempo – 1951: “Amapá nada mais é que um território de colonização onde os problemas de desenvolvimento são os mesmos que nós decidimos enfrentar na Guiana. As estruturas, no entanto, são diametralmente opostas. Nós estabelecemos uma perfeita democracia, colocando a Guiana como departamento francês, o que é perfeitamente lógico, sob o ângulo do desenvolvimento intelectual, social e politico da população. Já os brasileiros escolheram um método autoritário, colocando à cabeça do território um governante com poder de ditador absoluto, prestando conta de seus atos ao Rio de Janeiro, bem distante e absorvido por outros problemas”.

Sobre a pessoa do governador do Amapá, em seu livro, Robert Vignon: “Janary era de uma personalidade extremamente cativante. Franco, direto, espontâneo, ele falava bastante francês e espanhol. Eu me hospedei na casa dele. Me fez visitar seus aposentos e admirar uma grande cama de madeira da região, de fabricação local. Sua esposa estava no Rio em tratamento de saúde. E à noite, precisei passar pelo seu quarto, quando observei que uma rede estava estendida por cima da cama. Janary me explicou, sorrindo, que era muito difícil dormir numa cama e que ele levava sua rede até quando ia para o Rio”.

Sobre a comida que provou em Macapá: “Consistia num vasto prato de feijão vermelho, farinha de mandioca, peixe e galinha assada na brasa, jacaré e tartaruga guisados com muito tempero brasileiro”. Revela a seguir “Os brasileiros não tem o complexo europeu que, sob todas as latitudes, do polo do equador, não aceitam comer além do bife com batatas fritas”.

Chega a vez do governador da Guiana relatar a viagem de Janary a Cayenne: “Combinei a sua chegada com a festa que organizava, a cada ano, para marcar o aniversário da departamentalização e da instalação do novo governo, por Jules Moch. O governador veio com uma grande comitiva e o grande momento dessa visita foi quando eu o condecorei com a medalha de Oficial da Estrela Negra de Benin. Evidentemente que o contraste entre Janary e eu, era surpreendente, com meus 1,85m e 85 quilos, dominava pesadamente Janary com seus 1,60m. ele tinha a morfologia típica dos brasileiros do norte. Silhueta curta e maciça. Quando o condecorei, ele percebeu qualquer coisa de paternal no meu abraço”.

PUBLICADO EM “A PROVÍNCIA DO PARÁ”

JORNAL DO AMAPÁ – Nº 312 – MACAPÁ 25 DE AGOSTO DE 1991

sábado, 6 de outubro de 2012

BORDEJOS E PACIÊNCIA

Texto de Hélio Pennafort

helio_pennafort_Hoje em dia pouco se vê canoa à vela. O motor-de-centro, de pequena, média e grande cavalagem, substituiu de uns tempos pra cá o colorido velame que empurrava essas esguias embarcações pela costa do Norte, desde Belém até Oiapoque, numa época em que o abastecimento do comércio da cidade fronteiriça não contava com a BR – 156 nem com os possantes barcos que agora levam mercadorias para os oiapoquenses. O trecho oceânico de uma viagem Belém/Oiapoque, numa canoa à vela, era coberto em 6/8 dias, dependendo da direção e da intensidade do vento. O vento geral era o que facilitava mais o deslocamento da embarcação porque vinha do oceano para a terra. Enchia a vela, dava boa velocidade e fixava a direção da canoa, no rumo Norte (se ia para o Oiapoque) ou Sul (se voltava para Belém). Quando o vento era terral, quer dizer, quer dizer, soprado da terra para o oceano, em determinados momentos havia a necessidade de bordejos em direção à margem. E se o vento vinha do Norte (ou Sul) tanto poderia favorecer como obrigar o bordejo da canoa. Dependendo pra onde ela ia.

Canoa a vela rústicaViajar numa canoa à vela obriga o cara a um sequencial exercício de paciência. No oceano até que a viagem não é tão monótona. O balanço é constante. E só mesmo uma calmaria dessas que chega a irritar os nervos mais controlados é capaz de deixa a canoa ao léu. Mas é raro isso acontecer no litoral. O vento sempre aparece e seja lá de que direção venha, a canoa se movimenta, sacode, sai do lugar. No rio manso, contudo, se a canoa não estiver a favor da maré e a ventania for vasqueira, se prepare para bordejos infindáveis, que vão de uma margem a outra umas vinte vezes pra você ver passar minguados cem metros da margem. É saco. Por isso, mesmo viagens para lugares vizinhos, leva dois ou três dias para se chegar. Como de Cassiporé a Oiapoque, por exemplo. E isso significa dormir a bordo. Dormir uma ova, passar a noite. A gente inveja os embarcadiços acostumados a pegar no sono de qualquer maneira, sem ligar para a maresia ou posições desconfortáveis. Aos desacostumados, o lugar que ainda pode servir para uma cochilada é debaixo do toldo. Só que ali, amigos, o pitiú revolve o estômago do mais saudável avestruz e a ânsia de vômitos não demora nem um minuto a chegar, mormente se a canoa estiver jogando de um lado para outro numa ponta de arrebentação qualquer. O pitiú, é verdade, só existe em canoa pesqueira, mas ele deixa você numa situação tão problemática que não tem outra alternativa senão procurar urgentemente as lufadas de ar em cima do toldo, refrescando o pulmão com vento geral, terral, nortão ou sulão. Aí o estômago se aquieta também.

vila_sucurijuPara ilustrar essa conversa, vamos recordar um pedaço da viagem que fizemos entre a cidade do Amapá e a Vila do Sucuriju, a bordo da canoa “Graças a Deus”. Primeiro fizemos uma escala na Ilha do Maracá para embarque de uma centena de caranguejos que iriam servir de acompanhamento para a arquideliciosa cachaça que levamos em frasqueira. Horas depois enxergamos a Ilha do Jipioca passar lentamente a boreste. A tranquilidade do mar, naquela hora do crepúsculo dava ao piloto João Mota uma segurança tal que chegou a deixar a cana-de-leme para enrolar o terceiro cigarro do dia. “Nunca vi um embarcadiço franzino, molenga, frouxo” – disse enquanto passava a língua na folha do abade. Prosseguiu com a primeira baforada: “Seja na enchente, na calmaria ou na pororoca, é uma coisa só. Eu me orgulho de ser embarcadiço há vinte e cinco anos e não penso mudar de vida. Não me acostumo mais a viver só de pé enxuto”.

Mota está certo. O homem de barra-a-fora pode ser tudo, menos molenga ou medroso, tantas as provações que passa no convívio com o mar. Às vezes em condições adversas, hostis e mesmo temerosas. Ao contrário do privilegiado tripulante do navio moderno, dotado de radar, radiogoniômetro, ecobatímetro e outros sofisticados instrumentos indicadores de qualquer anormalidade, o embarcadiço carece tão somente dar as mãos à natureza aproveitando tudo que ela pode oferecer, desde as lufadas de vento aos lances das marés. E quando algum desses elementos naturais se ausenta, o embarcadiço apela para o misticismo cultivado há tempos pelos homens do mar.

- Como é, Mota, quando chegamos ao Cabo do Norte?

- Sei não a calmaria está danisca.

- Quer dizer que a gente vai precisar aguardar a enchente para prosseguir?

- Vou esperar mais um instante se o vento não vier, a gente assovia...

E por mais que o esperado vento não soprasse, Mota passou uns cinco minutos assoviando qualquer coisa parecida com valsa. A persistente calmaria, no entanto, fez o piloto desistir e esperar a reponta para prosseguir a viagem. Nesse meio tempo, um dos embarcadiços, com claros sintomas de “desarranjos”, reclamava do cozido de bandeirado consumido no almoço. Dei-lhe dois sonrisal, que tomou rapidamente. Pouco depois, sua resistência acabou. Meio encabulado, pediu que as mulheres fossem todas para debaixo do toldo e se acocorou na falca, segurando firme na ensalsa.

Logo a enchente deu sinal. E com ela, vento suficiente para levar a canoa a muitas milhas dali.

(*) Publicado em A Província do Pará – nº 313 – Macapá, 8 de setembro de 1991

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

FORTALEZA: MIL-E-UMA UTILIDADES (*)

fortaleza______ (3)Texto de Hélio Pennafort

O monumento já serviu para muitas coisas. De parque gráfico à praça de esportes. De museu histórico a local de festas. De espaço cívico à improvisação de motel. Isso mesmo. Não foram poucos que procuraram o isolamento e a segurança da Fortaleza de São José de Macapá para literalmente aprofundar o relacionamento com a namorada ou curtir uma transa diferente com qualquer desconhecida conquistada na hora. Inclusive corre a lenda de um casal que chegava ao máximo delírio quando o amor era executado na umidade tétrica das masmorras. Lá mesmo, onde os prisioneiros de priscos tempos vagavam acorrentados, aporrinhados, futricados. E vergados sob o tremendo peso do ambiente e da humilhação. Estranha essa compulsão ao sexo entre os paredões enervantes e fedorentos. Só comparável aos que se escondem no cemitério para remelexos e caquiados.

Pelo que dizem os historiadores, a Fortaleza de São José nunca entrou em ação propriamente dita. Seus canhões não deram um tiro sequer contra invasores que infestavam a costa brasileira. Isso quer dizer que ela cumpriu o objetivo mais importante para o que foi idealizada e construída – amedrontar, inibir os aventureiros e flibusteiros da várias nacionalidades, que andavam por aqui a fim de abocanhar esta povoada gleba extremo-setentrional, assaz cobiçada. E põe assaz nisso.

A sua localização indica que os estrategistas portugueses sabiam exatamente o que estavam fazendo. De onde fica existe um domínio completo da entrada do amazonas de forma que o mecanismo de defesa (e ataque) poderia ser armado e acionado com tranquilidade. Não havia, por exemplo, a possibilidade de o macapaense ser pego de surpresa por qualquer nau aventureira. E como nau alguma apareceu, a Fortaleza de São José só teve ínfimas participações em refregas internas, isso mesmo na condição de presídio. Qualquer confusão que havia por estas bandas, os perdedores invariavelmente eram colocados nas cadeias da Fortaleza. A última vez que usaram como prisão foi durante a revolução de 64. Confundiram o bando de biriteiros e falsos intelectuais como terríveis agentes de Moscou, “comunistas-materialistas-ateus” que só aguardavam uma oportunidadezinha para devorar as indefesas criancinhas que às tardes iam comer pipocas na Praça Veiga Cabral. Tirando as porradas e as dedadas que o bando recebeu, o troço foi levado para o terreno do pândega.

A Fortaleza já abrigou várias repartições públicas. Houve um período e que funcionavam ali o Quartel da Guarda Territorial, o museu, uma sapataria e a impresa oficial, quando lá trabalhavam Wilson Senna, Ezequias Assis, Walter Banhos, Cordeiro Gomes e o competente encadernador Mestre Costa. Foi com o Mestre Costa, aliás, que aconteceu um dos episódios mais risíveis daquela fase. O Governador do Território (Pauxy Nunes) enviou à Imprensa Oficial os originais de um relatório que levaria ao Rio de Janeiro para entregar ao Ministro da Justiça (a quem eram subordinados os territórios federais), na expectativa de conseguir recursos para a região. Tinha, portanto que haver esmeros na encadernação para dar maior beleza ao suplicante calhamaço. E ninguém melhor para fazer isso do que Mestre Costa, que recebeu a papelada, colocando-a em cima da mesa, e foi tomar a habitual dose das 11 horas num boteco que tinha perto da Fortaleza. Voltou em seguida para retomar o trabalho e, espantado, não mais encontrou uma mísera lauda da importante documentação. Procurou desesperadamente por tudo quanto era canto. E nada. Mas aí o impressor de plantão se lembrou de um detalhe e avisou ao atarantado mestre: “Ah, seu Costa, logo que o senhor saiu daqui eu vi o Dengoso Infante comendo uns papéis perto da mesa”. Foi o fim. Dengoso Infante era o carneiro mascote da Guarda Territorial, que desfilava garbosamente nas paradas cívicas e era muito estimado pela turma da Imprensa Oficial que lhe dava papel de jornal para merendar, acostumando assim o bicho a frequentar a redação e a oficina.

Entusiasta da Fortaleza de São José, o governador Janary Nunes fazia realizar ali as solenidades cívicas, os desfiles, e mesmo festas populares. Dois desses momentos de puro civismo vividos pela fortaleza foram a chegada dos restos mortais de D. Pedro I e do escritor gaúcho Joaquim Caetano da Silva, que para quem não sabe foi o intelectual que abasteceu de argumentos o Barão do Rio Branco, que este foi defender a anexação das terras do Amapá ao Brasil, acabando a disputa com a França.

Agora, por decisão do governador Annibal Barcellos, a Fortaleza de São José volta a servir de palco para demonstrações de brasilidade e amapaensismo, festejam-se ali as datas mais significativas do calendário nacional e regional. Barcellos anunciou também a disposição do governo do estado em restaurar o monumento e transformá-lo num recanto de entretenimento e cultura e, consequentemente, num ponto de grande atração turística. A população gostou da iniciativa do governador até porque será a maior beneficiada com a reutilização da bissecular Fortaleza de São José.

(*) Publicado em A Província do Pará - nº 340 – Macapá, 15 de março de 1992

fort4

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

DECLARAÇÃO DE AMOR CABOCLA OU CARTA À NOCA


Hélio Pennafort, é um dos maiores ícones do jornalismo amapaense. Ainda jovem eu saía com ele pelo interior na companhia de Odilardo Lima e Manoel João, o "Papa-arroz", fazendo matéria para "A voz Católica" e para a Rádio Educadora no início dos anos 70.

Numa dessas viagens Hélio colheu (segundo ele!!?) essa bonita declaração de amor a uma cabocla. Trata-se da "Carta à Noca", uma poesia pura apesar de toda a ingenuidade que faz os corações apaixonados dizerem o que dizem. O texto foi extraído do livro "Micro Reportagem", DIO/GTFA, Macapá, 1980.

"AMOR, POESIA E PRECONCEITO"

"Querida Noca

Escrevo-te somente esta porque não aguento mais a cuíra de saber de nossas difíceis notícias, Noca.

Domingo, no ucuubal, como eu te mandei dizer, não deixa de falar comigo, porque eu quero falar contigo, Noca.

Eu gosto do teu amor, da tua paixão, dos teus carinhos, tão bem como o buritizeiro que adora a mãe lua, quando ela tange com o seu clarão as nuvens que não querem deixar o seu luar tocar os brotos das palmeiras, mexer com o siriubal ou alegrar o furo do Jenipapo.

Ainda me lembro, Noca, da primeira vez que te vi na reza da casa do tio Macário. Enxerguei teus cabelos, Noca, clareados pela lamparina, mais bonito do que as espigas de milho da roça do Zé Manduca. Teus olhinhos, Noca, eram uma graça... Brilhavam mais do que duas porongas de pesqueira, na noite escura, chuventa e panema de peixe...

Tudo em ti é belo, linda Noca, por isto eu gosto de ti. E tu também gosta de mim? Quando já... Eu não sou suficiente nem tenho competência para possuir o amor da garota mais faceira que existe em toda a extensão do Cassiporé. Mas espero um dia ao menos poder te tocar, te acariciar, te cheirar, te beijar... Noca".