domingo, 4 de outubro de 2009
Laguinho em festa!
GRACIAS A LA VIDA, MERCEDES
Com a voz forte de Mercedes Sosa aprendi a gostar das músicas latinas e, sobretudo, a entender o processo revolucionário que corria nas veias dessa argentina forte, de aparência indígena.
NOVA LUZ PARA O MARABAIXO NO CÍRIO DE NAZARÉ
Círio de Nazaré completa 75 anos em Macapá. Este ano a Igreja reaproximou-se do Marabaixo e traz outras novidades no aspecto cultural. (Foto do Círio de 2008). Acervo: Fernando Canto
Dom Aristides Pirovanno, primeiro bispo de Macapá, porvolta de 1980. O eclesiástico fazia grande trabalho social com os hansenianos da
Colônia do Prata-PA. (Acervo: Fernando Canto)
Sob o slogan "Maria, Mãe da Justiça e da Paz", a festa da padroeira da Amazônia traz em suas peças publicitárias homens e mulheres afrodescendentes dançando Marabaixo em volta da imagem da Virgem. Uma atitude que até há pouco tempo seria impossível, devido a uma antiga antipatia que o catolicismo local nutria em relação aos fiéis da Santíssima Trindade e ao Divino Espírito Santo.
As manifestações religiosas populares sempre foram mal vistas pelos missionários estrangeiros. Eram consideradas profanas, pois ao lado dos seus rituais "celebrados" pelos agentes laicos do sagrado, havia sempre algo que desvirtuava aquela celebração de homenagem aos santos. E ainda hoje ocorrem eventos paralelos que lhes dão as significações culturais mais importantes, como a dança e a música.
Evidentemente que uma festa de santo não se realiza apenas para louvação ou pagamento de promessa, mas marca um território de comercializações, de relações sociais que se legitimam principalmente entre homens e mulheres, pela diversão e lazer, como ainda acontece nas festas tradicionais das comunidades ribeirinhas. Entretanto, esses eventos internos à festa eram vistos como degeneração, por causa da liberação da cachaça, das libações, do erotismo das danças e pela intensidade dos batuques, cujos tambores provocariam incorporações – uma lembrança religiosa das etnias africanas, mas, aos olhos ocidentais, coisa do diabo.
Muito já se falou sobre isso e inclusive até bem pouco tempo o pároco da igreja de São Benedito, do Laguinho, um dos bairros onde o Marabaixo se realiza, provocou uma celeuma com os realizadores da festa deste ano. O fato foi parar nos meios de comunicação e ganhou grande e negativa repercussão para a Igreja.
A presença do padre Aldenor Benjamim no "meio de campo" fez com que as coisas se revertessem sobremaneira. Como é nativo daqui, compreende que valorizar a cultura também é uma forma de evangelizar. E essa cultura católica já está há séculos incorporada pelo povo, graças à evangelização dos missionários do tempo da Colônia e do Império. Não é para menos que a grande maioria dos "ladrões" antigos do Marabaixo traz sempre reverência aos santos, incluindo nos "dobrados" (parte mais rápida da dança). E não dá para confundir Marabaixo com Umbanda (ou com Macumba), como querem alguns desavisados. Umbanda é religião afrodescendente e não ritual folclórico. E seus deuses são deuses como os de qualquer religião. Ninguém pode condenar suas práticas ritualísticas irresponsavelmente.
Tanto o slogan como o sentido da festa deste ano trazem a Paz como referência. Por isso mesmo que se há de pregar a tolerância como ação desafiadora dos novos tempos, assim como vi o padre Paulo Roberto pregar em seu sermão para servidores da UNIFAP. Ele quis dizer que seria ótimo se pensássemos em enxugar conceitos que resistem em nós como cascas irremovíveis; se escutássemos a voz do coração para atentar aos nossos gestos intolerantes que inconscientemente fazemos no trânsito, no trabalho e em casa. Um humílimo gesto de indulgência mudaria muita coisa e contribuiria para a paz universal.
A atitude da Igreja em reconhecer a cultura popular como elemento que caracteriza a identidade amapaense, não significa que seja uma remissão histórica, simples retratação ou resgate cultural. Nem é um "mea culpa". A meu ver é uma incorporação consciente de valores populares locais, já que há quase um século esse mesmo povo foi afastado oficialmente da Igreja num processo aparentemente discriminador na história do catolicismo no Amapá. E é sempre boa a volta do rebanho.
Consta da programação oficial a apresentação da bateria de escolas de samba nas procissões, e de grupos de Marabaixo, a caráter, dentro da Catedral. Um novo CD ciriano foi gravado com ritmos do folclore amapaense e, além disso, o manto da Santa está sendo confeccionado com ornamentos da iconografia Maracá-Cunani.
Um avanço! Coisa que só mesmo a Mãe da Justiça e da Paz pode realizar dentro do coração dos homens.
sábado, 3 de outubro de 2009
É Big! É Big!

Aniversário do meu amigo e parceiro Nivito Guedes (04/10). Muitas felicidades e muito sucesso.
Reproduzo a letra de uma de nossas tantas parcerias:
MISÉRIA HUMANA
Fernando Canto / Nivito Guedes
Virada da noite
No meio do mundo
Um dedo em riste
Aponta num bar
Soa uma voz de gralha poedeira
Mas o artista que vaga
Sabe que a nódoa e a violência
Não fazem parte a essência
É necessário pra vida o ar
Não adianta a amizade do rei
Mas o artista não cai no vazio
Vai nos cantos da noite e sorri
Vagando o cosmo e os espaços
Vive um universo em negros buracos
Que absorvem o medo
Sugam a luz
E nem ligam pra miséria humana
Vil
COLUNA CANTO DA AMAZÔNIA
Seu corpo foi velado na sede da Escola de Samba Bole Bole, que ajudou a fundar na década de 1980. Em 1986 estivemos juntos para ver os trabalhos de confecção de barricas e a ornamentação do "Boi de Ouro", que o Emanuel Oliveira trouxe para cá. Nazareno também era um dos fundadores do boi "Pavulagem", que até hoje faz arrastão cultural em Belém, levando milhares de pessoas às ruas, num verdadeiro cordão de cores e muita alegria na época do Círio.
KAROL ECLÉTICA
Logo mais, depois das 22h00 a cantora Karol Carvalho estréia show musical no badalado bar F-1, ali na esquina da Tiradentes com a Mendonça Furtado.
A cantora vem com um repertório que abrange MPB, pop rock e música internacional, e já vem preparando seu disco a ser divulgado no início do próximo ano com músicas de sua autoria e de outros compositores locais. Será "um disco eclético", disse ela.
A iniciativa é do empresário Alcides Moura, novo proprietário do bar, que pensa em preencher a lacuna da falta de música ao vivo na noite macapaense e está com um monte de idéias boas para realizar.
CICLO DE ARTES VISUAIS
Nos dias 08, 09 e 10 de outubro a Coordenação de Artes Visuais, juntamente com a PROEAC, da UNIFAP, realizarão o "1º Ciclo de Experiências e Mediações em Arte, Ciência e Educação: Apre(e)ndendo a Realidade da Realidade".
O Ciclo tem por objetivo o compartilhamento de temas transversais sugeridos pelos Parâmetros
Curriculares Nacionais – PCNs – que constam na Lei de Diretrizes e bases da Educação.
Na ocasião haverá palestras, mini-cursos, pôsteres, imagem e ensino na contemporaneidade, currículo pós-estruturalista, vídeos de prática de ensino, música regional e obras de arte.
O simpósio acadêmico terá 30 horas e as inscrições terão um custo de R$5,00 para estudantes e R$10,00 para professores.
MAESTRO MANOEL
Consta do livro de Vicente Salles "Música e Músicos do Pará" (Secult: 2007) o verbete abaixo: "Cordeiro, Manoel Fernandes. Violonista, compositor, produtor. Ponta de Pedras/PA. Mudou-se ainda criança para Macapá, onde iniciou aos 15 anos as atividades musicais. Aprendeu a tocar violão com o pai. No início dos anos 70 chegou a Belém e começou a tocar na orquestra de Ely Farias, na qual ficou por três anos.
Em 1976 tornou-se funcionário do Banco do Brasil, desenvolvendo, paralelamente o trabalho de arranjador. Nessa qualidade seu nome aparece em mais de 250 discos. Por volta de 1986 voltou às atividades de músico da noite, tocando na banda Realce e posteriormente no Esquema Central, que se transformou em Banda Biss. Em 1983 montou sua própria equipe de gravação, cuja base era a banda Warilou, que o acompanha até hoje (1986). Em 1991 gravou na fábrica Continental com a banda Warilou seu primeiro CD, Socca, Zouck e Cacicó (ritmos do Caribe). Em 1997 lançou o quinto CD, Todos os Ritmos, com o repertório típico da Warilou: ritmos diversos como socca, zouck, cacicó, merengue, lambada e forró".
O maestro encontra-se em Macapá e seu currículo ampliou muito depois disso.
MÃE DOS CARANGUEJOS
Dona Domingas, personagem do livro "Uma Aventura no Bailique", de Decleoma Lobato Pereira, conta que aconteceu o seguinte com sua sobrinha: "logo depois que ela menstruou pela primeira vez, começou a aparentar sintomas de gravidez. Sentia muitas dores. Os pais diziam que ela estava grávida. Ela chorava e jurava que não. Falava que ainda era virgem. Os pais não acreditavam. Aí ela foi para Macapá. Os médicos disseram que não iriam operá-la porque não se responsabilizariam pela vida dela. Então ela disse: "Bem, já que eu não tenho o apoio dos meus pais e já estou para morrer mesmo, pode fazer a minha operação". Aí, operaram-na e o que encontraram dentro foram dois caranguejos! Um pesou dois quilos e meio e o outro pesou um quilo. Se ela não faz essa operação, por coragem própria, ela tinha morrido porque faltava isso assim para as unhas dos caranguejos encontrarem umas com as outras no espinhaço dela".
ZUNIDOR
Amanhã tem festa no Curiaú. É o aniversário do Pedro Bolão./ É amanhã também a festa de aniversário do bar do Abreu, na FAB./ Jorginho do Cavaco estréia o "Samba de Jorge", a partir da 16h00 deste sábado no Terraçu's Bar, na Diógenes c/ Jovino Dinoá./ Ocorrerá brevemente o I Congresso de Ciências Sociais do Amapá, com o tema "História e Sociedade da Amazônia". As informações podem ser obtidas no site http://www.pracs.com.br/. Inscrições na Coordenação de Ciências Sociais da UNIFAP e o prazo para recebimento de trabalhos é até dia 10/10./ Estava previsto para chegar ontem o novo CD de Patrícia Bastos. Segundo o Rogério ela viria trazendo os exemplares na mala, já que a gravadora ainda não tinha mandado pelo correio./ Vem aí o livro "Adoradores do Sol"./ A excelente quadrilha "Tradição", do bairro do Laguinho vai homenagear o Grupo Pilão no Concurso de Quadrilhas promovido pelo Governo do Estado no ano que vem. O tema é: "Pilão, a Força do Canto Tucuju"./ Hoje tem o projeto "Canto de Casa" da AMCAP, no SESC Centro. Amadeu Cavalcante se apresenta com a filha, a partir da 21h00./ Será amanhã, na ASEEL, a posse da nova diretoria do SINDUFAP./Inderê. Volto zunindo na sexta-feira.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
É BIG! É BIG!
Em sua homenagem inauguro MP3 no blog.
Eis a letra:
MEU ENDEREÇO
Letra de Fernando Canto
Música de Zé Miguel
Intérprete: Zé Miguel
Meu endereço é bem fácil
é ali no meio do mundo
onde está meu coração
meus livros, meu violão
meu alimento fecundo
A casa por onde paro
qualquer carteiro conhece
é feita de sonho e linha
que brilha quando anoitece
Na minha casa se tece
mesura na luz do dia
pra afugentar quebranto
na hora da fantasia
É fácil o meu endereço
vá lá quando o sol se pôr
na esquina do rio mais belo
com a linha do equador
domingo, 27 de setembro de 2009
A NOITE E A CRUZ DOS HOMENS
Quantas histórias não contam sobre aqueles que morrem logo depois de se despedirem? Parece que sentem que foram sentenciados a cumprir a pena capital. Então suas histórias atravessam o tempo e se desenham no espanto de familiares e amigos.
Assim foi com Bazinho, o simples professor Erivan Batista. Simples no vestir e na modéstia, mas um esplendoroso pensador sobre as coisas da Amazônia, pois traduzia na prática diária a esperança de dias melhores para as crianças da Escola Municipal Roraima e as envolvidas nos projetos culturais da escola de Curralinho, da área do Quilombo do Curiaú.
Da labuta dos dias tirava a poesia das composições que estava prestes a gravar em um CD, projeto pessoal a que se referia recorrentemente. Falava do folclore, da natureza e dos homens como ele, oriundos de humildes aglomerados de afrodescendentes desta vastidão amazônica: produtos históricos de nebulosos eventos colonizatórios, de cruéis processos de construção e de abandono dos poderosos. Aos quarenta anos Bazinho tentava romper o estigma da educação formal ao levar, como professor, a música como irresistível instrumento educacional para as crianças da periferia da cidade, tentando oportunizá-las a terem sonhos mais amplos e mais bonitos.
Embora cantasse suas músicas nos encontros semanais com amigos, ninguém se preocupou em gravá-las. Apenas ele sabia as melodias do seu sonhado CD. Entretanto, a morte veio fazer-lhe a visita no meio da noite, engendrando em seus sonhos todas as angústias e o engano prolongado até à agonia do último alento. Veio envolta em uma cortina sombria, talvez a cavalo, pois certamente, lá fora, o barulho dos carros da cidade eram os tropéis equinos que ouvia nas pradarias das fazendas obidenses ou, quem sabe, alucinantes motores dos barcos que acompanham o Círio fluvial de Nossa Senhora de Santana. Na beira do Amazonas os fogos estariam a explodir, rasgando o véu da noite como estrelas diáfanas, efêmeras, mas que por belos momentos deixaram suas marcas nas íris dos fiéis. E ela veio rápida, incisiva e abrupta, para interromper a música da vida.
Nas vezes que esteve em minha casa falava sempre em nossa terra natal. E por duas vezes cantou e acompanhou ao violão os hinos da Santa na sua peregrinação à Macapá, onde inclusive, um dos mais alegres cânticos era de sua autoria.
Tive grande satisfação em encontrá-lo em Óbidos em minha visita de encontro com a memória, em julho. Estava na Praça do O em companhia do meu amigo Eduardo Dias. Daí em diante tornou-se companhia agradável em vários momentos de minha estada ali, como no baile da Arpa, na Alvorada e nos bingos da Barraca da Santa. Não posso esquecer quando subimos a Serra da Escama, juntos com Alacid e Eulice, pelo puro prazer de "explorar" um ponto quase inacessível da bela Cidade Presépio. E ele ali nos ajudando na subida íngreme; na chegada ao topo, onde repousam os canhões abandonados da Fortaleza Gurjão; e na descida, empurrados pela lei da gravidade. Depois a espera em vão da bajara contratada para nos buscar e a providencial canoa do menino que ouvira nossos gritos do outro lado do lago. Em seguida o andar equilibrado nas estivas até a recompensa de banhar-nos nas gélidas águas do igarapé Curuçambá.
Descubro mais tarde que esse topônimo pode ter seu significado nas palavras "curuçá", que era como os índios pronunciavam cruz, e em "abá", designação para o índio, o homem, a pessoa. Seria então, ouso dizer, "a cruz dos homens", aonde possivelmente uma história de dor tenha ferido aquele paraíso amazônico, onde todos nos banhamos e não fomos nunca mais os mesmos depois disso. No lugar, creio eu, rondam quebrantos e mistérios, entes, elementais, caruanas e anjos, estes que talvez tenham anunciado a chamada de Bazinho para o Oriente Eterno.
Então ele partiu para a noite insondável em busca do renascimento, cujo ciclo Buda comparou a uma chama sendo passada de uma vela para outra, em vidas que se iluminam sucessivamente, como o sol que se acende no horizonte; faz seu giro, morre em nuvens de sangue e volta triunfante em sua luz.
COLUNA CANTO DA AMAZÔNIA
TERRITORIALIDADE
A sala do prédio novo da pós-graduação ficou lotada durante a defesa da dissertação de mestrado de Edivan Barros de Andrade, na terça-feira passada.
O ex-superintendente do Ibama, que agora é assessor da deputada Dalva Figueiredo, e mestre em Desenvolvimento Regional, apresentou o trabalho intitulado "Gestão Territorial na Faixa de Fronteira da Amazônia:o Caso do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque".
AÇÕES AFIRMATIVAS

A nova administração da Seafro vem se esforçando para implementar no Estado a Lei nº 10.639 que contempla o ensino de História Afrobrasileira nas escolas públicas e privadas do ensino fundamental. Programa curso de especialização para qualificar professores do Estado, através de uma Universidade Pública, que poderá ser a UEAP ou a UNIFAP.
Enquanto isso coordena o "Amapá Afro", um programa de Governo que objetiva implementar Ações Afirmativas nas comunidades remanescentes de quilombos e projetos de infra-estrutura que visem melhorar a qualidade de vida dos afrodescendentes.
Na área cultural a Secretaria traz a proposta de editar e reeditar livros de autores amapaenses no intuito de preencher o vazio existente na produção literária local e de valorizar o que é importante para nossa literatura. No comando deste último projeto estão os escritores Manoel Bispo, José Pastana e Ricardo Pontes.
A SANTA EM SUA BERLINDA

A Comissão responsável pela acolhida da imagem de Nossa Senhora de Nazaré na UNIFAP programou para os dias 28 e 29 de setembro a sua visita na instituição.
Haverá missa no auditório multiuso a ser celebrada pelo padre Paulo Roberto no dia 28, e no dia seguinte a imagem sairá para outra instituição. Embrapa, Hospital Sarah Kubitschek, Correios, Iepa e a Comunidade Jesus Bom Samaritano são os órgãos convidados.
Os fiéis pedem "que enquanto educadores e educandos é nosso dever proporcionar a claridade de que a sociedade tanto precisa para orientar-se com segurança em meio a realidade que nos cerca".
Espera-se que desta vez não soltem fogos (pistolas) no meio do Campus, pois no ano passado a empolgação de alguns fez provocar incêndio no cerrado, fustigando a vida de dezenas de caimbés, sucuúbas e frondosos paricás.
OVO DE DINOSSAURO

Sebastião Menezes conta em seu livro "Curiaú: resistência de um povo" (Sema: 2004) que: "Certa vez, João Pio e Antônio Breu foram caçar e apanhar açaí, levaram os cachorros. Assim que entraram na mata da várzea os cachorros começaram a correr e latir. Eles foram atrás e depararam com um grande ovo, segundo eles nunca tinham visto um assim. O local estava limpo, as folhas do açaizeiros estavam esfaceladas. Os dois saíram e se perderam no mato. Tentaram voltar e encontraram novamente o ovo. O velho Pio disse: Olha o ovo, Breu. Outra vez tentaram encontrar o caminho de volta e nada. Fizeram um outro pique e foram direto no rumo do ovo. Outra vez o Pio disse: - Olha o ovo, Breu. Como se alguma coisa os atraísse. O Breu disse: - Se nós voltarmos outra vez aqui eu vou atirar nesse ovo. Dessa vez encontraram o caminho. Aquele ovo estava sendo protegido por um ser invisível, mas hoje vendo reportagem pela televisão, se tem certeza que aquele ovo era de dinossauro, que poderia estar encantado, os homens eram vistos, mas não podiam vê-lo".
ZUNIDOR
Finda setembro e as flores dos ipês amarelos começam a cair para renovar suas folhas e enfeitar a paisagem urbana. Nesta época veem-se muitos focos de fogo e muita fumaça saindo dos quintais. / Chegam as notícias tristes: morreu em Roraima o percussionista Joacy Mont'Alverne, antigo integrante de "Os Cometas". Faleceu na quarta-feira o professor da rede estadual e compositor Bazinho, conterrâneo de Óbidos-PA, um grande amigo. Que Deus os acolha bem./ Ocorre em São Paulo no período de 29 de setembro a 03 de outubro o XIV Encontro Internacional "As Melhores Práticas em Educação Continuada". Informações no site: www.vanzolini-ead.org.br/portais/reclabr. / O radialista Amistrong faz o maior sucesso nas tardes de domingo em uma FM da cidade. Gire o seu dial./ A Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia oferece Prêmio Jovem Cientista para as modalidades Ensino Médio e Ensino Superior./ Rafael Costa, filho da amiga Rachid e neto do seu Washigton, de Mazagão Velho, foi selecionado para ser o Tutor (professor) do curso Mídia na Educação, para funcionários da rede estadual, a ser gerido pela UNIFAP. Rafael é doutorando em Comunicação na UNISINOS, em São Leopoldo-RS./ Será de 26 a 31 de outubro a Semana Universitária de Educação Física –SUEF, com o tema: Possibilidades, tendências e perspectivas. Acesse: www.suef.com.br./ Você pode acessar www.igualdadedegenero.cnpq.br para se informar e participar do 5° Prêmio Construindo a Igualdade de Gêneros, um concurso de redações e artigos científicos da UNIFEM/CNPq, até 20 de novembro./ Está em Macapá o maestro, arranjador e excepcional músico Manoel Cordeiro./ Inderê. Volto na sexta.
sábado, 26 de setembro de 2009
TAVARES É DO PDT
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
ESTRADA DO TEMPO
1981 - III Festival da AUAP - Associação dos Universitários do Amapá, na sede dos Escoteiros do Laguinho - Governador Barcelos entregando o prêmio de 1º Lugar a Fernando Canto pela música "Currículum Vitae". Esta música foi interpretada por Manoel Sobral que foi aclamado como melhor intérprete do Festival.PILÃO 34 ANOS

Orivaldo Azevedo (percussão e voz) e Juvenal Canto (violão e Voz)

Fernando Canto (violão, cavaco e voz) e Eduardo Canto (percussão e voz)

Leonardo Trindade (violão e voz) e Bi Trindade (voz)
NOVE RESPOSTAS A POSSÍVEIS PERGUNTAS AO GRUPO MUSICAL PILÃO
Por Fernando Canto
- O Grupo Pilão surgiu em 1975, por ocasião do III Festival da Canção do Amapá, realizado no auditório da Rádio Difusora de Macapá, quando usamos na música “Geofobia” (de Fernando Canto e Jorge Monteiro) um Pilão como instrumento musical, tocado para marcar o ritmo. O Grupo foi formado por jovens oriundos dos movimentos católicos de juventude.
- Aconteceram em festivais de música e em escolas nos anos seguintes. O Grupo se estruturou a partir de 1980 quando realizou projetos culturais nas escolas da capital e do interior, além de shows eventuais de divulgação da nossa música.
- Não. Os primeiros componentes foram Fernando Canto, Bi Trindade e Juvenal Canto. Vários músicos e intérpretes integraram o Grupo, mas o os membros atuais estão juntos desde aproximadamente 1995. É formado por Orivaldo Azevedo (percussão), Eduardo Canto (percussão), Bi Trindade (voz), Juvenal Canto (voz e violão), Leonardo Trindade (violão) e Fernando Canto (cavaquinho e violão).
- A maioria das músicas gravadas pelo Grupo é de autoria de Fernando Canto. Outros compositores como Bi Trindade, Eduardo Canto, Sílvio Leopoldo e Manoel Cordeiro têm músicas gravadas nos três CDs que compõem a discografia do Grupo.
- Porque a idéia do Grupo sempre foi a de valorização da cultura local e popular em todas as suas manifestações. Acreditamos que com a pesquisa musical séria e a sua divulgação podemos dar mais valor a nossa identidade amapaense e amazônica, para fortalecê-la. Nesse contexto praticamente fizemos o mapeamento musical folclórico do Estado, promovendo as suas manifestações mais importantes e dando-lhes o (re)conhecimento e o retorno que merecem. Muito ainda precisa ser feito, pois o cancioneiro popular do Amapá é vasto e entrelaçado, devido ao alto fluxo migratório que traz para cá pessoas e culturas diferentes.
- Sim. Muitas músicas gravadas pelo Grupo trazem um teor ideológico de natureza política que reflete a preocupação de seus componentes com os diversos momentos da ocupação amazônica e as transformações econômicas, ambientais e sociais que o Estado do Amapá enfrenta. As músicas “Pedra Negra” (Fernando Canto) sobre a exploração do manganês na Serra do Navio,“Zanga dos Rios” (Silvio Leopoldo), “Tumuc-Humac” (Fernando Canto), “Saga” (Fernando Canto e Sílvio Leopoldo) e “Andareiro” e outras são alguns exemplos disso.
- “Quando o Pau Quebrar” participou em1974 do festival do SESC e TV Itacolomi em Belo Horizonte-MG e ficou em 2º lugar.
- Creio que é a vontade de mudar o que precisa ser mudado. È busca de liberdade e esperança em dias melhores. Tem a origem onomatopaica do cair de uma árvore, da arrebentação da pororoca, de um grande estrondo no céu, que pode significar uma grande confusão. Considero uma metáfora popular para expressar a necessidade do conflito e a mudança posterior a um fato.
- Por ser uma metáfora numa canção de protesto, “Quando o Pau Quebrar” simbolicamente é um desejo de luta contra a opressão que naquele momento histórico (1974) era representada pelo regime ditatorial dos militares. No contexto histórico estavam a Guerrilha do Araguaia e o episódio do “Engasga-Engasga” em Macapá, no qual fui envolvido e detido para interrogatório no quartel do Exército. A música também é uma expressão de raiva e esperança do compositor.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
POESIA SONORA PARA RAUL SEIXAS

Este ano, em agosto, o velho Raul Seixas fez vinte anos de morto, após uma parada cardíaca causada por uma pancreatite aguda. Mas até hoje está sendo reverenciado pelos seus fãs em todo o Brasil.
Na época do festival, Enzo Rúbio, poeta amapaense de origem italiana que anda meio afastado do meio artístico, e vive como agricultor na localidade de Coração, assim comentou a música em um panfleto.
"Assim como Raul, antes de ser somente uma justa homenagem a Raul Seixas, retrata a situação da personagem que quer ir embora para conectar-se com os seres do infinito, após o cumprimento de sua missão no planeta terra. É um rock-balada-pop envolvente, lavrado com linguagem diferenciada e atual, original na temática que, mesmo simples, carrega elementos modernos de pura manifestação crítica (político-econômica) sobre a realidade".
"Fabricado na ante-sala do 3º milênio, é música-mística-epifânica que faz interface com os ícones sobreviventes da civilização ocidental. É como Raul porque traz códigos digitais e se confunde no espaço-tempo das mentes. É poesia imagética e sonora, leitura ambígua do mundo em transformação".
No dia da final do festival estávamos sentados esperando o resultado na frente do teatro quando falei ao meu parceiro que Raul ao contrário era Luar e Assim era Missa. Ele olhou a lua que acabara de surgir, parida do rio Amazonas, e me disse: - Nossa música é de uma "Missa ao Luar", Acho que ganhamos. Em seguida deu aquela sua risada característica.
Eis a letra da canção:
Letra de Fernando Canto
Música de Osmar Jr
Alô parentes, ancestrais astrais
Além do céu dos aviões azuis
Desatem suas redes amarradas nas estrelas
E liguem, por favor, a nave mãe
Ancorada no invisível
- Quem pede é o capataz das nebulosas perdidas
Quero pôr o dedo nos anéis de gelo
Quero penetrar os buracos negros
E ter um infopapo com uns ETs legais
E cantar apaixonado as paixões universais
- Assim como qualquer viajante com saudade
Eu sou como Raul
E banhem-me de luz e venham me buscar
Pois eu não sou daqui, eu sou de lá... (bis)
Eu já cumpri com a minha parte
Influenciando as civilizações
Até causei as guerras das religiões
Enquanto no deserto um óleo negro
Em gás, em grana, em sangue se tornou
- Minhas sandálias gastas carregaram o pó da terra
Eu rebentei o mundo louco
Fornecendo aos poucos minhas invenções
Deixei pelas montanhas palavras em vão
De tanto apregoar aos sete ventos
O livro que vocês, parentes, me deixaram
- Na hora angustiante dos trovões
Eu sou como Raul
E banhem-me de luz e venham me buscar
Pois eu não sou daqui, eu sou de lá... (bis)
Eu quero ser feliz, eu quero ir daqui
E nunca mais voltar pra carregar a cruz

ASSIM COMO RAUL FOI A GRANDE CAMPEÃ DO 4º FESTIVAL AMAPAENSE DA CANÇÃO
A música, que é uma homenagem a Raul Seixas,
retrata o desejo de sair do planeta de um personagem
Osmar Júnior deu um show de interpretação e, junto com Fernando Canto, ficou com o primeiro lugar do 4º Femac
por ELIANE CANTUÁRIA
Com letra de Fernando Canto e música de Osmar Júnior, Assim como Raul retrata o desejo de ir embora de um personagem, após o cumprimento de sua missão no planeta Terra. Segundo Enzo Rúbio, a grande vencedora do 4º Festival Amapaense da Canção (Femac) é um rock-balada envolvente e de linguagem diferenciada, sem deixar de ser atual, já que trata elementos modernos como a informática de uma maneira simples e peculiar.
Ao todo, os autores de Assim como Raul levaram R$ 7.800, pois a música ganhou, além dos R$ 5 mil do primeiro lugar, os prêmios de melhor intérprete (Osmar Júnior), melhor arranjo (Osmar Júnior), melhor letra (Fernando Canto) e canção mais popular.
Foram três dias de muita agitação e participação do público, que movimentou não só a classe artística do Amapá mas a população que foi ao Teatro das Bacabeiras conhecer e comprovar o alto nível dos intérpretes e compositores do Estado. Assim, o 4º Femac conseguiu reunir, nas partes interna e externa do Teatro, pelo menos três mil pessoas em cada dia de apresentação. Do lado de fora uma estrutura com barracas, bares, mesas, cadeiras e telões foi montada para facilitar o acompanhamento das torcidas.
Mesmo com todos os esforços da equipe da Fundação de Cultura do Amapá em fazer deste o melhor festival, algumas reclamações do público devem ser levadas em consideração, como o atraso da programação, a falta de consulta da platéia para a seleção da música mais popular e a participação de artistas já conhecidos. "O festival é para descobrir novos talentos e não referendar aqueles que Macapá já tem e conhece", afirmou Alexsara Maciel, professora universitária.
Como acontece em vários festivais, nem sempre as músicas escolhidas pelos jurados correspondem às selecionadas pelo público, que entre palmas e vaias ouviu a divulgação das vencedoras pelos radialistas Humberto Moreira e Lígia Mônica, ambos da Rádio Difusora de Macapá.
As vencedoras
Em primeiríssimo lugar, com 78 pontos Assim como Raul, de Fernando Canto e Osmar Júnior, com interpretação e arranjo de Osmar Júnior; em segundo, com 75,5 pontos, Outro Trovador, de Floriano, com interpretação de Elaine Araújo e arranjo musical de Floriano; em terceiro, com 73 pontos, Um Beijo, de Ademir Pedrosa e Cleverson Baía, com interpretação e arranjo de Cleverson Baía; e, finalmente, em quarto lugar, com 72,5 pontos, Último Enredo, de Aroldo Pedrosa e Joel Elias, interpretada por Olivar Barreto e com arranjo de Edílson e Nelson Dutra.
Os jurados
O corpo de jurados da finalíssima do 4º Femac foi formado por: Mário Araújo (médico, violonista e guitarrista) e Fernando Chaves (músico, cantor, compositor e produtor musical) para o quesito música; Manoel Souza (professor de Teoria Literária e pró-reitor de Ensino da Unifap) e Elíude Viana (licenciada em Letras, escritora e poeta) para o quesito letra; José Olímpio Spíndola (licenciado em História, saxofonista com experiência na área musical) e Edison de Oliveira
(músico, saxofonista, clarinetista) para arranjo; Décio Rufino (juiz de Direito e cantor) e Lula Jerônimo (músico profissional, cantor e compositor) para interpretação.
Na presidência do júri a professora Ângela Nunes, licenciada em Letras e pós-graduada em Metodologiado Ensino Superior.
Som de primeira, acústica indiscutível, banda-base afinada e iluminação impecável. Desta forma os artistas avaliaram a estrutura física do 4º Femac, que aconteceu no período de 28 a 30 de dezembro passado.
*Publicado no site do jornal "Folha do Amapá"
IV FESTIVAL DA CANÇÃO AMAPAENSE*
Por DOMICIANO GOMES
A organização, o sucesso de público e a participação de grandes talentos e revelações da música regional e brasileira marcaram o IV Festival Amapaense da Canção/FEMAC, realizado pelo Governo do Estado no período de 28 a 30 de dezembro. A 4º edição do evento foi realizada no Teatro das Bacabeiras, que acabou ficando pequeno para o público participante. Ainda assim ninguém ficou sem participar do festival. A organização do evento havia colocado dois telões na área externa do teatro que asseguram participação do público.
Os resultados de público e critica mostram que o evento vem crescendo significativamente em organização e participação. Além das canções que estavam concorrendo, o festival teve grandes atrações como Belchior, Senzalas, Selma Reis, Zé Geraldo, Grupo Pilão e Banda Negro de Nós.
Das canções inscritas, 24 foram selecionadas para as duas eliminatórias que ocorreram nos dias 28 e 29. De cada eliminatória ficaram classificadas seis para a grande final realizada dia 30 quando saiu a vencedora. O cantor e compositor amapaense Osmar Junior em parceria com o escritor Fernando Canto foram os grandes vencedores do festival que teve o seguinte resultado:
1º lugar: Assim como Raul
De: Fernando Canto/ Osmar Júnior
Intérprete: Osmar Júnior
2º Lugar: Outro Trovador
De: Floriano
Intérprete: Elaine Araújo
3º Lugar: Um Beijo
De: Ademir Pedrosa/Cleverson Bahia
Intérprete: Cleverson Bahia
4º Lugar: Último Enredo
De: Aroldo Pedrosa/Joel Elias
Intérprete: Olivar Barreto
*Publicado no site do Governo do Estado do Amapá
Equinócio

Ao adormecer sabia que em algum lugar, dentro dos contornos da escuridão havia uma fortaleza erguida sob o signo da cruz e o golpe da espada. Sonhava com tiros de canhões e defesas heróicas contra piratas e aventureiros. Hoje o poeta ergue o verbo e interpreto como advérbio: "Como diariamente/as pedras dessa fortaleza/bebo o rio afoito" *.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
BoconaAberta
CADERNO DO MEIO DO MUNDO - Macapá 2001Três
Poemas
De Morte
E um Assombro
Inelutável
viu araras negras resmungando no pedaço
Se um brilho se acende cedo
A morte ronda montanhas
A morte rompe defesas
Grito pelo rio de ondas verticais
Sons de ferramentas–grilos (cry cry cry) abafam tua angústia no banheiro
Hithcock passa como um Alfredo jardineiro num macacão de jeans molhando a grama vermelha.
PRODUÇÃO DA ARTE AMAPAENSE
Tela de R. Peixe. Acervo de Fernando Canto"A arte é uma produção; logo, supõe trabalho".
(Alfredo Bosi)
"O homem tem na inteligência a possibilidade permanente para modificação."
(Câmara Cascudo)
"Sim, eu quero saber. Saber para melhor sentir, sentir para melhor saber."
(Cézzanne)
Eduardo Galeno, no início do seu famoso trabalho “As Veias abertas da América Latina” fala que na divisão internacional do trabalho existem dois lados: Os países que se especializaram em ganhar e os que se especializaram em perder. E, inevitavelmente, como latinos, trazemos o estigma da dominação, da espoliação conseqüente e da própria depauperação econômica, política e social que veio gerar o que chamamos de identidade cultural. Aliás, conceito hoje dado e usado a partir de um ponto de referência (exterior) que faz promover a diferença e nos caracteriza como povo, se bem que estejamos latentemente vestidos com roupas ufanistas para não admitirmos a condição de alienados e para alimentarmos estereótipos que nós mesmos criamos. “No Brasil somos um povo alegre”, dizem uns. “O brasileiro é malandro, gosta de samba e Futebol”, dizem outros. Porém é necessário aprender que não basta dizer simplesmente que somos diferentes, é importante mostrar em que nos identificamos.
Desta forma é que ao tentarmos abordar o presente tema, tomamos o cuidado de levar em consideração a questão da identidade cultural, pois, a nosso ver, todas as dificuldades encontradas para uma análise coerente da questão, estão pautadas na formulação de conceitos paralelos e na historicidade de fatos que nos leva a discutir pela primeira vez com seriedade e sem paixões as características principais da produção artística amapaense. Entretanto, falar em arte amapaense, também significa discorrer sobre a homogeneidade regional a partir das suas semelhanças históricas culturais e ecológicas, pois, a bem da verdade, somos, os amazônidas, o mesmo povo sofrido, abandonado, isolado e pobre, onde as ligações principais com o resto do País são apenas a língua e o infortúnio, porém unidos por símbolos patrióticos que nos tornam brasileiros, todos vítimas conscientes da propaganda e explorados nas nossas riquezas.
Embora nos esforcemos procurando um conceito que expresse a realidade, a arte amapaense continua existindo na paisagem como um detalhe obscuro, raramente percebido por algum observador atento.
Precisamos ser realistas. Somos uma placa cultural insignificante, afixada e pisada diariamente no vasto plano criativo do país.
Em que pese a crua realidade, a arte amapaense é mais um símbolo representativo da divisão do trabalho, existente em qualquer sociedade, do que um fazer, do que um conjunto de atos pelos quais se muda a forma, se transforma a matéria oferecida pela natureza e pela cultura.
Nessas condições é que procede a afirmação de que a produção local de arte é pequena, de baixa qualidade e carece de aperfeiçoamento. Não obstante os esforços individuais e as lições do passado, percebe-se a fragmentação de alguns setores artísticos gerada, sobretudo pela falta do aperfeiçoamento e de aprofundamento da identidade cultural, além da inércia, da megalomania e de um xenofobismo arraigado de artistas que se organizam em grupos com visível intuito lucrativo. De cima da escada, falsos artistas bradam suas conquistas, criando novas escolas, jactantes, mas que não percebem a necessidade de estender – se à universidade técnica, procurando também o aprimoramento intelectual a partir de novas visões de mundo, sem precisar ser essencialmente um freqüentador de academias ou um asceta. É preciso conhecer o "outro lado", como criticava os gregos Heródoto, ao constituir exemplo da emergência de consciência crítica. Outras visões de mundo são importantes, pois "não há teorias, dizia Lênin, mas visões de mundo".
No quadro geral, pensar e pesar são as medidas para que se busque o aprimoramento artístico e a conseqüente produção de obras respeitáveis. Se arte é um trabalho que exige a atenção de todos os sentidos, se faz necessário afirmar que no Amapá somos mais artífices que artistas, apesar de mascarados pelo status causado pela eterna competição do trabalho intelectual versus trabalho manual. Pouco pensamos. A sociedade, que também não despertou o inconsciente, avaliza a situação, pois ainda que reconheça a agudez do espirito do artífice (mais humilde), dá mais valor ao artista. E todos querem ser artistas, nunca artífices.
Não nos cabe falar da importância do papel que as artes desempenham no desenvolvimento da mente do homem, preparando – o para criar novos instrumentos, mas sim que é mediante as artes que a cultura se realimenta a partir da observação básica da existência do potencial de energia contido no inconsciente coletivo. Ao artista cabe o ofício de condensar essa energia.
Quem pesquisa para aprimorar sua arte? Quem se esmera para criar arte respeitável e receber um digno valor pelo seu trabalho? Quem? O artista plástico quer ver sua arte admirada, o escritor quer ver seu livro publicado, o músico quer audiência quando executa seu instrumento. Mas poucos artistas amapaenses vão à luta, aprimorando-se paralelamente. Enquanto isso, dentro de casa, a maioria torna-se cada vez mais provinciana e envolvida numa redoma.
Como modificar o quadro e condensar essa energia? Precisamos realmente refletir sobre a existência de uma arte amapaense. Acreditamos que para tanto temos que fazer uma retrospecção para tentar abstrair conceitos seguros.
É perigoso até entrarmos nessa questão pela possibilidade de cometermos injustiças sermos mal interpretados já que o assunto pode tanger a suscetibilidade de certos artistas. Mas como roupa suja se lava em casa e a nossa proposta é sermos sinceros e isentos de paixões, continuemos.
Nos fins do século passado, com a fundação do primeiro Jornal amapaense, o "Pinsonia", destacou-se um poeta de grande sensibilidade chamado Francisco de Mendonça Júnior que tinha o pseudônimo de Múcio Javrot. Na mesma época o poeta Vaz Tavares mostrava seu talento em Belém. Anos depois com a transformação do Amapá em Território o primeiro governador trouxe para cá intelectuais, artistas e trabalhadores para "construir uma civilização sob o equador". Entre eles figuravam o pintor Aloísio Carvão, os poetas Álvaro da Cunha e Arthur Marinho, o maestro Oscar e outros. Mais tarde chegaram Alcy Araújo, Ivo Torres, R. Peixe, Espírito Santo, Aracy Mont'Alverne, Nonato Leal, Amilar Brenha e uma gama de produtores de arte que aqui estiveram e participaram ou ficaram definitivamente.
O Amapá foi crescendo. Sua capital encheu- se de modernos aparatos urbanos. Os filhos dos pioneiros e dos nativos aqui estudaram e completaram seus estudos em outras regiões do país. Muitos voltaram para colaborar com o desenvolvimento da arte local, paralelamente às suas atividades profissionais. Quem achava que possuía talento tornava-se autodidata e era estimulado pelos que começaram a militar na imprensa. Formaram-se grupos teatrais com Cláudio Barradas e Creuza Bordallo, foram criados grêmios literários e Jornais nos colégios. Surgiram movimentos artísticos, com exposições de artes plásticas, lançamentos de livros, concertos musicais, espetáculos de dança, mostras de artesanatos, etc.
Alguns artistas de talento, reconhecidos nacionalmente como Manoel Costa, Vicente Souza e Aloísio Carvão, fugiram do diletantismo e da empolgação, se aprimoraram e se firmaram no cenário artístico nacional.
Assim procede a pergunta: Existe uma arte amapaense ou uma arte de amapaenses?
Com 43 anos de criação o Território do Amapá ainda é dependente, se bem que a história do isolamento geográfico não constitui a "grande barreira" do desenvolvimento cultural, mas sim um obstáculo política e administrativamente ultrapassável se levarmos em conta que todos precisamos nos aprimorar, nos libertando dos preconceitos de dominados e partindo para enfrentar a realidade mesmo que ela seja áspera, para que nos tornemos mais sérios, até que Macapá seja um centro cultural digno daquilo em que nos identificamos no contexto da Amazônia e do Brasil.
A arte amapaense pode aflorar do conhecimento dinâmico. Pode brotar com o beneplácito de todos, através do trabalho e da seriedade de uma luta organizada. Ninguém vai nos dizer que estaremos radicalizando se estivermos nos libertando, nos desalienando de uma conduta errônea e mal orientada. O homem e a natureza estão aí para serem observados e a inteligência do artista está funcionando numa perfeita harmonia com a natureza. Portanto, precisamos aliar a coragem do trabalho com o talento desprovido de farsas para buscarmos no futuro a existência de uma verdadeira arte amapaense, produzindo e consumindo algo mais que nossas próprias dores.
Agora podemos passar para a questão do apoio institucional, e perguntar sobre o papel do Estado no aperfeiçoamento do produtor de arte.
A atividade artística pode ser considerada uma atividade política. De um lado a partir da argúcia e do talento do artista. Toda vez que o Estado articula apoio à arte, está na realidade, manipulando uma relação de poder, de cujas teias o produtor de arte dificilmente sairá se não tiver a visão necessária para juntar os filamentos e condensar a energia vinda do social. É dever de a instituição Governo preservar a herança cultural de um povo. Nós aqui do Amapá, contudo, sabemos e sentimos o quanto a cultura tem se tornado mais um instrumento de conservação do que de transformação, pois o apoio financeiro e técnico tem sido tímido e a prática de estimular valores artísticos tinha sempre e caráter de dar alguma satisfação à sociedade e de preencher relatórios das Secretarias. O importante e vital apoio da administração amapaense à classe artística existe incipientemente. Há, também, um certo estímulo e boas intenções na maioria das vezes barradas pelos burocratas das Coordenadorias Setoriais de Planejamento que sempre dizem: - Não tem verba para isso... Como se não houvesse um planejamento orçamentário dos órgãos responsáveis pela cultura. Na verdade esses órgãos não têm autonomia e sofrem uma superposição política que castra as mais importantes iniciativas.
O favorecimento de alguns em detrimento de muitos talentos não é uma prática exclusiva do Amapá. Em toda parte existe tráfico de influência, barganha e negociações sub – reptícias no meio artístico. Aqui houve muito disso. O Governo quase sempre só beneficiava aos amigos ou aos que se submetiam às suas vontades.
Hoje, quando nos preocupamos mais vigorosamente com os problemas da arte no Amapá temos que levar em consideração a independência criativa que os novos tempos proporcionam e buscar fontes alternativas de produção das áreas artísticas, mas nunca deixando de nos aperfeiçoar, criando e criticando o que nos rodeia para que possamos nos orgulhar de ter uma genuína arte amapaense.
Bibliografia
BENOIST, Luc. Símbolos, Signos e Mitos. Belo Horizonte, Interlivros, 1976.
BOSI, Alfredo. Reflexões sobre Arte. São Paulo, Ática, 1985
CASUDO, Câmara. Civilização e Cultura. Volume I, Rio, INL/José Olímpio, 1973
FURTADO, Celso. Criatividade e dependência. Rio, Paz e Terra, 1978
_______________. Cultura e Desenvolvimento em Época de Crise, Rio, Paz e Terra, 2ª Edição, 1984.
GALEANO, Eduardo. As Veias da América Latina. Rio, Paz e Terra, 20ª Edição, 1983.
GONZALES, Horácio. O que são Intelectuais. São Paulo, Brasiliense, 3ª Edição, 1982.
ORTIZ, Renato. Cultura Brasileira e Identidade Nacional. São Paulo, Brasiliense, 1985.
Obs.: Este texto, escrito em 1986, descreve o panorama artístico que o autor percebia em Macapá. Muita coisa mudou. Mas será que foi tanto assim?
terça-feira, 22 de setembro de 2009
O POUSO DO ANJO VIAJANTE
Anjo migrador anda silencioso pelo trapiche que ora aporta – barco de sonhos, nave de asas longas. O anjo tem a pele avermelhada como a de um de buriti flutuante ao sabor da maré, e ronda misterioso pela frente da cidade onde pousa. Parece ter medo ou desconfia que ela não o receba. Ele olha, então, o rio, uma grande dádiva de Deus, e sente o vento lhe arrepiar o corpo como um hálito frio da madrugada, uma brisa que levanta seus cabelos aureolados pela luz contraposta da lua minguante, nesta noite onde a viagem parece terminar.
Depois que o dia acende sua fogueira e o rio se prende num alguidar é que se vê o anjo em sua humildade: é velho e está nu. De suas minúsculas asas se soltam antigas penas que pegam penura e depois descem mansamente nas águas. Ele caminha pela ribanceira para se hospedar na primeira casa que encontrar.
– Bom dia, diz ao homem da primeira casa. – Tenho fome, me arranje o que comer.
– Bom dia nada, seu velho tarado. Vá tratar de se vestir que já-já minha família se acorda e eu não quero que ninguém lhe veja assim.
O anjo se magoa. Ah, nada como um anjo magoado pela malícia e a incompreensão dos homens comuns. Ele chora, abana as asas e voa, para o espanto do homem da primeira casa.
Ele desce. Limpa as lágrimas. Assua o nariz com as mãos. Não desiste. Bate na segunda casa. Pergunta à dona dela: - A senhora poderia me dar água?
A mulher, ainda sonolenta, despeja-lhe um balde d'água e lhe diz: – Vá tomar banho, miserável. Isso são horas de me acordar?
Ah, ele sofre de novo. E chora e sobe e rola nas nuvens cirros, lamentando a incompreensão dos seres humanos, para o espanto e a confusão que fez nascer na cabeça da mulher da segunda casa.
Mas ele pára e releva tudo. "São apenas seres humanos", pensa. Vai à terceira casa e uma criança lhe diz: – Entre vovô, deite na rede do papai que eu vou servir um café quentinho pra você.
A criança conversa como um adulto. Liga a TV, mas não pára de tagarelar. O anjo viajante fica abismado com a precocidade daquela criatura e se envolve em um diálogo onde não cabem tantas palavras e onde os gestos se rompem entre lágrimas retidas e rios de alegrias.
Perto do almoço o anjo sente o odor do peixe em cozimento. Gostosos cheiros de ervas desconhecidas para ele dançam no ar do ambiente. A criança lhe explica tudo, fala os nomes das coisas. Repete a toda hora: – Papai tá pra chegar, fique pro almoço. Ele saiu cedo pra pescar, mas já tá vindo.
Admirado, o anjo decide ir embora antes que o pai da criança chegue, pois não queria ser novamente ser incompreendido pelos adultos. Come a caldeirada de filhote, um manjar inusitado em sua desmemoriada vida eterna. Sai pé-ante-pé, saciado e contente, com as asas revigoradas empurradas pelo vento forte da maré.
Ao chegar lá em cima, começa a crescer tão desmedidamente que chega cobrir o sol. Olha para baixo: uma multidão de curiosos fere as retinas sob o sol. Todos querem ver esse prodígio.
O homem da primeira casa, que lhe negara comida e o escorraçara, a tudo assiste e lhe acena. A mulher que lhe negara água diz a todos os vizinhos que o saciara, mas que era um anjo ingrato. A criança da terceira casa – que lhe dera abrigo, água e comida – solta seus cabelos amarelos ao vento e ele então pára no ar, volta ao tamanho inicial e sorri. Faz um sobrevôo e de rasante rapta a criança e a coloca em cima das águas do rio. Ela anda sem medo e chama as pessoas para que a acompanhem. Todos vão a ela, exceto o pai, aflito, que acabara de chegar para o almoço.
O sorriso do anjo é forçado agora. Há de se notar que ele fora arrogante e não queria fazer o que fez. Mas está feito. As águas do rio se revoltam e todos nelas se afundam. Todavia o sol a pino se abre e raios brilhosos conduzem a criança a terra para os braços do seu pai.
Aí o anjo entra em seu barco alado, que agora parece uma bola de fogo, e parte levando em suas asas todos os cheiros, todos os gostos e todas as palavras ditas pela criança. Ouve-se um trovão e uma chuva amazônica desaba sobre a cidade.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Onde está Ane Karoline?










