Mostrando postagens com marcador Cultura; Literatura; Escritores. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cultura; Literatura; Escritores. Mostrar todas as postagens

domingo, 18 de março de 2012

NOSTALGIA‏

Conto de Ray Cunha

Queria andar. A cidade estava calma como sempre. Sentiu fome e entrou num restaurante suburbano. O garçom era um velho magro e acabrunhado, e pela janelinha de passar comida viu outro velho, gordo, a picar alguma coisa. O restaurante era sujo e malcheiroso. Isaías foi embora. Apanhou um táxi e pediu ao motorista que o levasse a um restaurante limpo e alegre. O restaurante Samurai era um prédio de dois andares, sujo e fedorento, quente e mal iluminado, barulhento, e os garçons lembravam urubus espreitando carniça. Saiu. Caminhou lentamente e encontrou uma zona de casas noturnas, mas nenhuma era como estava querendo. Até que topou com a luz que vinha de uma casa, cercada por uma sebe de cróton. Era amarela, recentemente pintada. Fora uma residência e agora era um bar, com tudo bem arrumado e limpo e bem iluminado. Sob a marquise, uma moça e dois rapazes batiam papo. Fluía Monday, Monday, numa cuidada orquestração.
- Boa noite, senhora – disse Isaías à japonesa que o atendeu. Ela o saudou e ele pediu uma cerveja Antarctica. A garrafa estava enevoada e a taça muito limpa. – Dê-me também um sanduíche de filé.
Um rapaz, que só falava em japonês com a velha senhora, começou a preparar o sanduíche. Fazia-o de maneira tão correta que Isaías entreteve-se a vê-lo.
- É muito agradável sua casa, senhora.
- Oh! Muito obrigada! Muito obrigada!
- Se não viajasse amanhã viria mais vezes aqui.
- O senhor não é daqui?
- Sou. Meu pai faleceu e eu vim por isso. Ele foi um dos pioneiros de Macapá.
Enquanto bebia, pensava no pai. Tinha muito charme quando atirava. Nunca perdia um tiro. Quando ele morreu, há muito que Isaías morava em Manaus; isso atenuou o choque causado pela morte do pai. A moça e os dois rapazes haviam saído. A moça era bonita e Isaías desejou tê-la consigo. O japonês começou a arrumar as mesas e esperava para varrer. A mulher pediu desculpa e Isaías também pediu desculpa, pagou e saiu. A noite era um navio à espera num bar qualquer da cidade.


Nostalgia integra o livro de contos A grande farra (edição do autor - Ray Cunha -, Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado).

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Zunidor–Juracy Siqueira e Walcyr Monteiro, em Macapá

juraci_sobral_ceara da cuica

É incrível a semelhança física do Ceará da Cuíca com o Juracy Siqueira. Parecem gêmeos. A historiadora Decleoma Lobato acompanhou os escritores ao Araxá. Na foto com o cantor Manoel Sobral.

walcyr_decleoma_juraci

No show da Élida, revi velhos amigos como os escritores Antonio Juracy Siqueira e Walcyr Monteiro, que conheço desde 1987, de Belém. Foi só um passo para o encontro no outro dia. O Mercado Central e o Norte das Águas foram o cenário desse bate-papo literário.

açougue do juraci

No Mercado Central o filósofo e escritor Juracy Siqueira mostrou o talho que trabalhou quando açougueiro em Macapá, antes de ir definitivamente para Belém.

Zunidor–Quartas Pedagógicas

sarau unifap_alcinea_carla_munhozMuito legal as “Quartas Pedagógicas” da UNIFAP, organizadas pelo professor Adalberto Ribeiro. Na semana passada realizaram um sarau de poesia com a participação do grupo Boca da Noite, liderado pela poeta Alcinéa Cavalcante; Carla Nobre e mais dezenas de aficionados, entre os quais os professores Maneca e Antônio Munhoz Lopes . Muitos declamadores mostraram seus poemas. Ressalto a performance da bailarina Veg Andrade (Curso de Letras) que interpretou um solo sob a música “Lume” (Zé Miguel/Fernando Canto).

O TAJÁ ONÇA

tamba-tajaConto de Moraes Rêgo (*)

Santa era gorda e bonachona. Ridículo era o apelido que carregava por toda a vida: Santinha. Que funcionou enquanto era jovem e delgada. Mas agora até parecia gozação. À medida que Santinha pegava corpo engordando, Januário, seu marido, ia definhando. Emagrecendo. Diziam as más línguas que ela sugava toda a sua energia. Vampirizava-o do emagrecimento excessivo à fraqueza total. Januário acabou por chegar no seu triste fim: a morte. Quando ainda locomover-se com desenvoltura, Januário, que parecia gostar muito de Santinha, deu-lhe um presente que a fez bem feliz: um tajá, para enriquecer a sua já sortida coleção de tinhorões. É bem verdade que Santinha apreciava as plantas em geral. Mas os tajãs eram os seus favoritos entre todos os vegetais. Com o presente de Januário, um tajá onça, verde pintalgado de manchas claras, a coleção de Santinha parecia ter ficado completa. Ali se encontrava o rio-negro, o rio-branco, o cala-boca, o caboco, o mão aberta (do macho e da fêmea), o pena, o sol e o guardará, que uma vizinha implicante insistia em chamar de um raio-de-sol, o tamba-tajá, o “minha” (como Santinha denominava pudicamente o tajá que a cabocada da região chamava de tajá-buceta), o boto, o cachorrinho e o veadinho. Enfim, toda a variedade de tajás conhecidos. De todos ela gostava. Mas os seus favoritos pareciam ser rio-branco e o rio-negro. Plantados respectivamente da casa e no fundo do quintal. Para a proteção. Já que foram devidamente curados. Acontece que, após morte de Januário, a gorda viúva pareceu transferir para o tajá presenteado pelo finado toda a afeição a ele dedicada. Plantou-o na frente do seu terreno. E passou a dar-lhe, com periodicidade, águas de carne. Naquele trecho do Tocantins, corria uma lenda que o tajá onça, sob certas condições, podia transformar-se no felino homônimo. Por isso, os seus vizinhos sempre a preveniam. Quando a viam no seu ritual de regar com água de carne. “Cuidado, dona Santinha! Que ele pode virar a danada!” aliás, na história do povoado, já havia notícia do aparecimento, ali mesmo na beira do rio, de uma ou outra onça. Foragida e acuada por caçadores do centro. Ou esfomeada. À cata de xerimbabos. Um dia, Santinha sumiu. O seu paradeiro ninguém sabia explicar. Ninguém viu sair. Seu corpo não foi encontrado nem nas capoeiras circunvizinhas. Nem na roça. Nem no fundo do rio. Mas havia um trajeto de sangue, que ia justamente da janela do quarto de Santinha, até a touceira do tajá malsinado. O que fez sua vizinha Feliciana concluísse: - “Num disse? Ele virou onça e comeu ela!”, O que provocou a exclamação do Maneco, o gozador vizinho da direita: - “ ÊTA! Tajá porrudo!”, imaginando como imensa mulher poderia ter sido engolida pela minúscula planta!


rego(*) JOSÉ DE MORAES REGO

Artista plástico, professor universitário (UFPA), médico. Fez seus primeiros comentários de Arte em artigos publicados em “A Província do Pará” e “A Folha do Norte”, em 1958. Autor de “pajelança da Vigia”, que mereceu Menção Honrosa no I Concurso de Folclore Amazônico da Academia Paraense de Letras, publicado pelo Governo do estado do Pará, como parte integrante das solenidades comemorativas da Adesão do Pará à Independência (Imprensa Oficial do Estado do Pará – 1973), do ensaio científico “Interpretação de Achados Retoscópios nas Hemorróidas” (Edição do autor – 1974), de “Litolatria –culto das pedras no Estado do Pará”, agraciado com a 1ª Menção Honrosa do 30º Concurso Mario de Andrade da Prefeitura do Município de São Paulo (SP) (Edição do autor-1983) e de “40 Anos de Arte” (Edição do autor – 1986), publicado em comemoração aos seus 40 anos de atividade artística. Autor de cerca de duas dezenas de ensaios científicos, área da Medicina, e de outros, de natureza folclórica, dentre os cais se destacam “O Homem de Murini e sua Medicina Caseira” (Revista da UFPa Belém 1972), “Contribuição aos estudos das Lendas Aquáticas Amazônica”(“O Liberal”, Belém,1975) “Influência Afro-Umbandista Paraenses” (“O Liberal”, Belém,1979), além de mais de trezentos títulos, publicados até o presente, em periódicos locais ( A Província do Pará, O Liberal, o Estado do Pará, etc.) entre ensaios, crônicas e contos, muitas vezes de temática amazônicas, apresentam, quase sempre, um caráter fantástico, transcendental. A seu respeito foi dito: “... é, sem dúvida, um dos nomes de intelectuais de sua geração, que assinam permanência na história da cultural desta terra... “(Ápio Campos). É membro da Associação Paraense de Escritores (A.P.E.), e colaborador da seção de literatura de “A Província do Pará”.

Foto do Tamba-tajá disponível em: http://folhadeorixa.blogspot.com

A POESIA DE ÁLVARO FALEIROS (*)

  hoje não sairemos tarde

automóveis batem no vidro

e nas grades do centro dos edifícios

difícil será romper o asfalto

teremos contudo ainda

segundos de elevador

onze choros piso a piso

o pavor se cai a ligação das redes

mas não desanime

azulejos não esfriam

dentro dos chuveiros


um primeiro espasmo pelas escamas das águas sei dos sopros nos olhos já sem as dores do mundo devorado dos timbres do medo e posso a luz de um mar sem grades / / no berço le parc / revoada no pulso da lâmina ou no ringue ou no chão enviesado de lentes rindo segredos de jardim / jatos de peixe prata feixes de ameba no metal e digo sempre explosão e contra no fogo e mais a cada hora ainda


ave eva

ave ave eva

nave mãe que me navega

nessa indomável cruzada

que se faz do nada ao nada

onde tudo desfeito se reagrega

assim eu satélite ou astro

em ti refeito e semeado

caminho contigo lado a lado

às vezes tímido às vezes vasto

ante a luz que emana ou se reflete

ave mãe leio em teus lábios

um rumo certo para minha era

e se teu leite alimenta a terra

é porque emanas o gesto sábio

de saber-nos todos no mesmo barco

por isso o arco da trajetória

que desenho hoje livre em asa

guarda em si o germe da nossa casa

sem que me pese a âncora da história

pois mãe és pássaro em minha hora

e se agora beijo a tua herança

com a boca em fruto e a mão em verso

é porque te amo intenso e terno

e amo em ti tua eterna esperança

que faz mais bela a nossa dança

soltos neste espaço que nos cerca


hai ku !

se abashô demais

um vento no bambuzal

frio no lago azul


(*) FALEIROS, ÁLVARO

alvaro_faleiros– nasceu no Chile em 1972, e passou a adolescência em Brasília (1984-1990), voltando à cidade de 2000 a 2002 , quando se mudou para São Paulo e doutorou-se em Língua e Literatura Francesa, na USP (2003 ). É professor da Universidade de Brasília (UnB) desde 2004. Como tradutor publicou, entre outros: Latitudes: 9 Poetas do Québec (Noroît/Nankin, 2003 ); O Bestiário, de Guillaume Apollinaire (Iluminuras, 1995 ); Descabelados, de Yosano Akiko (Ed. UnB , 2007), com Donatela Natili; e Caligramas, de (Iluminuras, 1995 ); Descabelados, de Yosano Akiko (Ed. UnB , 2007), com Donatela Natili; e Caligramas, de Guillaume Apollinaire (Ateliê, 2008). Publicou os seguintes livros de poemas: Coágulos (Iluminuras, 1995); Amapeando (Nankin, 1997); Transes (França, 2000), O Retirante que Virou Presidente (Cordel, 2002 ); O Auto do Boi d’Água (cordel, 2003 ) ; e Meio Mundo (Ateliê, 2007) . Como compositor, lançou o CD Água Minha (2003).

http://www.slideshare.net/bnb_brasilia/antologia-salomao-presentation

UM CONTO DE LULIH ROJANSKI (*)

Lulih RojanskyMANUSCRITOS PARA LAURA

No sonho, eu beijava a boca carnuda de Laura. Beijava-a depois de conferir, pelos olhos escuros sob as sobrancelhas bastas, que era mesmo ela. Meus dedos se entranhavam em seus cabelos, percorrendo a circunferência de sua cabeça, e ao mesmo tempo em que a beijava, sentia-lhe o perfume natural do corpo, mesclado a outro cheiro que poucas vezes senti durante toda a vida, e ainda assim, apenas em sonho. Era um cheiro de amor. Ao acordar, o cheiro havia se exaurido, mas a sensação dos lábios de Laura ainda ficou nos meus.

São cinco horas da tarde e recordo o sonho, olhos fechados, recostado na cadeira do escritório, quando Laura entra, sem bater na porta, a mão espalmada impondo os cinco dedos em riste: D. Pedro I teve cinco amantes! Cinco amantes de uma vez só! Peço-lhe que se sente, confuso com a informação repentina. Ela procura obsessiva o isqueiro dentro da bolsa, rosnando um palavrão com o cigarro preso entre os lábios. Anda até a janela, descerra abruptamente as cortinas e encontra finalmente o isqueiro na bolsa iluminada pela luz da tarde. Também da bolsa arranca uma folha de papel amarrotada. Acende o cigarro, me olhando com firmeza, dá uma profunda tragada e depois liberta a fumaça devagar, enquanto se senta na cadeira em frente a minha. Eu sei quando você está mentindo. Eu sempre sei, diz, e embola na mão nervosa a folha de papel, antes de arremessá-la ao cesto de lixo. A bolinha de papel bate na borda do cesto e rola pelo chão, indo encostar-se ao rodapé, abaixo da janela. Laura... balbucio, e ela não permite que eu continue. Levanta-se com violência e sai, batendo a porta, deixando na sala a fragrância que sinto em sonho, misturada ao cheiro de cigarro.

Nos últimos meses, adquiri o hábito de não voltar para casa ao final do expediente, embora na maioria das vezes, ao voltar, precise enfrentar os acessos de fúria de Laura. Às vezes permaneço além do horário rabiscando versos nos papéis destinados a rascunho. Na gaveta amontoam-se folhas com dois ou três parágrafos de contos que provavelmente nunca chegarei a terminar.

Vou até a janela, olho para baixo pela vidraça maculada de impressões digitais, e vejo Laura do outro lado da rua, fumando, recostada sob uma marquise para proteger-se da chuva fiel ao entardecer desta cidade. Assim distante, ela já não me parece tão abalada. O vento lhe agita os cabelos e a chuva lhe respinga a blusa de seda, e imagino que a seda azul e translúcida se cole aos seus seios.

Laura continua bela, a despeito do tempo que lhe conferiu uma austeridade de mulher madura. Dois sulcos indeléveis entre as sobrancelhas hoje definem seu imprevisível humor, mas as formas do corpo são as mesmas de quando a conheci. Com a blusa azul e diáfana, veste um jeans que lhe define a forma harmoniosa das nádegas e coxas...

Atira numa poça d´água o resto do cigarro e ajeita ligeiramente os cabelos. Observa os transeuntes com guarda-chuvas que trafegam diante do prédio. Um homem passa, lhe oferecendo um folheto, e ela lhe dirige um olhar de recusa. Se ele insistir, ela provavelmente lhe fará um gesto obsceno. Ele vai embora, e ela abre a bolsa para apanhar outro cigarro.

Conheci Laura num dia como este, sob um dos aguaceiros de abril. Ela saía com duas amigas de uma loja de discos e segurava nas mãos, entre gestos agitados, risos efêmeros e frases desencontradas, um disco de Bob Dylan. Eu, que saía de uma livraria ao lado, trazia com única companhia um livro de Graciliano Ramos, e lhes ofereci carona para onde quer que fossem. Somente Laura aceitou, despedindo-se das amigas com uma irônica bolinha de chiclete. Chovia ruidosamente sobre o carro e Laura ria sem compostura dos pedestres que se encharcavam na enxurrada. Desde então, sua personalidade caprichosa me impuseram regras que não serviram para mais do que me estorvar a liberdade, tornar-me solitário e sem sonhos aquém do sono, envelhecido antes da hora. Tenho hoje como companhia, meu amor por Laura e meus manuscritos engavetados sobre o tema obsessivo da solidão.

Por muitas vezes, seus ciúmes destruíram os objetos mais caros da casa, rasgaram lençóis e quebraram louças, enquanto eu me refugiava nas madrugadas na rua, para retornar na manhã seguinte, rogando-lhe perdão pelas infidelidades que nunca havia cometido.

Ainda amo Laura, a despeito da intranquilidade que me causam os seus acessos de fúria, sua insegurança, seus caprichos, o modo amargo de me tratar, a despeito do fardo da solidão.

Aos meus pés, sob a janela, a folha de papel embolada. Abaixo-me para apanhá-la, curioso com o conteúdo. É um dos meus contos. Uma história de amor inacabada.

Laura ainda está sob a marquise e a chuva abrandou-se. Aproxima-se um homem de certa elegância, para diante dela e com um galanteio lhe aponta o carro. Ela hesita um instante, olha para cima e me surpreende na janela, a observá-la. Então joga fora o cigarro, e com a mesma ironia da bolinha de chiclete de tantos anos atrás, enlaça o braço que o sujeito lhe oferece, acena-me agitando infantilmente os dedos e entra no carro.


Conto escrito em 1997 e publicado no mesmo ano no jornal “Amapá Literário”

(*) LULIH ROJANSKI nasceu no Paraná, mas mora no Amapá há 25 anos. (“Portanto, já sou daqui”, diz ela.). É escritora, com publicações como “Lugar da Chuva” e “Abilash”, além da participação em oito coletâneas de contos e mais dois livros em parceria com outro autor: “Banco dos Sonhos” e “Castanheiros do Amapá”. É formada em Letras – professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira.

Foto capturada do facebook de Lulih.

sábado, 1 de outubro de 2011

Zunidor - GERARD POLICE

Esteve em Macapá o professor da Universidade da Guyana e Antilhas, Gerard Police realizando trabalho de pesquisa e intercâmbio com a UNIFAP.  Depois de muito tempo se vir por estas bandas Gerard foi conhecer o Curiaú e se deliciar com um camarão ao bafo em fazendinha. Fazia 25 anos que eu não o via, desde que nos conhecemos em Caiena, por ocasião do Festival do Platô das Guianas, em 1986. Police aproveitou e lançou um livro em Macapá, juntamente com o professor Manoel Pinto, que se encontra atualmente em Caiena fazendo seu pós-doutorado.

Livros  de Gerard Police




domingo, 12 de junho de 2011

Suave é a noite‏

Por Ray Cunha

rio flexal_amapá Estou só, na tarde. A tarde é prenhe de mistérios, que desvendo com um olhar para meu jardim. Ele ostenta uma rosa amarela, de Gabriel García Márquez. Visto uma camisa branca de algodão, calças e casaco azuis de linho, e sapatos pretos de couro. Meu rosto está bem barbeado e recendo a Chanel 5, amadeirado, e assim misturo-me aos murmúrios e cheiros da tarde. Fragrâncias de mar, vindas do meu coração, amalgamam-se ao ar saturado do perfume das virgens ruivas. A tarde é azul, tão azul que chora. Ouço os sussurros da tarde como o roçar de lábios de uma mulher de olhos verdes.

Estou só, esta tarde, pois minha amada viajou. Assim, navego no rio da tarde, sozinho, ao encontro da minha amante. Meus passos me levam a um café no Setor Hoteleiro Sul. Há tantas mulheres lindas no café! Duas conversam sentadas em um sofá. Uma é loira e seus olhos são azuis como a tarde; a outra é ruiva, e seus olhos se confundem com esmeraldas. Riem. Seus risos são cristalinos como crianças recém-lavadas, ao sol matinal da primavera. Conversam tão perto uma da outra que seus lábios, grandes e vermelhos, parecem uma dança. Degusto Mateus Rosé. Preparo-me para quando minha amante chegar.

A tarde agoniza. Morre como uma rosa, que, depois de se tornar a joia mais delicada, preciosa e bela do mundo, deixa um eterno rastro de luz. Assim desliza o rio da tarde. Logo a cidade será um transatlântico todo iluminado, e as criaturas mais esplendorosas do universo, que são as mulheres, espargirão seu perfume, como jasmineiros em tórridas noites em Belém do Pará.

Uma jovem mulher passa ao meu lado, quase roçando em mim. Volto-me para vê-la. É uma negra em vestido de seda, tal qual uma que vi na Estação das Docas, em Belém. Talvez fosse da Guiana Francesa, ou de Trinidad e Tobago, ou da Martinica. Falar em Martinica, se Hemingway estivesse aqui comigo eu o convidaria para pescar ao largo de Sucuriju, no Amapá. Bem que Fernando Canto poderia estar comigo nesta tarde, que morre. Mas o poeta tem suas próprias tardes, que são, certamente, prenhes do perfume das virgens ruivas, e mar. O poeta decifrou a dimensão da intensidade e tem olho clínico para o cheiro de maresia.

Não tenho nem um, nem outro, nem a mulher amada. Só me resta esperar mais um pouco para cair no colo da minha amante. Ela chega suavemente, e, quando a percebo, sua paradoxal luz ofuscante entra nos meus sentidos e me conduz à dimensão do primeiro beijo. Mas nunca estamos preparados. Minha amante é puro mistério, e é também amante de todos os homens e, principalmente, de todas as mulheres. Ela é a mais bela das rosas; é a noite.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

ADEMAR AMARAL

livro ademar Publico aqui uma crônica e um conto do escritor amazônico Ademar Amaral para o deleite do leitor do blog. Considero o seu “Catalinas e Casarões” um dos mais belos e importantes escritos memoriais que conheço feitos na Amazônia, uma espécie de romance familiar carregado de realismo e beleza construtiva, até pelos extratextos que permeiam as saborosas histórias nele contidas (F.C.).

Ademar Ayres do Amaral nasceu em Óbidos, na casa de número 10 da famosa Rua do Bacuri, nos altos da renomada Farmácia Esculápio do seu avô materno, o boticário português, José Cardoso Ayres. Filho da professora normalista, Ana Ayres do Amaral (a professora Santana) e do fazendeiro Areolino Araújo do Amaral, com dias de nascido foi viver com os pais na fazenda São Braz, no Paraná de D. Rosa, onde passou a sua infância. Lá aprendeu as manhas da pescaria, o amor pela natureza e as primeiras letras na escola estadual comandada por sua mãe. Posteriormente foi morar em Óbidos, com o avô Ayres, e frequentou as escolas particulares das professoras Cora Simões e Glória Corrêa Pinto. Aos 10 anos foi para Santarém estudar por seis anos no Colégio Dom Armando. Em 1964 mudou-se para Belém onde concluiu o segundo grau no colégio Nossa Senhora de Nazaré e prestou vestibular para a Escola de Engenharia da UFPA, diplomando-se engenheiro civil na turma de 1972. Ávido leitor, começou a rascunhar seus primeiros contos e crônicas em 1976. Em 1980 recebeu menção honrosa em concurso literário da Academia Paraense de Letras. Premiado na APL, passou a colaborar com o PQP, um jornal que surgia em Belém aos moldes do Pasquim. Em 1984 publicou seu primeiro livro, A Encomenda e o Deputado. Atualmente é cronista dos jornais A Folha de Óbidos e Uruá-Tapera, além de colaborar no site Portal de Óbidos. Em 2005, recebeu o prêmio Terêncio Porto, na Academia Paraense de Letras, com o livro “Tartarugal” (ainda inédito) e em 2006 ganhou o 1º Lugar no concurso de contos do clube Assembleia Paraense, com Estirão Sem Fim. Ademar Ayres dos Santos lançou Catalinas e Casarões, obra que traça o painel de uma época marcante na história do Baixo Amazonas.

foto1 ademar

ENCONTRO COM JACK KEROUAC

Ademar Ayres do Amaral (ademar@amazon.com.br)

Nada de grupos. Não sou e nunca serei gado. (Paulo Francis / O Pasquim, Antologia)

Nos anos 60, já um leitor voraz de Machado de Assis (acho Quincas Borba um dos maiores romances da literatura mundial), escutei muito sobre um tal Jack Kerouac. Para mim, o que falavam era apenas isto: que era um escritor americano maluco e que, ao escrever sobre suas aventuras de andarilho e carona, nas estradas do Tio Sam, acabou se tornando guru de uma geração rebelde que passava ao largo da sociedade dita de consumo. Também chamado de geração beat, esse time encontrou no escriba o catalisador de seus mais íntimos anseios, acabando por desembocar no que ficou conhecido como movimento hippie. Os anos passaram, o movimento hippie foi enfraquecendo e sendo engolido pela mesma sociedade de consumo que ele contestava, e eu acabei esquecendo de Jack Kerouac na poeira do tempo.

Mas, em julho de 2001, eu tirei trinta dias de férias, juntei uns dólares, negociei com a minha esposa (claro, sou bem casado há 35 anos), e me mandei sozinho pra Boston, no Estado de Massachusetts. E por que a escolha de Massachusetts? Ora, porque fica na região dos Estados Unidos conhecida como Nova Inglaterra, é o berço da civilização americana, da guerra pela independência, e Boston, além de uma cidade linda, é cheia de museus fantásticos, sede da famosa Harvard University e do MIT (Massachusetts Institute of Technology), esta tida como a melhor escola de engenharia do planeta. Enfim, um montão de coisas extraordinárias que eu aproveitava para me fartar nos meus fins de semana. Fui morar sem mordomia no grandioso campus da Tufts University, onde tinha aulas de inglês das 8 da manhã às 3 da tarde, e era obrigado a fazer duas coisas que eu sempre detestei na minha vida: lavar roupa e fazer faxina no quarto. Meu cômodo, sem banheiro, media uns dois metros de largura por três metros de comprimento. Tinha uma cama estreita, espaço para pendurar minha roupa, e uma escrivaninha com abajur para preparar um caminhão de exercícios todas as noites. Os banheiros eram limpos, mas coletivos. No meu andar havia dois banheiros femininos e dois masculinos. E durante as férias americanas, são muitos os estudantes do mundo inteiro que se hospedam por lá. Então, não era nada estranho a gente tentar usar um rest room e ouvir o clássico aviso: “It’s busy!”

Na minha turma havia quatro franceses, três italianos, três coreanas, uma israelense, uma alemã (a Frida), um saudita, alguns argentinos, uns colombianos e apenas uma brasileira de Itabira, Minas Gerais. Uma tarde, depois da aula, eu e o grupo dos franceses resolvemos organizar uma pelada entre nós, misturando homens e mulheres, no campo de futebol da Universidade. As meninas toparam, nós dividimos os dois times e eu, que tinha idade para ser pai da galera, pedi, por pura malandragem, para jogar na lateral direita, marcando a alemã na ponta esquerda. Foi a minha desgraça. Mal o jogo começa, uma bola é lançada para a Frida. Ela veio como um bólido na minha direção, passou por mim feita uma bala, e marcou o primeiro gol. Logo em seguida, outro e mais outro, tudo da Frida e pelo meu lado. Cansado do banho e temendo um vexame maior, logo fingi uma contusão e fui servir de juiz o resto do jogo. No fim, conversei com a Frida para saber como ela tinha aprendido a jogar aquele futebol de craque. Ela, sorrindo, me explicou que era juvenil titular do time feminino do Colônia.

Pois bem. A aula que nós mais gostávamos era a do horário da tarde, porque logo tivemos uma natural identificação com o professor. Era um cara jovem, muito aberto e estava fazendo mestrado em antropologia. Ele nos fazia ler e discutir textos de um livro sobre episódios da história americana, principalmente fatos acontecidas naquela região da Nova Inglaterra. Um dia, ele deixou o livro de lado, e nos entregou uma folha de papel, contendo um texto de Jack Kerouac. Também nos disse que o texto foi tirado do livro, On The Road, e que o autor, antes muito criticado pela maneira nova e um tanto bagunçada de escrever, já era tido como um dos maiores da literatura americana. Passamos duas horas lendo e interpretando, e eu logo me interessei em ler o livro, mas o professor me desaconselhou porque o inglês usado era cheio de regionalismos e gírias (slangs), o que tornava a leitura difícil para um não nativo.

Terminado meu período em Boston, viajei de volta ao Brasil com o firme propósito de encontrar o On The Road traduzido para o português, porém minha busca foi infrutífera, porque a única tradução que havia era em espanhol e só na Argentina. Pois em uma das minhas tantas viagens, naquela horinha antes do vôo que eu sempre uso para vasculhar a livraria dos aeroportos (sou tarado em livrarias), eis que dou de cara com On The Road, e outros volumes de Jack Kerouac. Trata-se de uma bem feita edição de bolso, da Editora L&PM POCKET e me custou o preço módico de dez reais. Li o livro num tapa. Nas suas 380 páginas conta a história de dois amigos, Sal Paradise e Dean Moriarty, que saem de carona pela estrada Rota 66, e atravessam os Estados Unidos desde New Jersey até a Califórnia. O livro traz ainda uma mini-biografia de Jack Kerouac e um excelente comentário de Eduardo Bueno. O volume foi escrito em 1947, sendo recusado seguidamente em inúmeras editoras, até ser aceito e publicado dez anos depois, em 1957. Apenas como curiosidade, vejam este interessante trecho da página 151: “Para se conservar aquecido, Dean usava um suéter enrolado nas orelhas. Disse que éramos um bando de árabes chegando para explodir Nova York”. Vejam bem: isso foi escrito em 1947. Não parece previsão do 11 de setembro?

Como nos relata Eduardo Bueno no seu excelente comentário, On The Road foi a glória e a danação de Jack Kerouac. Ele acabou aos 47 anos, solitário e entupido de drogas, porém sua obra causou uma verdadeira revolução cultural no mundo. O jovem roqueiro, Bob Dylan, fugiu de casa depois de ler o livro; nosso cineasta, Hector Babenco, também. E há os que afirmam que, sem Jack Kerouac, os Beatles não teriam acontecido.

Eu ainda não fugi de casa, mas achei o livro um grande barato. Não me arrependo da feliz descoberta que fiz do autor, quase que por acidente, naquela distante e inesquecível aula de inglês, em Boston. Para o meu gosto, e gosto cada um tem o seu, Kerouac pode não ter sido tão bom escritor como foi Trumam Capote, mas era um cara que escrevia diferente, e que virou a literatura americana de ponta-cabeça, como também fizeram o próprio Capote (In Cold Blood), Falkner, e o grande Ernest Hemingway.

EMANCIPAÇÃO

Ademar Ayres do Amaral (ademar@amazon.com.br)

Sexta-feira. Luiza tinha ido embora sem bilhete nem até logo. Acabado, Gusmão assiste da janela as primeiras luzes da cidade. Olha o copo vazio, tremenda, bruta fossa. Entorna mais bebida no copo. O bar da esquina já recebia os primeiros visitantes, homens vindo do trabalho, e tomando uma loura suada antes da esposa. Súbito, do marasmo, é despertado pelo telefone.

-Alô.

Pausa longa, parecendo trote.

-Alô, quem é?

Do outro lado, a voz tremida, ansiosa, quase um sussurro.

-Gusmão, sou eu, a Mary.

Ele sentiu a cabeça estalar. Sintoma normal quando a raiva aflorava. Despejou:

-Maria das Dores?- acentuou o "das Dores".

-Gusmão, pelo amor de Deus...

-Ah, Maria, vê se não enche minha paciência!

O convite vem em forma de súplica.

-Gusmão, eu preciso falar com você.

-Não quero papo, você desencabeçou a Luiza!

-Gusmão, eu estou aqui no Cosanostra, é minha vida que está em jogo, nosso futuro, nosso destino.

-Nosso? Ora, vai à merda! Vida por vida, você já estragou a minha!

Mary começa a chorar.

-Gusmão, vem, por favor, ou você vem ou eu me mato!- e desliga.

Pensativo, Gusmão põe outra dose no copo, reflete, resolve:

-Pois vou. É tempo de dar umas bolachas nessa tal de Mariazinha.

Sai bufando de raiva em pleno rush, levando e devolvendo desaforos. Após várias voltas no quarteirão, finalmente encontra uma vaga pro carro. Entra no Cosanostra e manja o ambiente: casais nas mesas, amigos no balcão jogando conversa fora e tomando chope com música convidativa. Avista Mary, num canto, fumando nervosamente. Senta. Pede dois chopes. Ficava de certo modo desconcertado quando encarava Mary de frente. Mesmo sendo contra as suas idéias de emancipação, nutria por ela um grande desejo carnal, um secreto desejo. E num vestido justo e cheio de decote, Mary estava super tesuda naquela noite. Entrou de sola:

-Fala, Mariazinha!

-Olha o ambiente, Gusmão, não faz escândalo.

-Então fala logo!

Mary toma meia caneca de chope com tira-gosto de coragem.

-É sobre tua separação.

-Onde está minha mulher?

-Em Carajás, na Serra dos Carajás.

E explica com espuma na boca:

-Arranjei emprego pra ela, bem longe...

Gusmão agarra-lhe os pulsos.

-Ainda arrebento contigo!

Mary desaba chorando.

-Gusmão, fiz por nós, por mim, eu te amo, sempre te amei.

E beija as mãos dele com ternura desmedida como se fossem as mãos do arcebispo.

-Afastei ela de ti, será que tu não entendes?

Diante dessa inesperada revelação, a raiva inicial dele foi pras cucuias. E vários outros goles de chope e muitos cigarros, os dois, ali no aconchego do local, chegaram à bendita conclusão que tinham sido feitos um para o outro. Acabaram desesperadamente num luxuoso motel da cidade.

Passada uma semana, no sábado, Gusmão acorda às dez depois de uma tremenda noitada a dois. Tateia ainda sonolento o lado direito da cama, buscando costela no frio do ar condicionado. Toca num corpo nu e macio. Desliza a mão.

-Gusmão...

-Mary, chega aqui, dá uma costelinha.

Ela se enroscou nele e deu não só a costela, deu tudo. Em seguida, felizes e aplaudindo a vida, foram pro chuveiro e tomaram um banho demorado na base do afago. No mesmo instante, em Carajás, a emancipada Luíza levava uma tremenda dura do chefe e já lutava pra sobreviver.

domingo, 18 de outubro de 2009

OS VELHOS E “O VELHO”, DE RUI GUILHERME

ovelho_rui_guilherme

O livro “O Velho” (Scortecci. S. Paulo, 2009), de Rui Guilherme, traz à tona um problema que atinge alguns milhões de brasileiros, com suas mazelas pessoais e o drama do abandono, no conto que dá título à obra.

O autor toca num ponto crucial ao falar das doenças da velhice e dos episódios de saudade que o principal personagem sofre no contexto ficcional, desenvolvido em flash back. Aliás, o verbo lembrar, recorrente no texto, demonstra sempre situações de relações sociais “do tempo do velho”, como os divertimentos e lazeres e formas meio puritanas de falar: um certo estado de pureza, mormente quando a paixão retraída fazia do velho “um menino com um coração de poeta”, diz o autor.

A trágica situação psicológica vivida pelo personagem, como veremos adiante, remete à situação de que o mundo está envelhecendo rapidamente devido a diversos fatores. Dados do IBGE (PNAD:2003) demonstraram que a população brasileira, a partir de 60 anos ou mais representava 9,6% da população total. As projeções demográficas para 2020 sugerem que o Brasil terá 32 milhões de idosos, ou seja, 15% de seu contingente. Com isso, atualmente se desenvolvem inúmeros processos que fazem da velhice um quadro estonteante.

A mídia, por exemplo, lança o estereótipo de que o idoso é um sujeito emancipado e com o espírito jovem. Daí o cuidado com o corpo se torna a principal preocupação dos indivíduos, que por isso vão buscar uma “aparência mais aceitável”. Assim, se concebe a idéia de que a velhice não é mais uma condição física, biológica e psicológica, mas uma questão de escolha, coisa que pode ser evitada a todo custo.

Para Santos, Moreira e Moreira (Unisuam:2008) a nova relação com o corpo propicia uma nova significação com o envelhecimento e, consequentemente, com a longevidade. Há, segundo esses autores, um intenso movimento de “retorno à jovialidade”, que assume um papel central nessa nova identificação para o idoso. Esses “jovens velhos” ganham perante a sociedade uma nova representação que difere explicitamente daquela elaborada em décadas anteriores.

Não é o caso do personagem do conto de Rui Guilherme que, aborrecido com o mundo, joga os exames geriátricos no lixo e quebra o cartão do plano de saúde. A realidade, hoje, é que os consultórios médicos do mundo inteiro estão repletos de idosos que procuram não só a medicina terapêutica, mas também soluções estéticas. É crescente o número de idosos que se submetem às cirurgias plásticas guindados pela mídia. Ela reforça o comportamento dos idosos ao relacionar beleza, juventude e vigor. E o capitalismo tomou essa parcela da população como um forte mercado consumidor, cuja demanda por produtos estéticos, sexuais e por novas maneiras de prolongar a vida é cada vez maior.

O velho, simples em seus hábitos, convivia com fantasmas. Desprezava os sonhos míticos da humanidade tais como a imortalidade e a eterna juventude, ao passo que os idosos atuais vivem num período em que a expectativa de vida cresceu e que a longevidade está relacionada a condições de vida saudáveis, como as práticas de esporte, alimentação saudável, e de novas formas de lazer e entretenimento.

“O Velho”, de Rui Guilherme, talvez retrate uma faixa de pessoas que certamente abandonaram suas famílias, em vez de serem abandonadas por ela. É a história de um aposentado que queria a morte, pois achava que não valia mais a pena viver. É uma história do ponto de vista psicológico um tanto cruel, centrada num episódio fisiológico, traumático para o velho, que pode acontecer com qualquer um. Fato real, mas trágico. Daí a sacada do autor para enfatizar o aspecto mnemônico do personagem e com isso chamar a atenção para o tema da velhice.

Quase coloquial devido às falas e diálogos dos personagens, o texto é permeado por uma narrativa densa e rebuscada, mas que se comunica com o leitor e o leva a procurar saber o desfecho do drama. Os outros contos, tangentes à vida e aos sonhos do autor, também refletem/refratam as (des)memórias do cotidiano e as (i)realidades (im)possíveis. Leia. Faz bem. Você vai gostar.